domingo, 1 de novembro de 2026

O SENTIDO DA VIDA (2026, de Ryusuke Hamaguchi)

 

O título original deste longa-metragem - que pode ser livremente traduzido como "sentindo-se repentinamente mal" - é deveras efetivo na assunção de uma guinada teleológica na filmografia hamaguchiana, visto  que, aqui, ele adota convenções narrativas que, a despeito de sua extensa duração (três horas e dezesseis minutos), mantêm o espectador em perene atenção, na torcida pela manutenção relacional entre as duas protagonistas e os coadjuvantes, divididos em profissionais da Saúde e idosos sob os seus cuidados. Ou seja: o filme é bem-sucedido tanto em sua liberdade de percurso, quando as personagens põem-se a conversar, sem se preocupar com as obrigações do cotidiano, quanto em sua obediência ao que, superficialmente, pode ser confundido com um didatismo bem-intencionado. 



Suficientemente autoral para tornar o seu estilo e algumas temáticas reconhecíveis, para além da mudança radical de assunto, de uma obra para outra, o cineasta japonês Ryusuke Hamaguchi reaproveita, neste seu trabalho mais recente,  a lógica dos acasos que rege "Roda do Destino" (2021), a metalinguagem teatral que baliza parte de "Drive My Car" (2021) e o pendor ecológico, denuncista acerca das alterações comportamentais que acompanham o desenvolvimento do Capitalismo, que encontramos em "O Mal Não Existe" (2023). Mas tudo isto está a serviço de uma crença humanista assaz orgânica, defendida internamente através do programa que Marie-Lou Fontaine (Virginie Efira), com mestrado em Antropologia, deseja implantar na casa de repouso da qual é diretora... 


Em mais de uma seqüência longa, nós, espectadores, somos convocados como espécies de cuidadores de idosos por extensão, assistindo aos debates sobre a implementação dos preceitos do sistema Humanitude, que intimidam os enfermeiros tradicionais, que temem que, assim, poderão perder a autoridade associada aos seus empregos, que requerem diplomas universitários. Neste sentido, a discordante Sophie (Marie Bunel, extraordinária) é transversalmente convertida em alívio cômico, ao entrar em diversos atritos com a sua chefia, malgrado utilizarem, ambas, as mesmas frases para referirem-se uma à outra. 


Baseada em quatro princípios centrais (olhar frontal, toque, uso das palavras e verticalidade), o modelo da Humanitude - proposto pelos médicos Yves Gineste e Rosette Marescotti - surge como uma espécie de personagem à parte no filme, visto que Marie-Lou o defende de maneira enfática, não obstante ela própria sucumbir a algumas contradições do capitalismo, como a displicência em relação aos cuidados com o sono, além de fumar em demasia. Na cena de abertura, inclusive, ela é flagrada dormindo ao lado de uma paciente idosa que fuma, evidenciando um paradoxo vicioso que fica ainda mais gritante quando conseguimos ler o que está escrito nos maços de cigarro: "fumar mata"!



Tachada de condescendente em mais de um momento, Marie-Lou é a alter-ego personalizada de algo que o filme apregoa renitentemente, enquanto demonstração dos méritos de um sistema de intervenções médicas que priorizam os caracteres humanos/sentimentais dos pacientes, no afã por respeitar as "memórias pontilhadas" às quais eles se agarram, durante o avanço de condições neurodegenerativas como o terrível Mal de Alzheimer. Esta doença, infelizmente, aflige a maioria dos idosos que vivem no Jardim da Liberdade, onde Marie-Lou passa mais tempo que em sua própria residência. 



É quando entra em cena Mari Morisaki (Tao Okamoto), formada em Filosofia mas atuante como diretora teatral, que conhece Marie-Lou de maneira casual e, por ambas conseguirem comunicar-se simultaneamente em francês e japonês, tornam-se amigas imediatas. Mais uma vez, as coincidências desempenham papel central no roteiro, mas de maneira verossímil e funcional: de repente, interessa muito mais o que elas nos ensinam, a partir de suas experiências pessoais de vida, que os cacoetes fílmicos aos quais a trama se vincula, eventualmente. E são estes últimos que impedem este filme de ser tão impactante quanto os trabalhos prévios do realizador... 



O momento explicitamente didático em que Mari explica a Marie-Lou como são socialmente instauradas as tentativas de preservação política do aqui-agora - através do apelo ao conservadorismo moralista, em muitos casos, em detrimento da destruição ambiental circundante (sob a égide do Capitalismo) - pode irritar os espectadores tradicionais, mas esta aula é positivamente reiterativa acerca daquilo que o filme converte em discurso acessório à sua defesa da implementação do Humanitude. E é ótimo quando isso acontece: saímos da sessão não apenas emocionados, mas também inteligentes e atuantes. Ryusuke Hamaguchi nos prepara até mesmo para sermos exímios massagistas de pés! 


Se o roteiro - baseado no livro "Quand la Vie Prend un Tournant Inattendu (Correspondance entre une philosophe en phase terminale d'un cancer et une anthropologue médicale)", de Makiko Miyano & Maho Isono) - brinca com alguns clichês intencionais ("a japonesa com lencinho umedecido", quando pássaros defecam nos rostos das personagens, por exemplo), os elogios destinados à peça teatral dirigida por Mari voltam a chamar a atenção para um excesso de autocondescendência na própria realização. Mas o filme consegue justificar magistralmente a sua relevância: trata-se de uma ode emergencial à importância das amizades imediatas, conforme acontece com freqüência na insigne trajetória deste excelente diretor. Duas lindas demonstrações disso: quando Mari pede para que um aplicativo de celular indique o tempo de preparação de um macarrão instantâneo, enquanto elas conversam, e a troca de mensagens em japonês e francês, via SMS, em meio a um surto de dor, por parte da japonesa. O tempo, em seu viés controlador dos instantes, é suspenso, a fim de que os afetos se sobressaiam... 


Wesley Pereira de Castro.