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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Mostra Tiradentes 2026: PARA OS GUARDADOS (2025, de Desali & Rafael Rocha)

 

Num dos segmentos deste média-metragem ("Dia de Visita"), o tom melancólico é estabelecido de maneira afetiva, contrariando quem esperava mais relatos de violência, injustiças ou situações de abandono no ambiente prisional, comum a este tipo de documentário: de repente, para os realizadores, o que interessa é a interação estendida, compartilhada, em atmosfera crepuscular, no qual um grupo de amigos envia mensagens de esperança para amigos detidos e executam canções ao violão. Os toques ou vozes eventualmente desafinam, mas a beleza desta demorada seqüência instaura-se definitivamente na recepção emocionada dos espectadores, que percebem que estão diante de um filme dificílimo de ser classificado - mas elementar no que ele provoca enquanto exercício de empatia. 


Em "para os guardados" - título estilizado em letras minúsculas -, temos o paroxismo audiovisual de um percurso advindo de curtas-metragens produzidos através do projeto A.P.N. (Aliança Periférica Nacional), coordenado pelos realizadores, sendo um deles mui consagrado por suas exposições, decorrentes da formação em Artes Plásticas. Os temas destes curtas-metragens (exploração da força proletária e solidariedade às vítimas de violência policial, sobretudo) justificam a ação inicial, que é a de organização de 'kits' de víveres a serem entregues a familiares de pessoas encarceradas, que os repassarão aos seus companheiros privados de liberdade e, assim, será estabelecida a lógica discursiva da obra, respeitando o eu-lírico das pessoas mostradas. Não se trata de uma abordagem conseqüencial, em que os motivos para as prisões são trazidas à tona: aqui, o que interessa é a humanização de quem, noutros contextos, é tratado como mera estatística negativa. "Se um branco corre, ele é considerado atleta; quando um negro está correndo, ele é tachado de ladrão", comenta um dos entrevistados. 


Editado de maneira crua, ciente de que quaisquer convenções cinematográficas prévias não abarcariam adequadamente as intenções acolhedoras desta obra, o filme investe numa linguagem documental de reinvenção, assumindo a impressão de amadorismo como sinceridade produtiva. É como se testemunhássemos a transmissão de uma ligação de vídeo íntima dos amigos e familiares dos internos, com vistas a alegrar um pouco o cotidiano de repressão destes últimos. Folhas de maconha são focalizadas com orgulho botânico e os versos de uma famosa canção da banda Natiruts ("Liberdade pra Dentro da Cabeça") são acusticamente ressignificados, enquanto declaração de ausência. Noutro momento, um dos ex-internos pinta a tornozeleira eletrônica que é obrigado a usar com cores vivas e exortações frasais de cariz basquiatiano. O filme é convertido num rascunho de carta de amor, entregue no momento mesmo de sua confecção. Algo que exige do espetador muito mais que arcabouço artístico para ser devidamente assimilado: pura declaração de fé e aceitação do próximo, para além (ou aquém) do que este tenha feito. Um instrumento imagético e sonoro de legítima ressocialização



Wesley Pereira de Castro.  

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: CAPITÃES DE ZAATARI (2021, de Ali El Arabi)


Mesmo quem não aprecia futebol sentir-se-á bastante tocado pela sensibilidade com que o jornalista egípcio Ali El Arabi converte a história de dois refugiados sírios num documentário sobre a importância dos objetivos lúdicos no enfrentamento rude do dia a dia. Fawzi Qatleesh e Mahmoud Dagher são melhores amigos e ambos são exímios futebolistas. A diferença de idade entre eles é de apenas um ano, mas isso surge como impedimento inicial para que Fawzi seja selecionado para um treino decisivo no Qatar. Mahmoud vai sozinho, apreensivo e deslumbrado. Até que uma nova oportunidade permitirá o reencontro entre eles, que será televisionado e transmitido para os seus familiares, que estão no enorme campo de Zaatari, na Jordânia... 


De curta duração (apenas 73 minutos), este filme acerta ao equiparar o seu enfoque ao modo um tanto ingênuo como os dois amigos enxergam o mundo. Evita-se, portanto, as mensagens grandiloqüentes: "o que os refugiados precisam é de oportunidades, não de pena", diz Mahmoud, numa entrevista. Mas é difícil ter sonhos quando a realidade parece tão irremediavelmente opressora: ciente de que a educação pode assegurar um futuro melhor à sua família, Fawzi insiste para que sua irmãzinha Rose aprenda Inglês, enquanto pensa numa maneira de trazer seu pai para o local onde eles estão. Quando isso acontece, descobre-se que o pai dele está gravemente doente. E, no primeiro jogo profissional de que participa, o time de Fawzi e Mahmoud sofre uma goleada de 6 x 0! 


No crédito de encerramento, o diretor agradece aos rapazes que filmou tratando-os como amigos. Este é, ostensivamente, o tema do documentário: a força do companheirismo. Mesmo quando estão separados, Fawzi e Mahmoud conversam diariamente, exceto quando a internet fica indisponível no campo de refugiados ou quando possíveis namoradas requisitam atenções particulares. Na primeira parte do filme, o diretor obtém belíssimos enquadramentos crepusculares, com os meninos à contraluz, que são gradualmente substituídos por planos mais abertos, solares. "Se eu precisar voltar ao campo de refugiados, me dedicarei bem mais aos estudos", proclama Fawzi, que torna-se um esforçado treinador local de futebol. É uma conquista razoável, que comprova que a esperança dos rapazes não foi vã. Isso ilumina, transmuta em ganhos palpáveis o que é metaforizado pela ótima direção de fotografia!



Wesley Pereira de Castro. 

sábado, 7 de agosto de 2021

Disney+ : LUCA (2021, de Enrico Casarosa)


 A seqüência de abertura permite que reconheçamos de imediato o estilo do diretor: o passeio noturno de barco possui o mesmo bucolismo do já clássico curta-metragem "La Luna" (2011). Entretanto, o enredo logo anuncia sua especificidade: o personagem-título é um garoto íctico, que vive no fundo do mar e é temido como fera pelos marinheiros que eventualmente o vislumbram, quando ele passeia pela superfície. Luca (magistralmente dublado por Jacob Tremblay) desempenha atividades como latifundiário submarino, cuidando dos peixes de sua família, mas sente-se inadequado, deseja conhecer outros lugares. Ele estranha a quantidade de objetos que caem das embarcações, mas seus pais recomendam-no enfaticamente que ele evite emergir. Até que, num encontro casual, ele afeiçoa-se ao jovem Alberto (Jack Dylan Grazer), que explica-lhe que eles são capazes de uma conveniente mutação: quando secam os seus corpos, tornam-se humanos. É a deixa que Luca precisava para pôr em prática os anseios por liberdade que sentia refreados em suas atividades diuturnas... 


Como ocorre na maioria das animações infantis dos Estúdios Disney, o desenvolvimento dos personagens principais está relacionado à desobediência das ordens paternas, geralmente condicionadas pelo medo. Da mesma maneira, a fruição espectatorial depende de uma série de convenções genéricas, que induzem-nos a ser bastante tolerantes quanto às lacunas da lógica diegética: sendo assim, não estranhamos que Luca e Alberto enxuguem-se com muita celeridade (inclusive em relação às suas vestimentas), ignoramos a facilidade com que seus pais adaptam-se aos costumes da cidade onde buscam pelo garoto e desdenhamos inúmeras contradições abundantes no roteiro. Porém, é indispensável abrirmos um parêntese acerca das conotações ideológicas da trama.


Não obstante o enredo servir como uma metáfora potente contra os preconceitos destinados a quem é diferente (seja pela aparência, pela origem social ou pelos comportamentos desviantes), há alguns problemas gritantes no modo como Alberto convence Luca a desejar os produtos humanos - inicialmente, uma lambreta; posteriormente, um telescópio, depois que ele conhece uma estudante em férias - e na naturalização da pesca enquanto atividade provedora de benesses financeiras. O modo inquestionado como os mutantes marinhos passam a auxiliar o esquartejamento de peixes insurge-se como um dilema moral: será que as crianças da platéia compreenderão a complexidade das relações de exortação capitalista ali estabelecidas? É uma dúvida que requererá um debate vindouro sobre a recepção do filme, que goza dos atributos técnicos mui elogiados da produtora Pixar. 


Musicado com muita sensibilidade por Dan Romer, esta animação possui também um senso de humor bastante inspirado, em especial na composição dos familiares de Luca. Dentre eles, merece destaque o tio Ugo, que protagoniza uma cena assaz divertida após os créditos finais, aproveitando-se do histrionismo do dublador Sacha Baron Cohen. O vilão Ercole (Saverio Raimondo) é exageradamente afetado e os costumes italianos são apresentados de maneira caricatural. Nada que atrapalhe o charme do filme, a simpatia dos personagens e a necessária exortação ao conhecimento que configura o desfecho: que as diferenças interespecistas sejam bem aceitas, como as crianças fazem questão de demonstrar a cada gesto simples de colaboração lúdica! 


Wesley Pereira de Castro 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

SELFIE (2019, de Agostino Ferrente)


 

Em razão da franca acessibilidade digital – mais técnica que lingüística –, estão sendo abolidas muitas das convenções outrora exigidas nos produtos audiovisuais: é cada vez mais freqüente, por exemplo, que os telejornais insiram entre as suas manchetes anúncios de “notícias” captadas amadoramente, por pessoas comuns que tiveram a sorte de possuir um celular com câmera no momento em que algo inusitado acontece…


No cinema, isso ocorre há mais tempo: imagens trêmulas, fora de foco e com áudio pouco compreensível são consideradas adequadas à narrativa cinematográfica, para além das diatribes ensaiadas de alguns cineastas dogmáticos. A saturação deste formato chegou a tal ponto que é difícil distinguir produtos que prezam pela sinceridade na captação informal de imagens. "Selfie" é, neste sentido, uma grata exceção: o registro de uma amizade atravessada pelas pressões destrutivas das condições sociais periféricas. O anúncio de uma separação, portanto.


No projeto, os amigos Pietro e Alessandro recebem celulares potentes, a fim de registrarem as situações de seu cotidiano. Ambos têm 16 anos de idade, e vivem num distrito napolitano onde, há algum tempo, um adolescente foi injustamente assassinado pela Polícia, e a vinculação à Camorra surge como coerção onipresente. Eles resistem, ao manifestarem uma inocência atípica para a sua idade: o primeiro insiste em filmar as situações deprimentes de sua vizinhança, enquanto o segundo lida com o inevitável desamparo.


Formalmente, o filme abusa do recurso fotográfico em que os portadores dos celulares focalizam a si mesmos, em enquadramentos rudimentares, com vistas ao enfoque facial. Mas é justamente esse o grande mérito do filme: ainda que a montagem tenha sido realizada por alguém de fora, tudo o que é mostrado vem de dentro, é permeado pela esperança intermitente de quem diverte-se e trabalha nas condições disponíveis. Resta o consolo das típicas canções melodramáticas, que acompanham-nos por muito tempo após a enternecedora sessão…


Wesley Pereira de Castro.