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segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Mostra SP 2022: NOITE OBSCURA - FOLHAS SELVAGENS (2022, de Sylvain George)


 

Ao final da árdua jornada – em todos os sentidos – de quase quatro horas e meia de duração concernente ao filme “Noite Obscura – Folhas Selvagens” (2022, de Sylvain George), continuamos imaginariamente o desfecho das trajetórias que acompanhamos durante a projeção do documentário. Nem sempre sabemos o que está acontecendo, mas sentimos: a câmera-cúmplice do cineasta põe-se ao lado de adolescentes marroquinos, que vivem ilegalmente nas ruas de Melilla, enquanto sonham em viajar para a França ou para a Espanha…



Antes de a fotografia assumir o seu tom estilizado de preto-e-branco, uma antecipação rubra é instalada, a fim de metonimizar a recorrência do fogo ao longo dos eventos apresentados: os rapazes cozinham em fogueiras improvisadas, acendem cigarros, se aquecem nas noites frias. Mas o fogo também diz respeito ao que eles almejam ser: cidadãos europeus. Estes adolescentes recebem a alcunha de ‘harragas’, que significa algo como “aqueles que queimam”, em referência aos documentos de identificação que eles atiram às chamas. À frente deles, o infindável mar…



Não obstante o realismo cru das imagens, que rendem longuíssimas seqüências (paradoxalmente demarcadas por ‘jumpcuts’), o ritmo deste documentário é sobremaneira experimental. A captação das ondas e do reflexo da lua nas águas do Mar Mediterrâneo rende imagens tão belas quanto abstratas. É como se compartilhássemos das lombras daqueles garotos, continuamente entorpecidos por alucinógenos improvisados, uma versão local do “loló”. Durante os devaneios provocados pela ingestão gasosa dessas substâncias, eles choram, cantarolam, lembram dos familiares que deixaram no Marrocos… E prometem que conseguirão chegar a algum país desenvolvido, a fim de se estabelecerem profissionalmente e conseguirem resgatar as pessoas que amam.



Em diversos momentos, acompanhamos estes garotos escalando muros, pulando cercas, ferindo-se nas pontas afiadas de arame farpado que circunda quase toda a região. Eles referem-se às suas atitudes conjuntas como “tomar o risco”, expressão que tem como objetivo o encaixe de ganchos nos imensos navios que aparecem eventualmente na costa. Enquanto aguardam as oportunidades ideais, que podem demorar indefinidamente, eles dormem nas cavernas da cidade litorânea, famosa por suas fortalezas com arquitetura modernista. E esperam…



No início do filme, verificamos a entrega de doações fornecidas por entidades assistenciais espanholas. Os adolescentes agrupam-se, de maneira improvisada, recebendo pão, leite e outros víveres. É um conforto benfazejo em meio à ameça dominante da fome, do abandono, do frio e dos maus tratos. As feridas e infecções são recorrentes, bem como as lágrimas, ao lembrar os entes queridos ou as histórias trágicas de infância. A longa duração do filme torna-se irrelevante perante o que eles testemunham. E esta é a intenção do diretor com essa extensão desmedida: convidar-nos a uma experiência de imersão no sofrimento daqueles imigrantes, que estão à margem das delongas infindáveis nas filas alfandegárias. Noutra seqüência mui demorada, acompanhamos os esforços de alguns homens, que prendem alguns produtos em seu corpo, com fita adesiva, no afã por deixarem-nos ocultos. Mais uma vez, aceita-se o risco (nesse caso, de aprisionamento), frente ao desespero da fuga.



Não há uma intervenção narrativa em ‘off’ no filme: no máximo, lemos alguns dizeres, correspondentes ao título poético, na abertura. Depois, somos atirados às ruas, juntos àqueles garotos, muçulmanos em sua absoluta maioria. Num instante de alívio, após nadarem e lavarem as suas vestimentas, eles recitam algumas orações, demonstrando que não rejeitam culturalmente as suas origens, apenas economicamente. Soldados desfilam, numa comemoração local que mantém uma tradição de caráter franquista. Estamos num território marroquino, colonialmente extirpado do próprio país. A reação imediata é a de chorarmos coletivamente, em apoio emocional ao desamparo daqueles jovens.



Em meio à fealdade decorrente das condições de pauperismo enfrentadas por aqueles garotos, a beleza exuberante da cidade, arquitetonicamente tombada. No esplêndido desenho de som deste longa-metragem, os ‘raps’ que eles recitam durante os seus delírios misturam-se às gargalhadas ébrias, às bravatas inconseqüentes, ao marulho contínuo e ao grasnar de algumas aves. O registro naturalista amalgama-se às intenções vanguardistas do realizador, configurando um produto fílmico de extrema singularidade. Quem enfrentar este percurso carregado de dor deparar-se-á também com uma obra de arte mui elogiável. Por vezes, questionamos algumas opções éticas do diretor (e/ou do câmera), que quedam inanes diante das agruras mostradas (vide o instante em que um garoto quase quebra as pernas, ao cair de uma parede muito alta). Mas cada segundo exibido é necessário enquanto testemunho de autenticidade documental. Aderimos ao drama destes imigrantes por dentro, no cerne mesmo de suas usurpações cotidianas!



Wesley Pereira de Castro.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Festival de Brasília 2021: ABDZÉ WEDE'Õ - VÍRUS NÃO TEM CURA? (2021, de Divino Tserewahú/Xavante)


O primeiro aspecto que salta aos olhos neste documentário é o tom aparente de contradição em seus discursos: alguns líderes indígenas comentam que a COVID-19 é uma doença criada pelos homens brancos e que, portanto, não atingirá as aldeias de povos originários do Brasil. Um desses líderes veste uma camiseta com publicidade cristã. Mais à frente, manchetes de jornal invadem a tela, anunciando que a mortalidade entre os índios xavantes, por causa da pandemia, foi superior em mais de 160% aos demais segmentos da população brasileira. Fica evidente que a contradição foi implantada pelo processo colonizatório, do mesmo modo em que, numa filmagem antiga, um narrador comenta que os contatos iniciais entre homens brancos e os xavantes foram pacíficos, sendo que os primeiros carregam enormes facões, enquanto pretendido símbolo de boas vindas. É preciso repetir o que acontece a partir daí? 


Ao invés de realizar um documentário linear sobre o morticínio de seus parentes, o cineasta xavante Divino Tserewahú acrescenta múltiplos aspectos autoafirmativos em seu relato: fala sobre a importância dos rituais tradicionais de sua tribo (mostrados em imponentes 'plongées'); agradece ao cineasta Vincent Carelli pelos cursos ministrados no programa Vídeo nas Aldeias; comenta sobre os perigos contaminadores da imposição de costumes brancos (a obrigação das vestimentas, por exemplo); e surpreende ao ressignificar a tese de que, para os indígenas, quando eles são fotografados ou filmados, parte de sua alma é retirada. Se antes isso era enxergado com receio, os depoentes comemoram este acontecimento, no sentido de que eles podem continuar ensinando após as suas respetivas mortes: "cinema é espírito. Quando somos filmados, nosso espírito continua vivo"!


Em termos técnicos, alguns "defeitos" podem ser notados: a montagem é confusa e as legendas possuem diversos erros de concordância e grafia. Mas esses defeitos mais uma vez denunciam o ímpeto colonizatório, no sentido de que eles evidenciam uma tentativa de expressão que é também sobrevivencial. O diretor registra alguns enterros e explica que, em sua aldeia, o luto é cumprido através de práticas distintas (raspando-se os cabelos, por exemplo). Imagens de várias obras do diretor são apresentadas, reiterando a suma importância do projeto que o capacitou audiovisualmente. No discurso das pessoas filmadas - que estão "onde nasce o Sol" -, a esperança é a de que a pandemia será completamente expelida, após o consentimento massivo dos indígenas em relação à vacinação. A pergunta do título é direcionada a nós, portanto, com um elemento adicional: acerca de qual vírus estamos falando?



Wesley Pereira de Castro. 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: SR. BACHMANN E SEUS ALUNOS (2021, de Maria Speth)


Durante a audiência, uma dúvida elementar chama a atenção do espectador: como foi o processo de filmagem? Em razão de não haver nenhuma seqüência no documentário que mencione a presença de uma equipe cinematográfica no interior da sala de aula, convém pesquisar entrevistas com a diretora, a fim de compreender as circunstâncias em que, ao longo de seis meses, em 2017, ela conseguiu montar registros tão fascinantes de educação não-bancária, a partir do exemplo mui peculiar do quase aposentado Dieter Bachmann, que insere diversas atividades recreativas em meio às aulas de Matemática, Inglês ou Alemão. Responsável pelos filhos de imigrantes na sexta série de uma escola pública numa cidade fabril do interior da Alemanha, este professor precisa lidar com as diferenças identificáveis entre as culturas búlgara, turca, marroquina, russa e italiana (para ficar em apenas cinco das explicitamente citadas) e integrá-las equanimemente num projeto de sociedade em que os pontos humanistas em comum são muito mais valorizados que as notas constantes nos boletins finais. "Para mim, as avaliações dão-nos apenas uma imagem imediata", diz ele. O que interessa é que os alunos "permaneçam fiéis a si mesmos" enquanto amadurecem...



Não obstante ser definido pelo pai de uma das alunas como "um professor muito bom e afetivo", o senhor Bachmann evita o pieguismo no tratamento com os pré-adolescentes: trata-os da maneira mais igualitária possível, a despeito das distinções comportamentais mui evidentes, como a muçulmana Ferhan, que freqüentemente sente-se ofendida pelas falas de seus colegas e "retrai-se como um caracol", ou o hiperativo Cengiz, costumeiramente repreendido por não prestar atenção às aulas, ainda que demonstre ser um marceneiro mui talentoso. Alguns dos garotos convertem-se em protagonistas natos, pelo modo mui carismático como se comportam na apresentação de suas atividades, com destaque para a espirituosa Steffi, para o terno Mattia e para o garoto búlgaro Hasan, que deseja ser boxeador mas é também um perito músico. Em suas aulas, Dieter Bachmann costuma executar clássicos do 'rock'n'roll' como "Smoke on the Water", "Knocking on Heaven's Door" e "Jolene", além de canções folclóricas e composições próprias, incluindo um relato sobre um rapaz que foi enforcado pelo pai após ser flagrado nu com outro homem. Os assuntos espinhosos não são evitados, portanto: além da discussão sobre o preconceito contra homossexuais, fala-se também sobre a imposição de símbolos religiosos nas escolas, sobre as expectativas acerca do despertar da sexualidade e sobre o Nazismo, inevitavelmente. Não por acaso, uma das palavras mais pronunciadas no filme é trabalho, e o trauma do 'Arbeit macht frei' permanece como uma chaga ainda em aberto na história teutônica. 



Num dos momentos mais potentes do filme, o professor explica aos seus alunos a origem de seu sobrenome germânico, escolhido arbitrariamente a fim de apagar a ascendência polonesa de sua avó. Há diversas situações com esse tipo de intensidade emocional, como quando uma das meninas compartilha o seu véu com uma amiga e explica por que usa esta peça de vestimenta mesmo fora da mesquita ou quando as crianças eventualmente comentam seus cotidianos domésticos. Como tratam-se de imigrantes, eles lidam com variegadas restrições e discriminações, sendo as dificuldades idiomáticas quase irrelevantes, por serem pragmaticamente contornáveis. E é neste sentido que o trabalho de Dieter Bachmann é tão aplaudível: agindo como uma espécie de Paulo Freire alemão, ele também aprende com os seus alunos e ensina-nos bastante por espontânea amostragem. Cantamos juntos em suas aulas e desejamos saber mais sobre aqueles garotos tão fascinantes, que dividem-se entre os que irão para o Ensino Médio, os que irão para Escolas Técnicas e os que precisão emigrar novamente, ao lado de seus pais. Da mesma maneira que o professor sabe que seus alunos continuarão os seus destinos após o ano escolar, a diretora intui que teremos outros afazeres após as quase quatro horas de duração deste excelente documentário. Mas, enquanto estamos vendo o filme e os garotos estão em horário de aula, a educação surge em sua faceta mais orgânica, integrada à vida diária com vistas ao mais belo dos sentimentos, o amor, recitado em múltiplos idiomas ao longo do filme. Consideramo-nos parcialmente formados após aquele desfecho: que venham as próximas classes!



Wesley Pereira de Castro.