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segunda-feira, 14 de abril de 2025

ALEGORIA URBANA (2024, de Alice Rohrwacher & JR)

Enquanto a cineasta italiana Alice Rohrwacher demonstra, filme após filme, a pujança política da ingenuidade (em faceta ostensivamente pueril), o artista gráfico francês JR não disfarça as suas pretensões desveladoras, a partir de intervenções artísticas nos espaços urbanos. A colaboração entre ambos, através da extensão roteirística de um projeto anterior do artista ("Chiroptera", espetáculo de balé que adapta, numa combinação entre dança e jogo de sombras, a "Alegoria da Caverna", de Platão), permite que reconheçamos as idiossincrasias estilísticas dos dois colaboradores, tanto na direção quanto no roteiro, com participação ativa de Leos Carax como ator. 



No início deste curta-metragem, uma bailarina (Lyna Khoudri) corre pelas ruas parisienses, atrasada para uma audição. Ela está com seu filho Jay (Naïm El Kaldaoui), febril e ansioso para entregar um presente para o seu pai, que está em férias. No afã para participar da seleção de um espetáculo de dança contemporânea, ela tenta justificar o seu atraso pelas condições relacionadas à doença do garoto, a despeito da irritação das demais bailarinas, que já estavam na fila. Curiosamente, o diretor do espetáculo percebe a sensibilidade do menino, compartilhando consigo a mensagem embutida na alegoria filosófica que serve de base para a apresentação que ensaia. Novamente nas ruas, agora sozinho, Jay põe em prática o que aprendeu, concedendo a deixa para que JR exercite a sua inventividade visual, na aplicação de fotografias expandidas em paredes onde se proíbe a colagem de cartazes... 


Deveras simpático naquilo que deseja demonstrar - a constatação de que "não é possível libertar-se sozinho" e o contraponto entre imagens que, em seu caráter ilusório, são contempladas ao mesmo tempo em que se percebe que estamos aprisionados por grilhões reais -, este curta-metragem aproveita a efígie carismática do garotinho para, numa animação, conclamar os transeuntes a retirarem o véu da proibição dos espaços pelos quais transitam. Sob o olhar concordante do criativo realizador Leos Carax, Jay faz com que a exortação platoniana não permaneça confinada no palco onde está sendo apresentado o supracitado espetáculo "Chiroptera", musicado por Thomas Bangalter (integrante da dupla eletrônica Daft Punk). No desfecho, a própria tela em que vemos este filme é rasgada pelo ato libertador da criança. Diretora e artista foram exitosos na transmissão conjunta de seus respectivos discursos, portanto! 



Wesley Pereira de Castro. 

 

sexta-feira, 12 de abril de 2024

DOIS É DEMAIS EM ORLANDO (2024, de Rodrigo Van Der Put)


 

Após demonstrar os seus incríveis talentos dramáticos, num desempenho adulto e mui aplaudível, na série “Os Outros”, Eduardo Sterblitch retorna aos personagens infantilizados que o consagraram, ainda que saibamos que seu estilo cômico é demarcado por nuanças sardônicas, conforme percebemos em “Os Penetras” (2012) e “Chacrinha: o Velho Guerreiro” (2018), ambos de Andrucha Waddington. Aqui, entretanto, ele não tem muito a fazer como o protagonista João, exceto exagerar em caretas e ‘gags’ que atrapalham o desenvolvimento de uma trama automática e pouquíssimo interessante.



Insistindo que “um é bom, dois é demais”, João é traumatizado por uma experiência de infância, quando o seu pai, já doente, o desafia a andar sozinho numa montanha-russa. Pouco tempo depois, seu pai morre e João cresce como um ‘nerd’ assexuado, obcecado pelas franquias “Jurassic Park” e “Transformers”. Trabalhando como editor num ‘vlog’ de confeitaria, João está prestes a entrar em férias e viajar sozinho para um parque aquático em Orlando – confirmando o seu lema pessoal e justificando o título do filme -, mas uma série de acasos faz com que ele seja convencido a cuidar do filho de sua patroa por algumas horas. Suspeitando que seu emprego está em jogo, pois a empresa para a qual trabalha foi vendida para um grupo de empresários estadunidenses, João aceita a empreitada, de maneira oportunista: ele crê que, ficando ao lado do menino, poderá descobrir o que realmente aconteceu à empresa…



Carlos Alberto (Pedro Busrgarelli), o filho da patroa, é um garoto de onze anos de idade, que tem medo de quase tudo. Com receio de desapontar seu pai esportista, Ricardo (Anderson Di Rizzi), que vive nos EUA e com quem ele encontrará na viagem, o menino finge ser um aventureiro, e a companhia forçada de João ser-lhe-á um estímulo involuntário para os enfrentamentos. Compartilhando o mesmo quarto de hotel, João e Carlos Alberto perceberão ter muito em comum, mesmo que as diferenças sejam enfatizadas, por motivos humorísticos. Exemplo: o garoto é vegetariano, e, quando João chega perto dele com dois cachorros-quentes, ele recusa prontamente, ao que o outro diz “não comprei para ti, os dois são para mim mesmo”!



Tal qual acontece nesse tipo de trama, os desencontros familiares e as mentiras acumuladas dos personagens permitirão que eles sejam moralmente redimidos, ao descobrirem as benesses da verdadeira amizade. João e Carlos Alberto se divertirão bastante em Orlando e, ainda que tenham se aproximado de maneira forçada, constatarão que têm muito a aprender um com o outro. O grande problema deste clichê, em âmbito enredístico: muitas vezes, parece que o roteiro do filme foi escrito como pretexto para filmar os atores e a equipe técnica distraindo-se no parque de diversões onde acontece as ações.



Entulhado de situações explicitamente publicitárias, o filme é uma longa peça de ‘marketing’, destinado a divulgar as opções de lazer numa área associada aos estúdios da produtora Universal, além de menções recorrentes à rede de canais de TV por assinatura Telecine. Há um diálogo engraçado, em que João e Carlos Alberto citam vários títulos de filmes disponíveis no catálogo desta rede de canais (que é também um serviço de ‘streaming’), a fim de demonstrarem que estão incomodados por estarem confinados num mesmo quarto. Mas logo estarão em sintonia, quando percebem na figura do dentista Anderson Cabello (Daniel Furlan) o alvo ideal para as suas travessuras mútuas. Enquanto aval, o fato de este hóspede, que evita açúcar e sofre de Transtorno Obsessivo-Compulsivo, ser insuportável!



Da mesma maneira que o protagonista, o antagonista idiotizado recorre às caretas e ao histrionismo, numa composição repleta de caricaturas vilanazes dos filmes infantis. O garoto é bastante simpático e espontâneo, a despeito dos caprichos classistas de seu personagem, mas seus companheiros de cena investem na exacerbação de estereótipos, a ponto de, em comparação com os demais, ele ser tachado de adulto, ainda mais que sua mãe Clara (Luana Martau), comumente ocupada com as tarefas de trabalho. A comediante Polly Marinho tem boa presença em cena, como Maristela, companheira de trabalho de João, mas suas breves participações são desperdiçadas numa subtrama pouco convincente sobre ameaça desempregatícia, que dá origem ao grupo de WhatsApp (“Mala Extraviada”) que ofenderá Carlos Alberto. Resta apreciar, se possível, as diversas seqüências em tobogãs, piscinas e atrações robóticas do parque supramencionado.



Em mais de um momento, Carlos Alberto pede a João que largue o telefone celular e curta as férias, mas o filme desobedece a este conselho: sua linguagem tenta emular o frenesi dos conteúdos virtuais, com destaque para a montagem à la Tik Tok e afins. Por mais desleal que seja no rol de mentiras que conta para o seu filho, Ricardo é mostrado como pai ideal, que só deseja o melhor para ele, em viés material. O diretor Rodrigo van Der Put, proveniente dos médias-metragens escritos e protagonizados pelos membros do grupo humorístico “Porta dos Fundos”, parece cônscio da vacuidade de suas imagens, a ponto de sequer enquadrar o que é exibido no momento em que os personagens assistem ao programa de TV que permite a ascensão profissional de Clara e João. Nos créditos finais, fotografias da equipe em Orlando são compartilhadas. Ao menos, eles parecem ter se divertido!



Wesley Pereira de Castro.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

BELFAST (2021, de Kenneth Branagh)


O fato de o roteiro ser baseado nas lembranças de infância do diretor justifica certa bidimensionalidade na encenação (os cenários são mostrados de maneira ostensivamente artificial, por exemplo), mas é justamente esse apelo nostálgico que torna chocante a frieza com que os eventos ocorrem no filme: ainda que, sim, haja alguma emoção e que os atores levem a sério as suas interpretações, não há factualidade em relação ao que acontece, de maneira que a montagem de Úna Ní Dhonghaíle revela-se bastante problemática. Apesar de haver a morte de um personagem simpático na trama e de o 'close-up' final de Judi Dench possuir algo de sensacionalista enquanto demarcação de uma despedida, as situações apresentadas nesse filme poderiam ocorrer em qualquer ordem: há uma rixa entre protestantes e católicos no início, mas isso é sub-explorado; há uma série de vinhetas protagonizadas pelo garotinho Buddy (Jude Hill), mas tudo parece sobremaneira circunstancial... 


Os pais de Buddy - interpretados por Caitríona Balfe e Jamie Dornan - são inexpressivos e, não obstante a pretensa relevância da cidade que empresta seu nome ao título do filme, pouco sabemos acerca da capital da Irlanda do Norte, com base no que é visto neste recorte mnemônico do ano de 1969. Os melhores momentos são aqueles em que Buddy e sua avó são flagrados assistindo a peças de teatro e filmes musicais, quando as cores quentes invadem o preto-e-branco da narrativa. E aquilo que o garoto testemunha nos faroestes antigos que vê na TV é reafirmado nos embates da realidade, sobretudo na seqüência em que a canção-tema do clássico "Matar ou Morrer" (1952, de Fred Zinnemann) serve para divulgar, em câmera lenta, uma determinada marca de sabão em pó: era para ser um clímax dramático, converteu-se em publicidade barata!


A trilha musical de Van Morrison ajuda a demarcar o tom nacionalista dos diálogos, o que é anunciado desde a abertura colorida, em que imagens contemporâneas de Belfast são exibidas enquanto ouvimos a canção "Down to Joy". Noutro bom momento - igualmente publicitário - do longa-metragem, o pai de Buddy canta "Everlasting Love" num baile, numa demonstração de efusividade que parece isolada do que ocorreu anteriormente. Ficam as frases de efeito do avô encarnado por Ciarán Hinds, num enredo que encena alguns aspectos interessantes de uma época política e religiosamente conturbada, mas que contenta-se com as aparências. Neste sentido, elogiar a bela fotografia de Haris Zambarloukos (colaborador habitual do cineasta) é quase um contrassenso: falta ao filme a essência afetiva prometida na divulgação de seu projeto pessoal!



Wesley Pereira de Castro. 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Festival de Brasília 2021: ALICE DOS ANJOS (2021, de Daniel Leite Almeida)


Se, ao mesmo tempo, a inspiração explícita em "Alice no País das Maravilhas", romance infanto-juvenil de Lewis Carroll, foi muito bem adaptada para o contexto nordestino, o excesso de decalques tramáticos (no que tange ao modo surrealista como os personagens aparecem) limita um pouco a criatividade do roteiro, que apropria-se espertamente de elementos do cangaço, devidamente trasladados para a linguagem simplificada das crianças. Ainda que eventualmente empostada, a interpretação da garotinha Tiffanie Costa é muito boa - sobretudo porque o diretor evita o excesso de cortes que caracteriza parte da filmografia brasileira contemporânea. Ao invés disso, ele prefere uma marcação teatral, de modo que o filme lembra bastante os autos tipicamente encenados nas cidades do Nordeste.


A personagem-título não persegue um coelho branco, mas um Bode Preto (Fernando Alves Pinto); ela não encontra um gato sorridente, mas um líder indígena espirituoso (Pajé Aripuanã), num umbuzeiro; em lugar de uma Rainha de Copas sanguinária, deparamo-nos com a inveja da esposa de um coronel suíno, em relação à Rainha do Cangaço, Bonita (Vicka Matos). Passeando pelo País das Macaúbas, Alice tem a oportunidade de demonstrar empatia em relação a um calango e a um dos vários severinos que existem naquela região. Em comum, o fato de eles terem aprendido a ler com a professora Indira (Cris Magalhães), que, nos delírios provocados por uma doença terminal, acha que ainda está numa escola de Angicos, em 1963. Enquanto personagem assumidamente freireana, ela acredita que "educar é amar". O filme põe isso em prática de maneira lúdica!


Não obstante as quebras de ritmo e os clichês associados às convenções de gênero, freqüentes nos filmes infantis, esta obra consegue abordar questões como coronelismo, devastação ambiental e genocídio dos povos originários do Brasil de maneira inspirada. O fato de ser um musical é positivamente surpreendente: as letras escritas pelo próprio diretor são bem acompanhadas pela trilha musical de João Omar. Nas divertidas interações com os personagens, diálogos que reiteram a sabedoria de Indira e o modo arrojado como ela enfrenta a vida (e, por extensão, também a morte): "quando o Sol se põe, ele vira poesia. Quando alguém vai embora, é que nem o Sol". No desfecho, uma semente é plantada, uma árvore cresce. A narrativa equivoca-se um pouco ao forçar novamente a aproximação com outra obra carrolliana, a fim de que a protagonista possa declamar, olhando para a câmera, que "o cinema é um espelho". É um truísmo breve: as boas lembranças seguem vívidas após a sessão. A lição foi transmitida com esmero!


Wesley Pereira de Castro. 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: SR. BACHMANN E SEUS ALUNOS (2021, de Maria Speth)


Durante a audiência, uma dúvida elementar chama a atenção do espectador: como foi o processo de filmagem? Em razão de não haver nenhuma seqüência no documentário que mencione a presença de uma equipe cinematográfica no interior da sala de aula, convém pesquisar entrevistas com a diretora, a fim de compreender as circunstâncias em que, ao longo de seis meses, em 2017, ela conseguiu montar registros tão fascinantes de educação não-bancária, a partir do exemplo mui peculiar do quase aposentado Dieter Bachmann, que insere diversas atividades recreativas em meio às aulas de Matemática, Inglês ou Alemão. Responsável pelos filhos de imigrantes na sexta série de uma escola pública numa cidade fabril do interior da Alemanha, este professor precisa lidar com as diferenças identificáveis entre as culturas búlgara, turca, marroquina, russa e italiana (para ficar em apenas cinco das explicitamente citadas) e integrá-las equanimemente num projeto de sociedade em que os pontos humanistas em comum são muito mais valorizados que as notas constantes nos boletins finais. "Para mim, as avaliações dão-nos apenas uma imagem imediata", diz ele. O que interessa é que os alunos "permaneçam fiéis a si mesmos" enquanto amadurecem...



Não obstante ser definido pelo pai de uma das alunas como "um professor muito bom e afetivo", o senhor Bachmann evita o pieguismo no tratamento com os pré-adolescentes: trata-os da maneira mais igualitária possível, a despeito das distinções comportamentais mui evidentes, como a muçulmana Ferhan, que freqüentemente sente-se ofendida pelas falas de seus colegas e "retrai-se como um caracol", ou o hiperativo Cengiz, costumeiramente repreendido por não prestar atenção às aulas, ainda que demonstre ser um marceneiro mui talentoso. Alguns dos garotos convertem-se em protagonistas natos, pelo modo mui carismático como se comportam na apresentação de suas atividades, com destaque para a espirituosa Steffi, para o terno Mattia e para o garoto búlgaro Hasan, que deseja ser boxeador mas é também um perito músico. Em suas aulas, Dieter Bachmann costuma executar clássicos do 'rock'n'roll' como "Smoke on the Water", "Knocking on Heaven's Door" e "Jolene", além de canções folclóricas e composições próprias, incluindo um relato sobre um rapaz que foi enforcado pelo pai após ser flagrado nu com outro homem. Os assuntos espinhosos não são evitados, portanto: além da discussão sobre o preconceito contra homossexuais, fala-se também sobre a imposição de símbolos religiosos nas escolas, sobre as expectativas acerca do despertar da sexualidade e sobre o Nazismo, inevitavelmente. Não por acaso, uma das palavras mais pronunciadas no filme é trabalho, e o trauma do 'Arbeit macht frei' permanece como uma chaga ainda em aberto na história teutônica. 



Num dos momentos mais potentes do filme, o professor explica aos seus alunos a origem de seu sobrenome germânico, escolhido arbitrariamente a fim de apagar a ascendência polonesa de sua avó. Há diversas situações com esse tipo de intensidade emocional, como quando uma das meninas compartilha o seu véu com uma amiga e explica por que usa esta peça de vestimenta mesmo fora da mesquita ou quando as crianças eventualmente comentam seus cotidianos domésticos. Como tratam-se de imigrantes, eles lidam com variegadas restrições e discriminações, sendo as dificuldades idiomáticas quase irrelevantes, por serem pragmaticamente contornáveis. E é neste sentido que o trabalho de Dieter Bachmann é tão aplaudível: agindo como uma espécie de Paulo Freire alemão, ele também aprende com os seus alunos e ensina-nos bastante por espontânea amostragem. Cantamos juntos em suas aulas e desejamos saber mais sobre aqueles garotos tão fascinantes, que dividem-se entre os que irão para o Ensino Médio, os que irão para Escolas Técnicas e os que precisão emigrar novamente, ao lado de seus pais. Da mesma maneira que o professor sabe que seus alunos continuarão os seus destinos após o ano escolar, a diretora intui que teremos outros afazeres após as quase quatro horas de duração deste excelente documentário. Mas, enquanto estamos vendo o filme e os garotos estão em horário de aula, a educação surge em sua faceta mais orgânica, integrada à vida diária com vistas ao mais belo dos sentimentos, o amor, recitado em múltiplos idiomas ao longo do filme. Consideramo-nos parcialmente formados após aquele desfecho: que venham as próximas classes!



Wesley Pereira de Castro. 

sábado, 31 de outubro de 2020

* Mostra SP 2020: AS VEIAS DO MUNDO (2020, de Byambasuren Davaa)


     Apesar de filmado numa região inóspita da Mongólia, o que mais chama a atenção nesta obra mui singela é a naturalidade com que aborda um tema caro às filmografias orientais, o conflito entre tradição e modernidade assimétrica. Sem precisar recorrer aos discursos politicamente redundantes, a diretora atinge méritos altissonantes em sua profissão mui orgânica de valores ecológicos: no desfecho, a canção que justifica o título do filme emociona-nos sobremaneira. Há uma denúncia contundente sendo realizada, em meio ao estratagema da simples estória de amadurecimento filial... 


    O protagonista do filme é um garotinho de doze anos de idade, magnificamente vivido pelo carismático Bat-Ireedui Batmunkh: chamado Amra, seu cotidiano é bastante parecido com os de seus colegas de escola. Vive numa região rural, com uma família de origem nômade. Passa boa parte do tempo brincando com seu telefone celular, o que faz com que temam que ele fique com a "vista quadrada". Sua mãe prepara queijos e seu pai envolve-se comumente em querelas contra a exploração mineradora na planície onde habita. O sonho de Amra é participar de um concurso local de talentos. Até que ele obtenha êxito, novos desafios surgirão... 


    O roteiro destaca-se pela naturalidade com que aborda as situações: a rotina da família Erdene, as reuniões de moradores, as atividades escolares, tudo isso é apresentado de maneira cúmplice, como se a diretora não apenas fizesse parte daquele contexto rural, mas fizesse questão de compartilhar aquela quietude conosco, a fim de que militemos conjuntamente contra a destruição ambiental perpetrada pela exploração capitalista. A letra da canção que Amra canta, em homenagem ao seu pai, é exemplar neste sentido: insiste que "o ouro só traz sofrimento". As veias do mundo seguem abertas! 


Wesley Pereira de Castro. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

CARROSSEL - O FILME (Brasil, 2015). Direção: Maurício Eça & Alexandre Boury.


Lançada originalmente em 1989, em 375 capítulos, pela emissora mexicana Televisa, e exibida pelo canal brasileiro SBT dois anos depois, a telenovela “Carrossel” tornou-se um dos maiores sucessos estrangeiros a serem exibidos no País. Após algumas tentativas frustradas de regravar a referida telenovela (o pasticho “Carrossel das Américas”, por exemplo, produzida em 1992, mas exibida no Brasil somente em 1996), a mencionada emissora brasileira foi bem-sucedida ao convocar um desenvolto elenco infantil para reavivar os célebres personagens da teledramaturgia mexicana.

Dois anos após o término da telenovela, este longa-metragem chega às telas, trazendo de volta a quase integralidade do elenco original, sendo a exceção mais notável Rosanne Mulholland, que interpretava a professora Helena, mas que, por cláusulas contratuais envolvendo uma emissora concorrente, não pôde participar do filme. De início, o maior problema desta produção é não ser prontamente acessível para quem desconheça os dados componentes deste intróito. Ou seja, “Carrossel – O Filme” (2015) talvez não seja muito fluente para quem não tenha afinidade com os personagens, visto que seu roteiro apressado não é cuidadoso na apresentação dos mesmos, parecendo apenas estar dando continuidade a um capítulo inacabado.

Entretanto, perante a obviedade das situações que compõem a trama, isto não é de todo prejudicial, pelo menos não tanto quanto os vícios lingüísticos televisivos de Alexandre Boury, que dirigira, no passado, alguns execráveis longas-metragens protagonizados por Renato Aragão [entre eles, os horripilantes “Didi, o Cupido Trapalhão” (2003) e “Didi Quer Ser Criança” (2004)].

Não obstante a condução directiva do filme ser automática e o roteiro de Márcio Alemão e Mirna Nogueira ser propositalmente banal, a simpatia do extraordinário elenco infanto-juvenil torna este filme deveras apreciável, mesmo frente ao seu cabedal de problemas formais: os espontâneos Larissa Manoela (Maria Joaquina), Nicholas Torres (Jaime Palillo), Lucas Santos (Paulo Guerra) e Matheus Ueta (Kokimoto) fazem com que assistir a este filme pareça tão divertido quanto deve ter sido realizá-lo, inclusive no que tange à despretensiosa imitação de clichês combativos que foram explorados em ‘Esqueceram de Mim” (1990, de Chris Columbus), imitação esta que é assumida pelos próprios personagens numa dada cena.

Ainda que alguns atores infantis sejam sobremaneira desenxabidos [Stefany Vaz (Carmen Carrilho), Guilherme Seta (Davi Rabinovich) e Thomaz Costa (Daniel Zapata)], as situações protagonizadas pelas crianças são espirituosas e abundantes em humor brejeiro – conforme se percebe na cena em que a romântica e comilona Laura Gianolli (Aysha Benelli) corteja um rapazola por quem parece estar apaixonada e, de chofre, furta o seu sanduíche parcialmente comido [risos].

As situações advindas do ciúme que a hiperativa e cafona Valéria Ferreira (Maísa Silva) sente por seu namorado Davi, entretanto, são enfadonhas e contaminadas pela mesma verve deletéria - no sentido moral do termo – que sobejava nas produções anteriormente dirigidas por Alexandre Boury, tal qual se percebe na ridícula composição da personagem nordestina Graça (Márcia de Oliveira). Mas nada que a excelente caracterização estereotipada do vilão interpretado por Paulo Miklos não contrabalanceie!

Se, por um lado, a trilha musical é atravessada pelos arroubos equivocados de modismos fonográficos contemporâneos [a tendência ‘rapper’ da convocatória matinal do velhinho Sr. Campos (Orival Pessini) que o diga!], por outro, ela remodela de maneira minimamente interessante os chavões benfazejos sobre a amizade as diversões inocentes de outrora.

As colaborações de Bruna Caram e Erika Machado nas canções que aparecem incidentalmente são efetivas na manifestação encomiosa deste parecer geral sobre a trilha musical, que tenta beneficiar-se da percussividade somática na execução do efusivo tema “PanaPaná” ao final. Dentro das convenções aborrecidas dos filmes infantis, portanto, estas características de “Carrossel – O Filme” não soam demeritórias, de maneira que, em comparação com inúmeros exemplares hollywoodianos assemelhados, esta produção nacional é assaz exitosa.

 Pode-se reclamar que, numa avaliação estrita de suas potencialidades cinematográficas, “Carrossel – O Filme” demonstre-se preguiçoso, ainda que possua esmerados efeitos visuais (vide o incêndio na lagoa, por exemplo) e seja beneficiado pelo carisma de pré-adolescentes tão eloqüentes quanto a belíssima Fernanda Concon, que interpreta a esperta Alícia, aquela que convida os amigos para as férias num acampamento florestal, o que engendra as confusões do parco enredo. O ponto de partida competitivo entre as equipes roxa e laranja – que, por vezes, irrompia na tela sob a forma de telas divididas – é resolvido de maneira ladina quando os concorrentes põem a amizade acima de qualquer disputa e unem-se na causa comum pela salvação do acampamento em relação às ações vilanazes de empreiteiros que desejam transformar a região num parque industrial.

Não é um filme memorável, mas, dentro de perspectivas específicas de vendabilidade afetiva, ele é funcional em sua pretensão de emular uma “fábrica de saudades”. Ganha pontos em sua efetividade mercadológica tupiniquim, por conseguinte!

Wesley Pereira de Castro.

domingo, 24 de março de 2013

INFÂNCIA CLANDESTINA ('Infancia Clandestina') Argentina/Brasil/Espanha, 2011. Direção: Benjamín Ávila.

Filmes como “Um Lugar no Mundo” (1992, de Adolfo Aristarain) e “Kamchatka” (2002, de Marcelo Piñeyro) são demonstrações assaz eficazes de que o cinema argentino transmite com ternura e inteligência as percepções infantis sobre os impactos violentos da ditadura militar na década de 1970. No Brasil, “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” (2006, de Cao Hamburger) possui méritos semelhantes, de modo que esta co-produção argentino-brasileiro-espanhola contemporânea tem como principal premissa o seu excelente ponto de partida dramático, positivamente antecipado pelas referências anteriormente destacadas.

As expectativas depositadas em “Infância Clandestina”, entretanto, logo desbotam quando somos apresentados ao apático protagonista infantil vivido por Teo Gutiérrez Moreno, tão desenxabido e mal-construído que a sua perspectiva observacional acerca dos eventos que ocorrem ao seu redor perde a oportunidade de ser organicamente desenvolvida pelo roteiro autobiográfico de Marcelo Müller e do próprio diretor. Acumulando situações que priorizam as intenções namorativas em detrimento da justificada ingenuidade política de uma criança, este roteiro irresoluto é piorado pela péssima montagem de Gustavo Giani (que fragmenta demais os planos), pela trilha sonora insuportavelmente xaroposa de Marta Roca Alonso e Pedro Onetto, e pela direção fotográfica pretensiosa de Iván Gierasinchuk. Ou seja, narrativamente, o filme é sumamente indefinido em seus desígnios mais gerais, visando oportunamente à hipertrofia do carisma identificacional em relação à suposta puerilidade das seqüências.

 Se, por um lado, o excesso de câmeras lentas e de situações dramáticas inconvincentes (vide a desperdiçada discussão entre mãe e filha e a cena em que o protagonista Juan/Ernesto rouba dinheiro dos pais guerrilheiros para levar sua namorada a um parque de diversões) incomoda pela estultícia formal, por outro, as seqüências de bombardeio urbano reproduzidas em formato de desenho animado adicionam um alento narrativo ao filme, coadunado às soluções mais clicherosas e despolitizadas que poderiam ser encenadas a partir de um entrecho potencialmente envolvente como este.

Os rituais de exaltação peronista que os pais de Juan/Ernesto realizam mais parecem uma cerimônia religiosa pentecostal que uma organização revoltosa, despontando numa seqüência onírica estranhíssima, em que, ao saber da morte de seu pai Horácio (César Troncoso) pela televisão, Juan/Ernesto o imagina sendo velado por crianças, ao som de uma canção aprendida num acampamento escolar, cuja letra associava a impossibilidade temporária de visão à sujeira decorrente de lentes indecentes. Por falar nisso, o sonho em que Juan/Ernesto imagina-se dançando com sua amada María (Violeta Palukas), antes que esta lhe mostre um vaso sanitário que desencadeia numa demonstração de enurese, é deveras interessante, mas insuficiente para instituir convencimento afetuoso a esta trama baseada em eventos reais.

 Os agradecimentos e fotografias que pontuam os créditos finais (ao som da péssima canção “Living de Trincheras”, interpretada pela banda de ‘rock’n’roll’ Divididos) deixam entrever que o diretor é o personagem biografado, mas, justamente por isso, a subjetividade indulgente com que o teimoso e aborrecido protagonista é desenvolvido atinge as raias da irritabilidade, prejudicando a adesão de parte da platéia, que não se deixa apaixonar extensivamente pelos devaneios pré-eróticos do personagem. A cena em que ele se diverte com sua mãe (Natalia Oreiro, linda, mas aqui pouco expressiva) ao relembrar o modo como ela conheceu o seu cônjuge é bonita em seu enquadramento ‘plongée’, mas, lamentavelmente, este é um dos poucos planos do filme que não são estraçalhados pela edição videoclipesco-televisiva.

 Apesar de tentar registrar com precisão emotiva uma época delicada da história da Argentina, “Infância Clandestina” está muitíssimo aquém das demais realizações cinematográficas deste país, seja no que tange à reconstituição das dificuldades ditatoriais propriamente ditas, seja no que diz respeito ao retrato sensível do surgimento das paixões infantis, que engendraram filmes belíssimos sob os auspícios dos produtores do filme, como, por exemplo, “XXY” (2007, de Lucía Puenzo). Ao final do filme – desengonçado, irritante e amorosamente pernóstico – o que predomina é a impressão negativa de que a translação de clichês ideológicos para um contexto de levantes contestatórios potencializou os defeitos estruturais de um diretor estreante em longas-metragens de ficção. Se a tônica do deslumbramento pessoal fosse assumida desde o início, quiçá ele não parecesse tão insincero, mas, do modo como foi apresentado, o roteiro soou tão traiçoeiro quanto os alcagüetes que provocaram a morte do tio Beto (Ernesto Alterio), que, numa seqüência pífia, porém programada para comover, compara o ato de seduzir uma mulher a degustar um condimento de amendoim com chocolate. Este filme é um desagradável contra-exemplo nacional, portanto!

 Wesley Pereira de Castro.