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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Mostra Tiradentes/Festival de Brasília 2026: SABES DE MIM, AGORA ESQUEÇA (2026, de Denise Vieira)


Um dos grandes méritos deste filme, em relação a várias produções recentes que tematizam distopias, é não querer explicar em excesso: ele permite que - ou melhor, convida - o espectador a preencher as lacunas tramáticas, a partir das referências ampliadas de violência de gênero que as personagens compartilham, em seus diálogos marcados por lembranças de precariedade e sobrevivência em meio à prostituição. Esta última palavra é ressignificada no roteiro, aliás: as mulheres realizam "atendimentos", concatenando as necessidades eróticas dos clientes às suas próprias, de modo que ambos satisfaçam-se mutuamente. O espaço do bordel é mostrado, sobretudo, como um lugar de acolhimento e aceitação. 



Nos primeiros dois terços dos noventa e seis minutos de duração, Rúbia (Pietra Sousa) instala-se como protagonista: após um acidente no comboio em que viajava, ela conhece Margô (Cida Souza), uma cafetina que alega ter mais de duzentos e cinqüenta e oito anos de idade e já ter morrido mais de cinqüenta vezes. Dotada de poderes de levitação, esta cafetina apresenta Rúbia a outras mulheres que, como ela, enfrentaram algum problema de trajeto, no afã por libertarem-se de situações persecutórias anteriores. No contexto em que elas vivem, as mulheres são maltratadas por homens violentíssimos, conhecidos como Lanternas. Mas elas encontrarão uma maneira de desintegrá-los, ao mesmo tempo em que aproveitam-se positivamente da energia sexual de quem visita o bordel para compensar as frustrações do cotidiano. 



Rúbia é filha de uma prostituta célebre, que ensinou-lhe tudo o que ela sabe, quando ainda freqüentava a "Feira do Priquito", e, junto às suas companheiras de estadia e profissão, ela compara as suas preferências erotógenas: há quem aprecie cheirar axilas, há quem compare lambidas anais a experimentar um bolo de aniversário e há quem desgoste de chupar ouvido, por causa do gosto desagradável de cêra. É quando todas estas mulheres tornam-se igualmente protagonistas, em cenas entrecortadas de sexo, que apregoam a possibilidade de restauração de alguma liberdade através do prazer... 



Por ser uma diretora de arte premiada, Denise Vieira é bastante exitosa na construção do ambiente em que aquelas mulheres vivem, cercado por espaços desertificados, atravessados pelos trens que transportam quem foge da perseguição dos Lanternas. Trilha musical e fotografia conferem ao filme uma atmosfera lynchiana, em combinação com o registro quase documental das conversas femininas, como o instante em que Rúbia interpela uma costureira idosa acerca da idade e peculiaridades comportamentais de Margô. Sobremaneira criativo em sua exposição distópica, este filme traz em seu título uma menção ao esquecimento, que surge enquanto lamento na seqüência das fodas concatenadas. Que possamos voltar, enquanto nação, ao privilégio combinatório entre gozo e memória! 




Wesley Pereira de Castro. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Mostra Tiradentes 2026: PARA OS GUARDADOS (2025, de Desali & Rafael Rocha)

 

Num dos segmentos deste média-metragem ("Dia de Visita"), o tom melancólico é estabelecido de maneira afetiva, contrariando quem esperava mais relatos de violência, injustiças ou situações de abandono no ambiente prisional, comum a este tipo de documentário: de repente, para os realizadores, o que interessa é a interação estendida, compartilhada, em atmosfera crepuscular, no qual um grupo de amigos envia mensagens de esperança para amigos detidos e executam canções ao violão. Os toques ou vozes eventualmente desafinam, mas a beleza desta demorada seqüência instaura-se definitivamente na recepção emocionada dos espectadores, que percebem que estão diante de um filme dificílimo de ser classificado - mas elementar no que ele provoca enquanto exercício de empatia. 


Em "para os guardados" - título estilizado em letras minúsculas -, temos o paroxismo audiovisual de um percurso advindo de curtas-metragens produzidos através do projeto A.P.N. (Aliança Periférica Nacional), coordenado pelos realizadores, sendo um deles mui consagrado por suas exposições, decorrentes da formação em Artes Plásticas. Os temas destes curtas-metragens (exploração da força proletária e solidariedade às vítimas de violência policial, sobretudo) justificam a ação inicial, que é a de organização de 'kits' de víveres a serem entregues a familiares de pessoas encarceradas, que os repassarão aos seus companheiros privados de liberdade e, assim, será estabelecida a lógica discursiva da obra, respeitando o eu-lírico das pessoas mostradas. Não se trata de uma abordagem conseqüencial, em que os motivos para as prisões são trazidas à tona: aqui, o que interessa é a humanização de quem, noutros contextos, é tratado como mera estatística negativa. "Se um branco corre, ele é considerado atleta; quando um negro está correndo, ele é tachado de ladrão", comenta um dos entrevistados. 


Editado de maneira crua, ciente de que quaisquer convenções cinematográficas prévias não abarcariam adequadamente as intenções acolhedoras desta obra, o filme investe numa linguagem documental de reinvenção, assumindo a impressão de amadorismo como sinceridade produtiva. É como se testemunhássemos a transmissão de uma ligação de vídeo íntima dos amigos e familiares dos internos, com vistas a alegrar um pouco o cotidiano de repressão destes últimos. Folhas de maconha são focalizadas com orgulho botânico e os versos de uma famosa canção da banda Natiruts ("Liberdade pra Dentro da Cabeça") são acusticamente ressignificados, enquanto declaração de ausência. Noutro momento, um dos ex-internos pinta a tornozeleira eletrônica que é obrigado a usar com cores vivas e exortações frasais de cariz basquiatiano. O filme é convertido num rascunho de carta de amor, entregue no momento mesmo de sua confecção. Algo que exige do espetador muito mais que arcabouço artístico para ser devidamente assimilado: pura declaração de fé e aceitação do próximo, para além (ou aquém) do que este tenha feito. Um instrumento imagético e sonoro de legítima ressocialização



Wesley Pereira de Castro.  

sábado, 29 de janeiro de 2022

Mostra Tiradentes 2022: GRADE (2022, de Lucas Andrade)


Na primeira e na última cena deste documentário, há uma importante rima visual: o 'close-up' de um olho que observa algo através de um orifício circular. Ao invés de designar a escopofilia típica dos filmes de suspense, a intenção aqui é metaforizar os protocolos de entrada e saída das instituições penitenciárias, em que os dias de visitação são prévia e rigorosamente estabelecidos. Pelo que costa dos créditos finais, o diretor elaborou este filme a partir de reflexões acadêmicas sobre privação da liberdade, enfocando os métodos peculiares de reabilitação da APAC - Associação de Proteção e Assistência aos Condenados. A sede escolhida foi a de São João del Rei, em Minas Gerais, e as filmagens ocorreram entre dezembro de 2019 e fevereiro de 2020. 


Caracterizada como uma entidade civil de direito privado (com origem visivelmente missionária), a APAC propõe um tipo de sistema prisional em que os "reformandos" assumem a responsabilidade pela manutenção, vigilância e demais tarefas do local em que estão confinados. O diretor emulou esse colaboracionismo através de uma estrutura coletiva de roteiro, no qual os próprios detidos puderam dar vazão às suas idéias. Disso, resultaram seqüências inusitadamente lúdicas, em que os prisioneiros imaginam-se surfando, desviando de tubarões, tricotando no espaço e até mesmo imitando o programa sensacionalista apresentado por Marcelo Rezende  [1951-2017], numa representação bem-humorada que zomba do discurso preconceituoso que considera os Direitos Humanos benesses concedidas apenas para quem infringiu a lei... 


Por vezes, o documentário flerta com a publicidade institucional, no sentido de que demonstra a efetividade freireana desse tipo de organização, em que os detentos interagem construtivamente entre si. É um defeito menor, visto que esta faceta é também autocrítica e ostensivamente ficcional: malgrado o excesso de versículos religiosos e frases de auto-ajuda pronunciados ou pintados na parede, um dos artífices diegéticos ousa atuar numa anedota fílmica em que um padre insere fotos de uma mulher nua em sua Bíblia Sagrada. Os conflitos são escassos, pois as tarefas e deveres dos presos são continuamente rememorados, e todos estão cientes de que devem seguir as regras definidas e compartilhadas entre eles. No turbilhão de ódio atrelado às manifestações de extrema-direita no país, um filme como esse devolve a esperança nas pessoas. Que não saibamos quais crimes foram cometidos pelos detentos foi mais um importante mérito. Para diretor, espectador e personagens reais, o que importa é a possibilidade de amar e seguir em frente, conforme fica evidenciado na seqüência em que os parentes comparecem ao lugar: em meio às grades, valiosas brechas! 


Wesley Pereira de Castro. 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Mostra Tiradentes 2022: EXTREMO OCIDENTE (2022, de João Pedro Faro)


A execução de "Ainda Queima a Esperança" (composta por Raul Seixas e Mauro Motta, mas eternizada na voz de Diana), durante os créditos de abertura, deixa evidente o quanto este jovem diretor sabe utilizar a ambigüidade como recurso narrativo que preenche as lacunas de uma 'mise-en-scène' tão multifacetada quanto espontânea. Na primeira metade do filme, o corpo alvo de Miguel Clark é fetichizado ao extremo, na preparação para o banquete solitário em que ele será servido e deglutido, enquanto deleite final. Por mais de trinta minutos, não há diálogos, apenas o cotidiano recluso do soldado, constantemente descamisado, escondido numa caserna. Se, por um lado, a paranóia bélica deste rapaz é evidente (vide a maneira alucinada como ele manuseia as armas que carrega), por outro, o espectador é sensorialmente convencido a acreditar que o estado de sítio é real: ouvimos barulhos de explosões em meio à mata, assustamo-nos ao perceber o cadáver de uma tartaruga na praia... 


Através de um primoroso desenho de som, marcado por muita distorção e breves excertos das mais variegadas canções - num rádio a pilha em persistente sintonização -, a perturbação mental e a solidão do protagonista são transmitidas: o arremedo de trama é apenas um pretexto para encontros que acentuam a fome sentida por todos os personagens. A aparição do temível Canibau (Daniel Brito) - não obstante confirmar a sua anunciada periculosidade , visto que ele dilacera o protagonista, numa sangrenta e demorada seqüência - reitera a profusão de significados que o diretor induz através de cada mínimo elemento: a lentidão cerimoniosa com que este vilão alisa o corpo do efebo protagonista transborda homoerotismo. "Ainda pior que a fome é a comida", confessou o soldado num monólogo anterior!


Ratificando a solidez de sua curta mas já marcante filmografia (este é apenas o seu segundo longa-metragem), João Pedro Faro chama a atenção pela efetividade com que emula a estética do VHS em seus planos, chegando ao ápice de, no encontro do soldado com um homem que faz churrasco de cachorros (Bruno Lisboa), ser oferecido um "chá de fita", que faz com que o protagonista passe mal. Na verdade, apenas reforça o torpor que ele já sentia, a ponto de ignorar a rapacidade de seu arquiinimigo. Quando perguntado se ele já escrevera algo, a resposta é a de que rascunhara cartas de suicídio; quando o flagramos lendo alguma coisa, trata-se do "Almanaque do Recruta Zero" ou de um manual sobre técnicas de socos atribuído a Bruce Lee [1940-1973]. O elã masturbatório atravessa todo o filme, sobretudo em seu clímax 'gore': valendo-se da suspeição antropofágica que alega que, ao ingerirmos a carne de alguém, inoculamos também com as suas características e traços de personalidade, o Canibau fuma os charutos fullerianos ao som da mesma trilha marcial que acompanhava os passos repetitivos do soldado. Neste filme, a sobrevivência é dependente do gozo. Um exercício de estilo imperfeitamente magistral! 



Wesley Pereira de Castro. 

Mostra Tiradentes 2022: BEM-VINDOS DE NOVO (2021, de Marcos Yoshi)


Num contexto produtivo em que as tanto as câmeras quanto os equipamentos de montagem tornaram-se sobremaneira acessíveis, proliferam os filmes íntimos, sobre peculiaridades das famílias dos realizadores. Aliadas à sensibilidade dos mesmos, a coragem de auto-exposição e a disponibilidade de material de arquivo podem render trabalhos valorosos de compartilhamento existencial e humanista. Mas também podem desencadear julgamentos morais irrefreáveis, quando as discordâncias entre o que é mostrado e o arcabouço emocional dos espectadores são confrontadas pela narração condutiva em primeira pessoa, eventualmente demarcada pelas expectativas de (re)encontro. Quando esse diálogo não dá certo, a impressão é a de que o desenlace fílmico chafurda no pior tipo de chantagem emocional... 


A despeito de suas ótimas intenções, este ensaio cinematográfico pertence ao segundo grupo: por mais que nos sensibilizemos diante do projeto do jovem diretor em documentar a sua dupla tentativa de reaproximar-se dos pais e, a partir daí, "realizar um bom filme", lamenta-se que os êxitos tenham sido aparentemente parcos em ambos os anseios. Versão estendida de um produto audiovisual apresentado numa qualificação de Mestrado em 2017, este longa-metragem registra uma série de chavões relacionais sobre os 'dekasseguis' (termo japonês que designa quem "trabalha distante de casa"), sobre o preenchimento das satisfações de continuidade heterossexual e sobre uma noção empresarial de família. De acordo com o eu-lírico desta produção, a ambição dos imigrantes nas regiões em que se instalam é a de obterem bastante dinheiro, a fim de que possam voltar ricos para os seus países de origem. A família Yoshisaki realmente acredita nisso: o modo como o pai do diretor, Roberto, relaciona-se com os seus parentes parece atender a uma cartilha de completa adesão ao toyotismo. Neste sentido, ele acha justificável trabalhar doze horas por dia, em rotinas de seis dias por semana, para "garantir um futuro melhor para a família". Cada abraço entre Roberto e seu neto é como se fosse um procedimento empregatício. Lembramos categoricamente que a família é um Aparelho Ideológico de Estado, conforme definiu o filósofo Louis Althusser [1918-1990].


Acerca de si mesmo, Marcos Yoshi fala pouco: tudo o que interessa ao filme é o seu crescimento como "órfão de pais vivos", de modo que a volta de seus genitores ao Brasil faz com que ele cogite o preenchimento dos instantes de convivência não desfrutados na adolescência. Para sua mãe, não valeu a pena passar tanto tempo longe dos filhos e não testemunhar o crescimento deles, mas, para Roberto, quedar no Brasil equivale à confirmação de um fracasso. Após uma série de empreendimentos comerciais falhos (em razão das crises econômicas que caracterizam o país), ele decide voltar para o Japão. Evita-se qualquer observação de cunho político, mas sabemos que Roberto é irritadiço e obcecado pela lógica financeira. Assistir a este filme é como observar um programa de condicionamento: tudo é organizado para exortar a importância do sacrifício enquanto valor necessário à existência na Terra (entendida como metonímia capitalista). Trata-se da faceta nipônica da ética protestante, involuntariamente convertida em tema de um documentário que flagra o descompasso afetivo entre pai e filho (vide a seqüência em que este último pede para tocar na cabeça do primeiro). No quartel final, quando o próprio diretor vaja para o Japão, ele homenageia algumas cenas de um curta-metragem primevo da cineasta Naomi Kawase: os resultados são radicalmente opostos, infelizmente!


Wesley Pereira de Castro. 

Mostra Tiradentes 2022: MAPUTO NAKUZANDZA (2021, de Ariadine Zampaulo)


Numa observação imediata, este filme parece uma versão moçambicana do clássico brasileiro "Se Segura, Malandro!" (1977, de Hugo Carvana), visto que ambas as produções são constituídas por esquetes urbanos alinhavados por uma onipresente locução radiofônica. As intenções da diretora são distintas: o filme possui um viés acentuadamente dramático, não obstante a profusão de momentos cômicos. Logo no começo, uma situação tão banal quanto revoltante: um grupo de jovens masculinos encontra uma garota desmaiada num carro, provavelmente após ter sido estuprada. Ao invés de ajudarem-na, eles decidem responsabilizá-la pelo que aconteceu: "se saiu com uma roupa curta dessas, quem mandou estar sozinha?". Tratar-se-á de uma abordagem política do cotidiano, portanto. 


A montagem do filme obedece à progressão cronológica de um único dia, e acompanhamos um grupo de personagens aleatórios (uma noiva que desiste do casamento no dia da cerimônia, um rapaz que deambula pela praia, as pessoas que amontoam-se diante de uma mesquita, uma mulher enciumada que reclama das escapadas sexuais de seu marido), enquanto as locutoras da estação de rádio titular recitam poemas e executam canções. No momento mais poético, o bailarino Domingos Bié (já falecido, conforme verificamos nos créditos finais) dança ao som de alguns versos do escritor Ungulani Ba Ka Khosa, que exalta a necessidade da resistência africana: "estes homens da cor de cabrito esfolado que hoje aplaudis entrarão nas vossas aldeias com o barulho das suas armas e o chicote do comprimento da jibóia". A mensagem é fortíssima!


Nem todas as seqüências são tão expressivas, entretanto: algumas são meramente casuais, porém dotadas de inequívoca beleza, como naqueles instantes em que uma moça arruma-se diante do espelho, no cair da noite, complementando o ciclo de eventos que possivelmente desembocará - por causa do machismo dominante na sociedade - nos dizeres preconceituosos que ouvimos dos transeuntes ébrios no início do filme. Enquanto consolo, algo que ressoa poderosamente na transmissão: "através da Arte, podemos identificar o diagnóstico para as doenças da alma". Procede, muito obrigado pela rememoração!



Wesley Pereira de Castro. 
 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Mostra Tiradentes 2022: PANORAMA (2021, de Alexandre Wahrhaftig)


Demonstrando, mais uma vez, possuir excelente manejo das vinculações emocionais entre passado e futuro dos ambientes urbanos, este cineasta paulista erige poderosos alicerces em seu novo documentário, mas falha ao depositar paredes inconsistentes sobre eles, da mesma maneira que algumas moradoras comentam acerca das residências precárias com mais de dois andares construídas nas cercanias de onde vivem. Há poucas explicações diretas sobre como surgiu a região em pauta (o Jardim Panorama, na valorizada Zona Oeste da cidade de São Paulo), mas logo compreendemos que trata-se de uma favela gradualmente invadida pelas imposições condominiais do capitalismo especulativo... 


É interessante como a polissemia de algumas palavras é estrategicamente adotada no roteiro do filme: que o diga a imbricação de sentidos entre o título - que é também o nome da comunidade - e a abordagem panorâmica efetivada pelo realizador. O que sabemos sobre aquelas pessoas provém do que elas nos contam, através de diálogos permeados pela observação de fotografias antigas e pelos desenhos de plantas arquitetônicas rudimentares das moradias idealizadas. Quando verificam a abundância de andaimes ao redor, dois amigos comentam sobre o que será construído ali, com base nos rumores circundantes: "estas são as especulações"!


Malgrado a relevância dos discursos e a pungência dos testemunhos sobre reabilitação e resistência espacial e identitária ("dizem que não existimos, mas estamos aqui"), o documentário não é bem sucedido ao emular, via montagem, as noções comunitárias levadas a cabo pelos moradores entrevistados. Ficam os bons exemplos do homem que, na infância, via o seu avô medir diuturnamente o espaço em que residiam e dos versos tronchos porém sinceros da banda de 'hip-hop' Realidade Humana, cujos membros lutam para continuarem dignos, no que tange às condições de moradia, empregabilidade e recondicionamento social. O que o filme nos mostra é valioso, ainda que as seqüências funcionem muito mais isoladamente (vide a festinha de aniversário que acontece num determinado momento) que em sua concatenação enquanto longa-metragem. Afinal, favela é espaço de harmonia em meio ao desequilíbrio



Wesley Pereira de Castro. 
 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Mostra Tiradentes 2022: SESSÃO BRUTA (2022, direção coletiva: As Talavistas e ela.ltda)


Cada segundo deste longa-metragem despeja jorros de iconoclastia: a direção é coletiva, o discurso das personagens não-produtivas (em sentido capitalista) reivindica a valorização racial e não-binária (em termos de gênero), as imagens e sons fundem-se num halo continuamente psicodélico e o tom despojado das gravações emula tanto as produções da Belair quanto os filmes de Jack Smith [1932-1989]. Misturando canções românticas ou religiosas norte-americanas com a alegria eufórica em ritmo de 'funk', além de questionamentos diretos à modorra do espectador e de relatos pessoais de agressão e resistência, as travestis que se manifestam ao longo dos quase noventa minutos de duração denunciam os preconceitos advindos de homossexuais masculinos, dos cineastas brancos e da sociedade em geral. Em monólogos confusos e poucos audíveis, as personagens reclamam e dançam...


Na trilha musical, há desde composições de Tiago Mata Machado (que também colabora na montagem) até o tema instrumental de um clássico média-metragem anarquista francês: tudo é assimilado pela antropofagia contemporânea dessas reivindicantes de uma liberdade revolucionária que é interditada para os marginalizados. No início, um chiste dialogístico envolvendo a voz eletrônica de um sistema virtual de pesquisas (desafiado a falar sobre maconha e LSD); no final, coreografias diante de um caminhão de lixo. No meio, borrões, ensimesmamento, gritos e cantorias. Se as diretoras não chegam a apresentar uma proposta anti-fílmica efetivamente original, suas intenções são ostensivamente afrontosas: assistir a esta baderna audiovisual na íntegra é um verdadeiro desafio de sanidade!


Na falta de algo decoroso a ser dito sobre este exercício de revolta e vacuidade, a transcrição de sua sinopse: "rodado a quente com uma câmera Mini-DV, em 2018, sem grandes preparativos, mas com muito suor e cerveja, o filme se apresenta como uma sucessão de prólogos de um filme sempre por fazer. O que une todos é o desejo de pegar para si uma fatia do mundo". Elas conseguiram, é isso mesmo: os aforismos identitaristas aqui pronunciados transmutam-se numa sucessão arrítmica de torturas. Haja brutalidade


Wesley Pereira de Castro. 

Mostra Tiradentes 2022: A COLÔNIA (2021, de Mozart Freire & Virgínia Pinho)


 Apesar do título sintético e da campanha publicitária que aparece no início (sobre os estatutos de reclusão num leprosário, em meados do século XX), este filme evita a estrutura documental predominante, em que a abordagem do assunto é didaticamente centralizada: quem não pesquisou sobre a sinopse e a conjuntura de formação do bairro Antônio Justa, na cidade cearense de Maracanaú, talvez não compreenda adequadamente o que unifica os três personagens reais acompanhados ao longo da projeção. A assistente social Jaqueline de Aquino Silva é quem faz a intermediação discursiva, visto que ela mantém um projeto de valorização do bem-estar dos pacientes ainda internados. Alguns deles são entrevistados e compartilham pungentes declarações de vida, como o idoso que canta um repente sobre as condições do divórcio de sua mãe... 


A despeito destes liames denuncistas, a coesão entre os demais personagens e situações é tênue: percebemos que a especulação imobiliária surge como tema central, mas o enfoque é assimétrico, em razão de uma amostragem pouco enfática do cotidiano dos protagonistas. A jovem Rayane, por exemplo, está em busca de uma casa para alugar e chama a atenção por sua simpatia, mas não contribui muito para o que é deslindado no roteiro; o entregador de água mineral Francisco Lucas, por sua vez, possui relevância na exposição de seus dilemas enquanto pai solteiro, mas comporta-se de maneira inespontânea diante das câmeras. As seqüências em que ele conversa com um 'rapper' branco soam bastante sintomáticas neste sentido, não obstante a trilha musical ser interessante - destaque para a canção "Pensam que Eu Não Sei", de Payaço Abu.


Quando os três personagens encontram-se numa mesa de bar e, ao final participam de uma cerimônia de aniversário da Colônia, o filme revela com mais clareza as suas intenções, reverberando a militância abnegada de Jaqueline quanto à ressignificação histórica daquele ambiente, como ela própria faz questão de declarar. Os instantes de diversão de Francisco Lucas e seu filho no parque aquático são contundentes na imputação dos caracteres globalizantes comuns aos espaços nordestinos contemporâneos, mas essa questão foi explorada de maneira insuficiente pelos diretores. Seja como for, eles incitam-nos a querer saber mais sobre o que é narrado. Isso, enquanto reação documental (por mais ficcionalizado que o filme demonstre ser, em vários momentos), é uma ótima conseqüência! 



Wesley Pereira de Castro. 

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Mostra Tiradentes 2022: ÍMÃ DE GELADEIRA (2022, de Carolen Meneses & Sidjonathas Araújo)


Se, em termos históricos, o cinema sergipano é lembrado sobretudo pela sua fase superoitista com forte acento documental, as produções contemporâneas surpreendem pelo modo como alinhavam subversões dos gêneros tradicionais e discursos ostensivamente políticos. Este curta-metragem, por exemplo, impressiona pela precisão de seus efeitos visuais (a cargo do versátil artista itabaianense Marlon Delano) e pelo modo como o contexto social é respeitado em sua duração e substrato comunicativo: o rádio a pilha é quase onipresente, em razão de a sinopse preconizar quedas constantes de energia elétrica. Na programação das estações ouvidas pelos personagens, notícias sobre o desaparecimento de pessoas, assassinatos de rapazes negros e a voz potente da 'rapper' Anne Carol e sua canção "Epidérmica", executada novamente nos créditos finais. Cada detalhe é repleto de sentido: os diretores foram percucientes em suas opções fotográficas e na caprichada direção de arte. 


Dentre os aspectos mais elogiáveis deste filme, destaca-se a presença de Severo D'Acelino, importantíssima entidade actancial do Estado, que traz muitas referências antropológicas consigo, no pouco tempo em que aparece: a sua máscara facial 'high tech' e o modo como interage com o pequeno (e eloqüente) Joaquim Gael, na oficina que serve de cenário, diz muito sobre as intenções militantes do curta-metragem, que não são exclusivas aos elementos chocantes da trama. Amalgamando situações que já puderam ser verificadas em filmes de John Carpenter e Jordan Peele, para ficar em exemplos imediatos, o roteiro funciona tanto em sua denúncia antirracista quanto em sua coerência genérica: a cena em que o costureiro Gigante (Ícaro Olavo) arruma os alimentos antes de inseri-los na geladeira é prenhe de tensão!


Entretanto, alguns problemas também são verificados, quiçá relacionados à ainda incipiente produção cinematográfica com envergadura ficcional em Sergipe: apesar de belíssima e expressiva, Margot Oliveira exagera na solenidade com que executa os seus movimentos cênicos. A interação afetiva com seu parceiro é muito boa, bem como os instantes em que ela executa o labor de costureira, mas os diálogos parecem desengonçados, o que fica ainda mais evidente na seqüência em que ela dirige-se à oficina, para escolher um eletrodoméstico usado (numa conjuntura dramatúrgica pouco verossímil, em comparação com o restante da obra). Mas é um defeito que não macula a efetividade da produção: em termos técnicos, o filme é muito bem produzido; no que tange à sua mensagem, que chegue à maior quantidade de espectadores!



Wesley Pereira de Castro. 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Mostra Tiradentes 2022: SEGUINDO TODOS OS PROTOCOLOS (2022, de Fábio Leal)


 Tal qual já se podia perceber em seus curtas-metragens, dois elementos possuem importância central na filmografia de Fábio Leal: a naturalização da nudez (e, por extensão, a comunhão dialogística através dos corpos, metonimizada no instante em que um personagem utiliza a sua abertura uretral para emular uma lembrança infantil) e a importância das transformações do espaço urbano no comportamento dos protagonistas (não sendo casual que ouçamos ruídos de reforma dentro do apartamento onde acontece a maior parte das ações). Antes que conheçamos Francisco (interpretado pelo próprio diretor), vemos a região em que ele habita: há vários azulejos caídos num prédio e, mais à frente, veremos trabalhadores atolados no esgoto. Tanto a solidão do confinamento quanto os enlaces fortuitos advêm de condições externas - neste caso, atreladas à pandemia da Covid-19... 


Caracterizando-se ostensivamente como o que já se convencionou chamar "filme de quarentena", este novo trabalho do cineasta combina as supramencionadas recorrências estilístico-discursivas com uma reflexão muito particular sobre o cotidiano homossexual: não deparamo-nos com interações evidentes entre o protagonista Francisco e seus parentes e a relação com os amigos dá-se primordialmente através do enfado acerca do que é publicado nas redes sociais. Ocorrem, entretanto, três encontros decisivos: no primeiro deles, virtual, Francisco conversa com Ronaldo (Marcus Curvelo), um rapaz com quem conviveu por cerca de dez meses, após um flerte carnavalesco, mas cuja falta de afinidade torna-se cada vez mais evidente, em razão dos cacoetes identitaristas do personagem, que é indefinidamente bissexual; no segundo, após uma série de regras pré-estabelecidas, Francisco aceita receber em sua casa um motoqueiro (Paulo César Freire), desde que ele mantenha-se continuamente higienizado; e, no terceiro, Francisco é intimamente desafiado pelo médico Vinícius (Lucas Drummond), que insiste em testar a sua paranóia anticontaminação. "Não quero sair daqui sem gozar", assevera o belo profissional de saúde, que é refutado por Chico: "pois vai. Eu preciso ficar sozinho"!



Há um quarto encontro no filme, que é justamente o retorno do motorista de aplicativo com quem Francisco ousa passear pelas ruas recifenses, na madrugada, ambos completamente despidos (exceto pelo uso de máscaras faciais), na seqüência antológica que encerra o filme. Simpatizamos bastante com o protagonista, não obstante alguns traços de sua personalidade continuarem obscuros ao término da sessão. Uma dúvida: onde ele consegue dinheiro para se manter? Não o vemos trabalhando, ainda que testemunhemos a sua rotina constate de medicação e os seus posicionamentos políticos embasados numa providencial "dieta de informações" (ele não deseja saber nada sobre as sandices bolsonaristas, por exemplo). O diretor foi muito exitoso ao inserir excertos decisivos do acompanhamento midiático sobre a pandemia, como as notícias de falecimentos nos telejornais ou a revolta da bióloga Natalia Pasternak, ao ser confrontada com a futilidade de uma enquete num programa televisivo. 


O tom do roteiro é assaz humorado, mas também reflexivo, com várias observações contundentes sobre as dificuldades de comunicação na atualidade. Em determinado momento, Ronaldo envia para Francisco uma canção cujos versos renitentes ("tudo está terrível, tudo vai mal") opõem-se frontalmente às mensagens de autoajuda ("vai passar, tudo vai melhorar") que lemos no gancho onde o protagonista guarda as suas máscaras e chaves. Durante os créditos finais, ouvimos a voz de Amelinha: "sou diariamente a dor que me passeia/ a dor que me anseia ser". Isso equivale a uma brilhante extensão poética do que é sentido pelo personagem e compartilhado para os espectadores. O filme, portanto, cumpriu à risca o que é anunciado no título: é um profilático diário de sobrevivência através do afeto! 



Wesley Pereira de Castro. 

domingo, 23 de janeiro de 2022

Mostra Tiradentes 2022: QUAL É A GRANDEZA? (2021, de Marcus Curvelo)


Para quem acostumou-se à associação sardônica entre este cineasta baiano e o alter-ego Joder, este mais recente curta-metragem surpreende pela guinada actancial e pela potente adição de melancolia: o protagonista é Murilo Sampaio (amigo íntimo do diretor), que interpreta Isaías, um realizador decepcionado com as frustrações acumuladas de sua profissão, de modo que resolve doar os DVDs com seus filmes ao moradores de uma ilha turística. A estrutura aparentemente documental é subvertida por inúmeras camadas de interpretação: Marcus Curvelo dubla todas as pessoas com quem Isaías interage, até chegar ao cúmulo de dublar o próprio Isaías, não mais reconhecido como tal - que vende água de côco na praia, mas não sabe sequer como abrir este fruto. Ou sabe, mas não quer? As dúvidas são multiplicadas nos jogos especulares do diretor, que finalmente pronuncia o próprio nome, quando recita as cláusulas informais do contrato de colaboração com os entrevistados, em que fica estabelecido que não serão reproduzidas as falas explícitas contra o (des)governo bolsonarista... 


Num exercício de genialidade contornado por sumo alquebramento - realçado pela trilha musical com notas tristemente renitentes, além de versos cantarolados pelo diretor, que lamenta "não poder lavar o coração" -, diversas questões são abordadas nos menos de treze minutos do curta-metragem: desde a ausência de financiamentos ministeriais aos artistas até o violento processo de especulação imobiliária na ilha. Marcus Curvelo desvela uma série de golpes reflexivos que realçam o questionamento titular: a quem serve desistir? Felizmente, para os admiradores deste jovem e inteligentíssimo realizador, ele confirma que "é do Axé e, portanto, não desiste". Ele fala sobre si, ele está representando, há mais ficção que metalinguagem? Tudo se mistura brilhantemente nesta aula de superposição merencória e exortação à colaboração entre amigos (alguns dos filmes que Isaías exibe são dirigidos por Ramon Coutinho, em verdade). Que Marcus Curvelo siga vivo, resistente, firme e valorizando a beleza física de Murilo Sampaio em suas produções. Se houver futuro possível neste Brasil em que (sobre)vivemos atualmente, seus filmes funcionam como galhardos testemunhos de autoafirmação desiludida. Parabéns! 



Wesley Pereira de Castro. 
 

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Transcrições facebookianas sobre a Mostra Tiradentes 2021 : ABJETAS 288 (2021, de Júlia da Costa & Renata Mourão).


 

Para nós, amantes sergipanos do Audiovisual, a estréia do curta-metragem ABJETAS 288 (2021, de Júlia da Costa & Renata Mourão) na Mostra Tiradentes 2021 era um evento mais que especial. Afinal, os bons rumores acerca desse filme eram ouvidos faz tempo. E muitas das pessoas envolvidas na produção são competentes e mui generosas. Logo, acho ótimo que o filme seja tão valorizado desde o seu pontapé inicial de publicização: passei o dia inteiro ansioso. Acabei de vê-lo. Gostei. Chegou a hora de esboçar algumas reações...


Num primeiro momento, chama a atenção a esperteza das diretoras ao investir numa dublagem que sobrepõe e distorce as vozes dos personagens, que utilizam termos regionais em meio aos seus brados contra o cerceamento comportamental. A tônica é assumidamente antitética: é uma ficção científica que admite elementos brejeiros, mixados numa perene trilha musical de cariz eletrônico. Por vezes, parece um videoclipe influenciado por motes do Chris Marker ou do Peter Greenaway. A montagem é frenética e a percussividade somática justifica as idas e vindas de um enredo que finge teleologia, mas resvala na ausência de destino. Busca-se um lugar, mas o percurso sobrepõe-se. Como de praxe, as mulheres precisam resistir a um corpo policial violento e mui preconceituoso. Os encontros são fugidios e desconfiados. A lombra é essencial!



Evidentemente, problemas também são identificáveis: algumas interpretações soam desengonçadas (com exceção de um rapaz bruxuleante, quase todos os coadjuvantes entram nessa categoria), os rompantes abruptos da montagem nem sempre conseguem obliterar as lacunas do roteiro e o título poderia ser ainda mais explicitado, a fim de validar a importância distópica desta obra na conjuntura atual. A bonita fotografia em preto e branco, a alucinada direção de arte e o figurino inventivo compensam aquilo que parece vago ao longo da projeção. Como sói acontecer em reflexões sobre o futuro, o presente importa bastante. O que as diretoras mostram acontece hoje!



Aparentemente, as atrizes principais não dispuseram de muito tempo para a composição de suas personagens, mas entregam-se vigorosamente às mesmas. Há uma cena de mijada num ponto de ônibus que merece ser exaltada por sua imponência resistente. Para além de todas as imperfeições, o curta-metragem corresponde bem às nossas expectativas: empolga-nos ao provar que é possível fazer o que se quer, a despeito das tonitruantes forças em contrário. Nesse embate, o afeto e o risco vencem!



Wesley PC> 


Transcrições facebookianas sobre a Mostra Tiradentes 2021 - seção Aurora - dia 07: EU, EMPRESA (2021, de Leon Sampaio & Marcus Curvelo).


 

Estreou, finalmente, o longa-metragem que eu mais aguardava nesse festival... E superou as minhas expectativas: é ótimo!



Não escondo de ninguém a minha paixão e o meu fanatismo pelo Marcus Curvelo. Apesar de a caricatura intencional nem sempre sustentar-se muito bem em seus curtas-metragens, ele é sempre muito divertido na concepção tragicômica dos dilemas intelectuais de quem é suprimido pela lógica empreendedorista do capitalismo hodierno. Mas atinge o paroxismo da genialidade autocrítica e chistosa aqui: o momento em que ele canta "Mercy", do Shawn Mendes, numa praia, é, desde já, antológico. Uma das melhores metonímias da crise estrutural desse ano que ainda está no início...



O tom humorístico do filme é bem mais escrachado que as aparições anteriores do alter-ego Joder, que, aqui, convive lado a lado com o próprio Marcus (enquanto personagem). Aquilo que é ensaiado em A DESTRUIÇÃO DO PLANETA LIVE (2021) alcança um novo patamar. Não há mais o que esconder: o desespero encenado - e, em mais de um sentido, real - do protagonista tem tudo a ver com a persona cômica de Albert Brooks, com o qual ele guarda alguma semelhança física. Quem viu A VIDA COMO ELA É (1979), deleitar-se-á com o refinamento sardônico desta obra. Gargalhei altissonantemente, muitas vezes, por identificação desenfreada. "Se me oferecessem uma quantia considerável para comer merda, eu o faria", gaba-se o personagem. Eu, não! Kkkk



O modo como a aflição existencial da recusa de alguns serviços, noutras aparições de Joder, descamba para a submissão aos atropelos da uberização sub-empregatícia são mais que sintomáticos. E a progressiva importância concedida ao fascínio enganoso da fama cibermidiática erige o percurso que desemboca num desfecho sublime: não sabia se ria ou chorava, de tão inspirado que achei. Ma-ra-vi-lho-so!



Dentre os brindes acessórios, amei a participação do próprio sobrinho do diretor, Rodrigo Curvelo, numa seqüência esplendidamente documental, achei mui oportuna a abertura com "Tudo é Feito pra Gente Lacrar", do Negro Léo, e aplaudi de pé a interpretação do grande Aristides de Sousa, descoberta insigne de Affonso Uchôa. Filmaço. Já estou na torcida: vai, Joder, buscar o que é teu. Amo-te!



PS: alguém concederia-me a honra de apresentar-me a este astro supremo do novíssimo cinema brasileiro? (risos)


Wesley PC>


Transcrições facebookianas sobre a Mostra Tiradentes 2021 - seção Aurora - dia 06: O CERCO (2020, de Aurélio Aragão, Rafael Spínola & Gustavo Bragança).


 

Enquanto proposta, este filme é incrível: um mergulho em primeira pessoa numa atmosfera de horror classista, que apela para a memória histórica nacional. A atriz Liliane Rovaris é mui expressiva, e demonstra estar plenamente sintonizada em relação ao projeto. Nos créditos finais, uma informação relevante: "colaboração no roteiro: o elenco". A sinopse acostada é excelente, em sua explicitação da lógica fantasmática. Por que o filme soçobra, então? Por causa do sobejo de divergências espectatoriais?



Assumirei a minha culpa: como, aqui no Nordeste, a brincadeira do Marco Polo não é comum, achei o filme presunçoso desde a abertura. Adorei a dinâmica incestuosa das brincadeiras adolescentes dos irmãos Lopes, mas torci o nariz quando uma voz em 'off' disse que teve "um pesadelo... surreal"!



A insistência da atriz-personagem (ou personagem-atriz?) em utilizar frases chavonadas como "o teatro é maior que a vida" incomodou-me também. Ela surge num palco, recitando o monólogo de um clássico bergmaniano oitentista. Mais à frente, a trilha musical incidental de outro filme do cineasta sueco é reconhecida. Os diretores não escondem as suas referências. Nem tampouco as suas condições privilegiadas de observadores culturais. A luta contra a ditadura militar é emulada de maneira sincera, mas também atravessada por condições sociais assaz determinadas, não condizentes com a maioria da população brasileira. É um filme de nicho, portanto. Isso procede?



Se, por um lado, a leitura das cartas e depoimentos sobre a descrição de torturas e desaparecimentos políticos emociona, por outro, a protagonista queda cada vez mais insuportável, ainda que dotada de uma firmeza resistente anacrônica. Pouco a pouco, ela percebe-se vigiada e perseguida. Recebe vídeos com gravações no interior de sua própria residência, tal qual já vimos em filmes célebres de Michael Haneke e David Lynch. O desfecho será climático? Muito pelo contrário, e disso gostei bastante!



Por que este filme não funcionou comigo se, quando isolo seus componentes, parece tudo muito interessante? Justamente porque a mistura pareceu troncha, desenxabida, elitizada (num sentido ruim do termo). Mas a curiosidade pelos projetos vindouros dos responsáveis por esta obra sumamente colaborativa segue atiçada. Hmmmmmm!



Wesley PC> 


Transcrições facebookianas sobre a Mostra Tiradentes 2021 - seção Aurora - dia 05: A MESMA PARTE DE UM HOMEM (2021, de Ana Johann).


 

Pode parecer um pantim, mas, de todos os filmes anunciados à seleção competitiva deste ano, esse era o que eu mais tinha receio em conferir. Inicialmente, por causa da duração (ostensivamente superior aos títulos da mostra) e, posteriormente, por causa da trama genérica. Poucos amigos dispuseram-se a conferi-lo, inclusive, e os que fizeram tacharam o filme de fraco. Procrastinar esta sessão converteu-se numa obviedade...



Dispondo de uma brecha em meu cotidiano, assisti ao filme com certo atraso. E até que gostei! No início, as impressões confirmaram o aval negativo: parecia que o enredo assumia uma postura condenatória em relação à cumplicidade amedrontada de uma mulher, que passava da condição de vítima de um casamento abusivo em legitimadora da violência que sofre (e estende à sua filha). Até que algo acontece, e modifica sutilmente a composição da protagonista...



Em verdade, a impressão de trama genérica assume-se: já vimos algo parecido em pelo menos dois filmes franceses (um deles, baseado numa estória balzaquiana) e numa regravação hollywoodiana. Mas esta versão paranaense contém os seus agrados específicos. Ainda que permeados pela tendência à internacionalidade evasiva, metonimizada nas lembranças de um intercâmbio na Alemanha, por parte de um personagem semi-desmemoriado, e na canção em inglês dos créditos finais...



Não achei o filme fraco. É passivo-agressivo, mas o faz de maneira intencional. O ritmo é sobremaneira lento, mas goza de muita verossimilhança em relação à região erma que foi filmado. A garota Laís Cristina tem um bom desempenho, mas fica sufocada pelas interpretações exageradas de Irandhir Santos e Clarissa Kiste. O melhor ator do filme, entretanto, atende pelo nome de Luigi, o intérprete do cachorro Israel. Se houver uma láurea canina nesse festival, já temos um merecido vencedor!



Ao término da sessão, fica-se a impressão de algo perturbado, proveniente do desenvolvimento do enredo, que não explica tudo, deixa algumas pontas propositalmente soltas. Outras estão apertadas em excesso, não por acaso do lado feminino. Mas o título do filme clarifica aquilo que está em evidência. Gostei. Mexe com nossos preconceitos!



Wesley PC> 

Transcrições facebookianas sobre a Mostra Tiradentes 2021 - seção Aurora - dia 04: KEVIN (2021, de Joana Oliveira).


 

Temos um favorito na edição desta ano? Talvez esteja cedo para celebrar, mas acho difícil outro título em competição superar a sutileza deste filme tão bonito. A sinopse prometia "a história de uma amizade entre mulheres". Deparamo-nos, além disso, com uma poderosa análise da influência das contradições (inter)nacionais no cotidiano delas.



A Kevin do título é a amiga ugandense da diretora, com quem estudou, há quase vinte anos, na Alemanha. Após enfrentar alguns dissabores no Brasil (o pai está em tratamento quimioterápico, por exemplo), Joana resolve viajar ao país-natal de sua amiga, conforme prometeu fazê-lo há algum tempo. Não tem filhos, o que não a impede de locomover-se para o exterior. Kevin, por sua vez, é mãe de três filhos pequenos. Conversa com eles em alemão, interage com a diretora em inglês e realiza as atividades comerciais no idioma regional. É uma mulher que sintetiza múltiplas capacidades de adaptação social - entre elas, obviamente, a lida com o racismo, conforme abordará num diálogo perto do desfecho da obra.



Desde o começo, torna-se irrelevante imaginar o que é efetivamente documental ou ficcional no filme. As transições são tão sutis, o que a diretora compartilha conosco é tão incrível, que queremos ser amigos daquelas mulheres. E, por uma hora e vinte minutos, conseguimos...



Dentre as variegadas qualidades desta obra, enfatizo o modo como o diálogo afetivo é naturalizado, mesmo ao abordar temas-tabus: fala-se sobre um doloroso aborto espontâneo enquanto brinca-se com um cachorro; ficamos na expectativa acerca de quem seria o pai das crianças de Kevin e, quando a revelação surge, isso ocorre de maneira trivial. A protagonização é concedida ao que as amigas compartilham entre si: o assunto principal é o encontro, que conduz-nos ao cotejo de apanágios nacionais. Afinal, Joana proveio de um Brasil sob o jugo do bolsonarismo, mas não precisa invocar esta seita maligna para externar o que a aflige politicamente. Idem quanto a Kevin, que não carece retroalimentar preconceitos existentes sobre o neo-colonialismo levado a cabo pelas fingidas ONG's na África. Ela mostra, nós percebemos. Basta!



Admito que, nos minutos finais, as conversas tendem a ficar solenes, o que interfere na desenvoltura rítmica. Percebendo-se isso, há uma seqüência de enorme simbologia, e o filme acaba. A amizade continua. Os problemas e alegrias da vida também. Maravilhoso!


Wesley PC> 


Transcrições facebookianas sobre a Mostra Tiradentes 2021 - seção Aurora - dia 03: ROSA TIRANA (2020, de Rogério Sagui).


 

Pouco antes da sessão, eu estava com dor de cabeça. E não sei em que sentido esta cefaléia interferiu em minha apreciação do filme. Afinal, ele é curtinho, possui uma cadência infantil em sua narrativa fabular, a fotografia é muito bonita... Por que eu não gostei, então?


Pouco a pouco, percebo que gostar ou não gostar de uma obra - sobretudo num contato inicial - é o de menos. Enxergá-la com afeto, prestar atenção aos seus recados sub-reptícios, defender o seu direito de existência no delicado panorama exibitório do cinema brasileiro: eis o que é importante! Mas, mesmo isso, torna-se difícil aqui. Achei o filme deveras incongruente...


Na abertura, algo chamou-me a atenção: a seqüência de créditos iniciais dura exatos três minutos, e conta com uma música terna (composta em parceria com o próprio diretor), que será cantada por Elba Ramalho a posteriori. Este anúncio evidencia a perspectiva religiosa do filme, filmado no município interiorano de Poções, na Bahia. O personagem de José Dumont lamenta que "faz cinco janeiros que não chove". Ainda assim, floresce... 


A Rosa do título é uma garotinha interpretada por Kiarah Rocha, muito simpática, que resolve sair sozinha de casa, disposta a encontrar Nossa Senhora Imaculada. Apesar de ela rezar todas as noites, ao lado da mãe, a impressão é a de que a Santa não ouvia as suas preces. Por isso, ela tenciona entregar pessoalmente uma flor vermelha que brotou no sertão. E, no caminho, deparar-se-á com figuras típicas do imaginário local: retirantes que arrastam-se em meio ao barro; um coronel que não esconde seus desejos pedofílicos, ao insistir que "bonecas também comem"; um grupo de artistas mambembes, que anima a garotinha numa festa súbita, com algodão doce e tudo. Ôba!


Tinha tudo para ser um filme encantador, não é? Bem feitinho como o diacho! Mas o padrão é de seriado da TV Globo: mui qualitativo, em termos técnicos, porém desprovido da essência sertaneja que celebra. O que é curioso, já que a equipe pertence àquele ambiente, compreende as necessidades daqueles moradores. Por que não funciona? Talvez por ser excessivamente 'for export'!


Espero não estar difamando injustamente um filme que pode gozar de boa comunicação com o público. Para mim, pareceu muito cansativo. No encerramento, a seqüência de créditos da abertura é repetida, do mesmíssimo jeito. A flor foi entregue, ao menos: alguém duvidou que a chuva cairia?


Wesley PC>


Transcrições facebookianas sobre a Mostra Tiradentes 2021 - seção Aurora - dia 02: ORÁCULO (2020, de Melissa Dullius & Gustavo Jahn).

Quem, assim como eu, adentrar a sessão deste filme aguardando um prolongamento do filme anterior da dupla de diretores, MUITO ROMÂNTICO (2016), talvez decepcione-se. Ou aceite o desafio de mergulhar num percurso distinto, quiçá mais telúrico, naturalista. Por motivos óbvios, pensei no cinema de James Benning: há o céu ofertado à contemplação, os planos-seqüências contados a dedo, os personagens isolados e à deriva...


Sendo um trabalho de continuidade autoral, em certo sentido, esperava-se um destaque concedido à Música. E ela surge de maneira fascinante, ainda que sob o jugo de certa ambigüidade: uma mocinha rica (e branca) canta uma espécie de 'rap' sobre a necessidade de deixar alguém ir... "A vida é muito curta para chorar pela ex/ Eu falava para mim mesmo, enquanto chorava outra vez", canta e repete a mocinha!


De acordo com os créditos finais, os referidos planos foram filmados em locais e anos distintos: um em Barcelona, outro em Santa Catarina, etc.. Fica-se a tentação imediatista de reclamar de algum efeito de incoesão, mas uma variação ainda mais emocional do "efeito Kuleshov" concatena as situações e pessoas apartadas. Quem é quem? Qual a relação de um com o outro? Por que eles estão ali? Eis o filme agindo...


Como esta produção era o grande chamariz da edição deste ano da Mostra, as expectativas depositadas sobre ela eram altíssimas. Como tal, decorre a impressão de insatisfação mediante a subversão das mesmas. Mas talvez isso seja um aspecto genial da obra: não entrega o que esperávamos, mas algo completamente novo, numa tradição distinta. É um filme curto e confortável. Balsâmico até. A tristeza emulada num dos cantos passa junto com as nuvens... A beleza fica, bem como a vontade dos encontros.


Wesley PC> 



Transcrições facebookianas sobre a Mostra Tiradentes 2021 - seção Aurora - dia 01: AÇUCENA (2021, de Isaac Donato).


 Uma das críticas mais recorrentes às religiões, por parte de argumentadores politizados, diz respeito ao modo como inculca-se a idéia do "é assim porque Deus quer" ou "se não aconteceu, é porque não tinha de ser". Por detrás desta aparência de determinismo, compreendemos que há uma noção de respeito, uma crença. Como religioso, partilho deste tipo de concepção...


Pois bem: ansioso que estava com a virtualização da Mostra Tiradentes neste ano, tencionava fazer uma cobertura "profissional" via 'blog', mas meu anseio caiu por terra: meu computador simplesmente não carrega. Não era para ser? Sigamos com as minhas considerações facebookianas sobre os filmes vistos, então...


Ontem mesmo, tão logo acabou a sessão deste documentário baiano, pensei em escrever algo sobre ele, mas estava incomodado com uma dualidade intensificada no desenvolvimento de seu enredo: o que vemos é a compreensão comunitária de uma tradição ou a submissão a um devaneio fetichista, altamente capitalizável? Tanto um aspecto quanto o outro. Não excluem-se. Mas outro problema instaurou-se: a formatação sumamente narrativa da montagem do filme.


Faz tempo que borrar as pretensas fronteiras entre ficção e documentário deixou de ser algo polêmico. Entretanto, os vai-e-véns da edição incomodaram-me particularmente. Pois, além de a câmera não ser ostensiva (em termos de reações diegéticas à presença da mesma), os blocos dialogísticos são entrelaçados em diferentes teias temporais: a conversa enquanto se pinta um portão, a compra de uma boneca numa loja de brinquedos e a audição de recados via WhatsApp, por exemplo. Há uma estória sendo contada.


Ao mesmo tempo, quando essa estória atinge o seu pico (a celebração de aniversário da personagem-título, uma entidade perenemente infantil), tudo ocorre de maneira anticlimática, pois há a invasão de elementos destoantes de tudo o que testemunhamos até então. A cadência pacata é soterrada pelos clichês comemorativos da cidade grande. Temos certeza de quem paga pela cara coleção de bonecas, a partir deste momento...


A despeito de qualquer aparente reprimenda, o filme é muito gracioso em sua exposição religiosa deveras acessível. Seu caráter é inegavelmente popular, o que deve-se bastante à pesquisa da co-roteirista Marília Cunha. Mas meus preconceitos aquisitivos continuaram interferindo na apreciação qualitativa do filme. O debate é mais que necessário, portanto!


Wesley PC>