Não é preciso ser apreciador do Carnaval para sentir, de imediato, a melancolia que grita nas notas tristes do frevo que acompanha a entrevista inicial, quando um depoente, a despeito de confessar as suas reservas quanto à festa supracitada - da qual alega não sentir precisamente saudades -, sente falta da mesma, por tudo o que ela representa cultural e identitariamente para os pernambucanos. Estes recursos discursivos, habilmente inseridos, expandem a apreciação do documentário, que não é destinado apenas a foliões saudosistas, mas também a quem, sem perceber, retroalimentava preconceitos carnavalescos...
Filmado inicialmente em 2021, em preto-e-branco, nas cidades de Recife e Olinda, este filme apresenta-nos a ruas esvaziadas, onde duas jovens dançam em câmera lenta e pessoas envolvidas com os cortejos festivos comentam o impacto devastador das medidas necessárias para conter a contaminação pela COVID-19 em suas atividades. Quase todos os depoentes comentam que choraram bastante, ao assistirem às 'lives' de celebrações que, até o ano anterior, invadiam as ruas, graças ao fervor das pessoas envolvidas. Há desde a cantora que narra o pesadelo em que se percebia diante de um público vazio até o padre que pedia licença, no seminário, para participar dos eventos locais do sábado de Carnaval, passando pelo maestro Spok, autodeclarado "o último folião", pois, junto aos seus familiares, toca nas ruas até o derradeiro momento festivo, antes da mudança de tom instaurada pela Quarta-Feira de Cinzas...
Se, na primeira parte do filme, afeiçoamo-nos aos depoentes, envolvidos com tradições importantes como os desfiles do Galo da Madrugada e do Homem da Meia-Noite, além dos blocos Cariri, Macuca e vários outros, quando chega o ano de 2022, depois que várias destas pessoas declararam-se ansiosas para curtir a folia - pois "no ano que vem, vai ter Carnaval, com fé em Deus!" -, assiste-se a uma situação ainda mais preocupante e entristecedora, pois os casos da doença aumentaram e, pelo segundo ano consecutivo, o Carnaval foi suspenso. Um dos depoentes enfatiza que algo semelhante aconteceu no mesmo período do século anterior, mas as pessoas foram resilientes e perceberam-se recompensadas por uma comemoração acachapante, no que foi batizado como "a festa do fim do mundo". Em 2023, na parte derradeira do filme, as cores voltam, tanto quanto o Carnaval e as pessoas na rua. Quem caminhava sozinho pelas vielas desoladas agora chora de alegria, para o deleite conjunto do espectador, que se sente tão expurgado quanto os envolvidos nas celebrações pernambucanas. O Carnaval é algo sobremaneira democrático, afinal!
Não obstante a abordagem epocal escolhida e as falas dos entrevistados serem valiosíssimas, os diretores não ficam refém das mesmas, em termos cinematográficos: o filme possui enquadramentos incríveis, como aquele em que músicos são mostrados executando os seus instrumentos, cada qual na janela de uma residência, ou o 'contraplongée' do Homem da Meia-Noite, opulento numa madrugada chuvosa. Recorrentemente, comenta-se que há algo de triste em meio às comemorações, que são historicamente projetadas justamente para que os indivíduos "esqueçam os seus problemas" e, por conta da ótima trilha musical do filme, queremos saber mais sobre aquelas pessoas, incluindo compositores celebres, como J. Michiles, e o expressivo Carlos da Burra, que, quando está carregando o Homem da Meia-Noite, diz que converte-se no personagem, conforme requerido pela tradição eminentemente popular. Segundo o padre anteriormente mencionado, as mesmas pessoas que participam das procissões religiosas são as que carregam os estandartes da festa pagã, de modo que sagrado e profano compartilham as mesmas bases objetais e procedimentais. Valeu a pena esperar pela explosão frevista do desfecho!
Wesley Pereira de Castro.
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