Num dos segmentos deste média-metragem ("Dia de Visita"), o tom melancólico é estabelecido de maneira afetiva, contrariando quem esperava mais relatos de violência, injustiças ou situações de abandono no ambiente prisional, comum a este tipo de documentário: de repente, para os realizadores, o que interessa é a interação estendida, compartilhada, em atmosfera crepuscular, no qual um grupo de amigos envia mensagens de esperança para amigos detidos e executam canções ao violão. Os toques ou vozes eventualmente desafinam, mas a beleza desta demorada seqüência instaura-se definitivamente na recepção emocionada dos espectadores, que percebem que estão diante de um filme dificílimo de ser classificado - mas elementar no que ele provoca enquanto exercício de empatia.
Em "para os guardados" - título estilizado em letras minúsculas -, temos o paroxismo audiovisual de um percurso advindo de curtas-metragens produzidos através do projeto A.P.N. (Aliança Periférica Nacional), coordenado pelos realizadores, sendo um deles mui consagrado por suas exposições, decorrentes da formação em Artes Plásticas. Os temas destes curtas-metragens (exploração da força proletária e solidariedade às vítimas de violência policial, sobretudo) justificam a ação inicial, que é a de organização de 'kits' de víveres a serem entregues a familiares de pessoas encarceradas, que os repassarão aos seus companheiros privados de liberdade e, assim, será estabelecida a lógica discursiva da obra, respeitando o eu-lírico das pessoas mostradas. Não se trata de uma abordagem conseqüencial, em que os motivos para as prisões são trazidas à tona: aqui, o que interessa é a humanização de quem, noutros contextos, é tratado como mera estatística negativa. "Se um branco corre, ele é considerado atleta; quando um negro está correndo, ele é tachado de ladrão", comenta um dos entrevistados.
Editado de maneira crua, ciente de que quaisquer convenções cinematográficas prévias não abarcariam adequadamente as intenções acolhedoras desta obra, o filme investe numa linguagem documental de reinvenção, assumindo a impressão de amadorismo como sinceridade produtiva. É como se testemunhássemos a transmissão de uma ligação de vídeo íntima dos amigos e familiares dos internos, com vistas a alegrar um pouco o cotidiano de repressão destes últimos. Folhas de maconha são focalizadas com orgulho botânico e os versos de uma famosa canção da banda Natiruts ("Liberdade pra Dentro da Cabeça") são acusticamente ressignificados, enquanto declaração de ausência. Noutro momento, um dos ex-internos pinta a tornozeleira eletrônica que é obrigado a usar com cores vivas e exortações frasais de cariz basquiatiano. O filme é convertido num rascunho de carta de amor, entregue no momento mesmo de sua confecção. Algo que exige do espetador muito mais que arcabouço artístico para ser devidamente assimilado: pura declaração de fé e aceitação do próximo, para além (ou aquém) do que este tenha feito. Um instrumento imagético e sonoro de legítima ressocialização!
Wesley Pereira de Castro.


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