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segunda-feira, 14 de abril de 2025

ALEGORIA URBANA (2024, de Alice Rohrwacher & JR)

Enquanto a cineasta italiana Alice Rohrwacher demonstra, filme após filme, a pujança política da ingenuidade (em faceta ostensivamente pueril), o artista gráfico francês JR não disfarça as suas pretensões desveladoras, a partir de intervenções artísticas nos espaços urbanos. A colaboração entre ambos, através da extensão roteirística de um projeto anterior do artista ("Chiroptera", espetáculo de balé que adapta, numa combinação entre dança e jogo de sombras, a "Alegoria da Caverna", de Platão), permite que reconheçamos as idiossincrasias estilísticas dos dois colaboradores, tanto na direção quanto no roteiro, com participação ativa de Leos Carax como ator. 



No início deste curta-metragem, uma bailarina (Lyna Khoudri) corre pelas ruas parisienses, atrasada para uma audição. Ela está com seu filho Jay (Naïm El Kaldaoui), febril e ansioso para entregar um presente para o seu pai, que está em férias. No afã para participar da seleção de um espetáculo de dança contemporânea, ela tenta justificar o seu atraso pelas condições relacionadas à doença do garoto, a despeito da irritação das demais bailarinas, que já estavam na fila. Curiosamente, o diretor do espetáculo percebe a sensibilidade do menino, compartilhando consigo a mensagem embutida na alegoria filosófica que serve de base para a apresentação que ensaia. Novamente nas ruas, agora sozinho, Jay põe em prática o que aprendeu, concedendo a deixa para que JR exercite a sua inventividade visual, na aplicação de fotografias expandidas em paredes onde se proíbe a colagem de cartazes... 


Deveras simpático naquilo que deseja demonstrar - a constatação de que "não é possível libertar-se sozinho" e o contraponto entre imagens que, em seu caráter ilusório, são contempladas ao mesmo tempo em que se percebe que estamos aprisionados por grilhões reais -, este curta-metragem aproveita a efígie carismática do garotinho para, numa animação, conclamar os transeuntes a retirarem o véu da proibição dos espaços pelos quais transitam. Sob o olhar concordante do criativo realizador Leos Carax, Jay faz com que a exortação platoniana não permaneça confinada no palco onde está sendo apresentado o supracitado espetáculo "Chiroptera", musicado por Thomas Bangalter (integrante da dupla eletrônica Daft Punk). No desfecho, a própria tela em que vemos este filme é rasgada pelo ato libertador da criança. Diretora e artista foram exitosos na transmissão conjunta de seus respectivos discursos, portanto! 



Wesley Pereira de Castro. 

 

domingo, 16 de abril de 2023

PACIFICTION (2022, de Albert Serra)


Um mote recorrente na filmografia assaz idiossincrática do catalão Albert Serra é a tomada de importantes decisões históricas e políticas num contexto geográfico permeado pelas orgias vampirescas. Roteirizado com a ajuda de Baptiste Pinteaux (que tem uma breve participação como ator, além de ser um colaborador habitual do cineasta), este filme escolhe o Século XXI como pano de fundo para as suas intrigas, sendo magistralmente sintético acerca das ameaças bélicas que rondam a contemporaneidade. Cada seqüência das quase três horas de duração é indispensável para a fruição do lento quebra-cabeças que é montado pelo diretor, permanecendo misterioso até o derradeiro efeito sonoro. Tudo nesta obra é cautelosamente estudado, a fim de mergulhar o espectador num torpor autocrítico, reiterando o que o protagonista pronuncia em determinado momento: "a política é como uma boate: as pessoas conversam no escuro, sem conseguirem enxergar umas às outras e demonstrando-se alheias acerca do que acontece ao redor"!


Esplendidamente interpretado por Benoît Magimel, o administrador De Roller passeia por lugares suntuosos de uma colônia francesa na Polinésia, intimidando de maneira sutil quem tenta aproveitar-se de sua influência. Não obstante agir como um dândi, desfilando com seu impecável terno branco, De Roller tem ciência da importância instrumental da violência, quando constata que a diplomacia é ineficaz para desvendar as intenções de seus interlocutores. E isto é apresentado de maneira tão erotizada quanto espetaculosa, seja através dos flertes progressivos com Shannah (Pahoa Mahagafanau), a funcionária transexual do hotel onde hospedam-se funcionários governamentais paranóicos, seja na contribuição que ele faz ao ensaio de uma dança folclórica que metaforiza uma rinha de galos: "as galinhas estão sorrindo", comenta De Roller. "É necessário parecer mais agressivo"!


O 'travelling' inicial apresenta-nos a uma zona portuária, onde percebemos diversos contêineres. No instante seguinte, penetramos na boate Paradise, comandada por Morton (Sergi López), onde os garçons servem bebidas aos clientes, utilizando apenas roupas íntimas. Um deles reclama, por achar tais vestimentas indecorosas, mas logo recebe como resposta: "é esse detalhe que faz tantas pessoas terem inveja desse lugar", o que pode ser estendido ao próprio estilo de Albert Serra, deveras incisivo na exposição associativa entre sexualidade e poder, como se estivesse a demonstrar, de uma vez só, variegadas teses foucaultianas. A tensão é amplificada à medida que o filme avança, visto que a impecável fotografia de Artur Tort - com quem o realizador já trabalhou em mais de uma oportunidade - faz com que os diálogos ambíguos dissolvam-se na beleza quase onipresente dos lusco-fuscos, em combinação com uma trilha musical tão fascinante quanto perturbadora. As ameaças nucleares são confirmadas, ainda que o submarino repetidamente mencionado pelos personagens não seja encontrado. O transe final depende da interpretação multissensória do espectador, mais ou menos como o cineasta reage aos agendamentos jornalísticos, rechaçados explicitamente no enredo. Estupendo! 



Wesley Pereira de Castro.  

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Mostra SP 2022: O ESTRANHO CASO DE JACKY CAILLOU (2022, de Lucas Delangle)


Num primeiro momento, este filme parece abordar a mesma perspectiva dramática levada a cabo por Agnieszka Holland em "O Charlatão" (2020). Ou seja, a análise da conjuntura rural que permite que um camponês simplório perceba-se capaz de curar outrem, ainda que seja alvo de desconfiança pelas pessoas ao seu redor. Diferente da lógica biográfica daquele filme, aqui, o diretor estreante em longas-metragens opta por assumir a fantasia: inicialmente, enquanto reflexão acerca da solidão íntima de um personagem e, logo em seguida, como trama de gênero, num flerte ostensivo com o terror. Instaura-se o lastro da incompletude, através de interessantes pontos de fuga...  


O personagem-título (vivido por Thomas Parigi) vive com a sua avó curandeira (Edwige Blondiau), ciente de que, nalgum momento, dará continuidade ao seu trabalho místico. Ocorre que ele tem pretensões de converter-se em músico 'indie', apresentando-se eventualmente num bar local. O pedido de ajuda de uma moça chamada Elsa (Lou Lampros), molestada por uma impingem crescente nas costas, faz com que ele perceba o que lhe faltava na consecução dos atos de cura transmitidos por sua avó, a sensualidade. Elsa refere-se à observação do movimento das folhas como uma linguagem, o que deixa-lhe encantado. Porém, ao permitir o desenfreamento de seus anseios libidinosos, Jacky será obrigado a unir-se à sua comunidade na perseguição ao lobo que vem matando alguns animais na região. Calhará de esta ser uma mutação monstruosa da própria Elsa, que, convertida na fêmea de um lobisomem, admite "nunca ter se sentido tão livre na vida"!


Interpretado por um elenco que parece emprestado de um filme do Bruno Dumont, o roteiro deste filme metaforiza os receios da autodescoberta, no sentido de que a necessidade premente de tomar decisões obriga o indivíduo a lidar com situações inevitavelmente arriscadas. A fim de testar a possibilidade de ser capaz de curar um ser moribundo, Jacky envolve um pássaro ferido com as mãos, prendendo-o posteriormente numa gaiola, sem esperanças efetivas de que ele se recupere. Noutra seqüência,  ele estará aprisionando a própria Elsa em seu quarto, após deixá-la inconsciente com uma pedrada na cabeça. Ele não conseguirá conter os seus recentes instintos assassinos, da mesma maneira que, repentinamente, passa a ser reconhecido por seus vizinhos como herdeiro dos dons curativos de sua avó. Como expurgar alguém de um mal-estar quando é-se pessoalmente atormentado pela baixa autoestima e pela repressão afetiva? A pergunta aplica-se tanto ao protagonista quanto ao filme em si, visto que ele é maculado pela indefinição rítmica, entre a primeira e a segunda metade. Resta o impacto dúbio da tentativa!



Wesley Pereira de Castro. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Mostra SP 2022: MAGDALA (2022, de Damien Manivel)


Em sentido etimológico, a palavra religião está vinculada ao ato de "voltar a ligar", no que tange às conexões estabelecidas entre os homens e Deus e entre os homens e seus semelhantes. Num primeiro contato com a sinopse deste filme, pensamos numa extensão discursiva dessa etimologia, a partir do que é definido, nos créditos de abertura, como uma reinvenção dos "últimos dias de Maria Madalena"...


Não obstante a fidelidade a ser Jesus Cristo ser constante nos passos lentos da protagonista, que deambula sozinha por uma floresta, o elã religioso é substituído por uma psicose fetichista que ultrapassa a compulsão: quando não está urrando a falta de seu amado, a idosa Maria Madalena está urinando, banhando-se  ou lavando a sua manta, enquanto constrói diversas cruzes com gravetos e folhas. Os ensinamentos privilegiados que a prostituta redimida obteve a partir do convívio com "o filho de Deus feito homem" parecem desembocar numa inércia comportamental: afastada de todas as pessoas, a personagem-título (vivida de maneira compassada porém intensa por Elsa Wolliaston) caminha morosamente por entre as árvores, ao som de árias sobre um necessário ensimesmamento. Quando Jesus (Saphir Shraga) ressurge nas memórias de Madalena, isso ocorre sob o viés do erotismo lacrimoso. A morte do homem sagrado é representada através de metáforas óbvias, como o instante em que a protagonista segura um coração sangrando, à beira de um precipício cercado pela neblina...  


Sem conseguir despertar polêmica (já que a abordagem da personagem bíblica é iconograficamente respeitosa) e sem assumir uma postura ativa acerca da religiosidade (ainda que a ascensão ofertada na imagem final sirva como prêmio para quem tem fé), este filme chafurda na vacuidade. A pretensa lentidão estética revela-se modorrenta e desenxabida, não obstante o zelo fotográfico de Mathieu Gaudet. A velhice predominantemente silenciosa da personagem soa como um coma obsessivo e auto-induzido: o amor, quando expressado de maneira extrema, tende a provocar esta impressão patológica. Seria este filme uma crítica involuntária ao fanatismo cristão?  Mesmo nesta seara, ele demonstra-se lamentavelmente infecundo. 



Wesley Pereira de Castro. 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

FRANCE (2021, de Bruno Dumont)


O mais recente filme do excêntrico diretor Bruno Dumont é surpreendente, sob vários aspectos: além de erigir a quebra de expectativas como mote central do enredo (de modo que isso consta no discurso final da protagonista, sobre a importância da valorização do presente), apresenta uma faceta inaudita em sua carreira, consolidada pelos dramas rurais, com requintes abundantes de cinismo. Aqui, lidamos com uma sátira contemporânea e eminentemente urbana, num recorte metalingüisticamente midiático. A polissemia nomenclatural da personagem-título não é causal: seja no prenome homonímico em relação ao País em que ela vive - não tão acolhedor quanto é publicitariamente disseminado -, seja no sobrenome herdado do seu marido, que anuncia morte. Tudo isso se confirma, mas o filme não pára de nos surpreender!


Protagonizado por uma Léa Seydoux em estado de graça, "France" revela as suas intenções sardônicas logo na abertura, quando a protagonista entrevista o presidente Emmanuel Macron de maneira desdenhosa, trocando gestos zombeteiros com a sua produtora Lou (Blanche Gardin, propositalmente odiável). Especialista em reportagens sensacionalistas em países não identificados que estão "em guerra permanente", France passa por uma mudança drástica de personalidade quando atropela, acidentalmente, um imigrante árabe. Torna-se depressiva e, em seus arroubos públicos de tristeza, converte-se em assunto do mesmo tipo de jornalismo que pratica. É quando resolve abandonar tudo - e novas surpresas acontecem!


Lacrimejando em quase todos os momentos, daí por diante - porque sente-se efetivamente triste e porque sabe que isso capitaneia a audiência -, France lidará com reviravoltas emocionais que a deixarão ainda mais exposta: apaixona-se (e é traída) por um rapaz que responde às suas cantorias românticas com a entoação do 'Dies Irae', em latim, numa das várias situações que são igualmente ternas e cômicas. É difícil categorizar genericamente este filme: nossas reações ao que acontece com a protagonista misturam-se bastante, como também ocorre com ela própria, que, às vezes, parece saber que está sendo dirigida enquanto personagem fílmica - vide o modo como ela olha solenemente para uma câmera superior não-diegética, após conversar, numa praça, com Baptiste (Jawad Zemmar)... 


Musicado pelo genial e versátil Christophe [1945-2020], este filme apresenta sonoridades distintas em seqüências contíguas, pontuando as súbitas alterações de humor que caracterizam France. Hábil manipuladora de seu público, ela aprende a espetacularizar as lágrimas que brotam espontaneamente, tornando-se uma manchete ambulante de si mesma. Longe dos holofotes, ela é perseguida pelo obcecado Charles (Emanuele Arioli), que suplica para que ela o rejeite, "mas não rejeite o nosso amor". Progressivamente, o filme direciona-se para o ambiente campestre, e as recorrentes caricaturas caipiras do diretor cerceiam a protagonista. Ela é tão carismática, entretanto, que, não obstante agir de maneira oportunista e controladora, torcemos por ela, apegamo-nos sinceramente. Num terreno aparentemente distinto de seus temas corriqueiros - é um filme muito mais "leve", por exemplo - Bruno Dumont orquestra uma espalhafatosa e descontraída obra-prima atual!



Wesley Pereira de Castro. 
 

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Festival Varilux 2021: UM CONTO DE AMOR E DESEJO (2021, de Leyla Bouzid)


Na seqüência de abertura, a diretora faz jus ao título de seu filme e apresenta-nos ao protagonista Ahmed (Sami Outalbali) durante o banho: a câmera focaliza suas costas contraídas, enquanto ele se enxuga, a fim de metaforizar a tensão erótica com que ele se deparará dali por diante. Ao invés de converter-se em mero objeto de nossos intentos onanistas, esse personagem assumirá a função de condutor tramático: logo sabemos que é seu primeiro dia de aula na Universidade Sorbonne, onde ele matricula-se numa turma de Literatura. Entretanto, ele não está preparado para o jorro de sensualidade contido nas poesias árabes da Idade Média, tematizadas numa disciplina exordial. Premido entre o machismo da juventude parisiense e as tradições familiares que, em sua interpretação estouvada, relegam as mulheres a posições subservientes, Ahmed não saberá como lidar com a espontaneidade comportamental de sua colega tunisiana Farah (Zbeida Belhajamor), por quem se apaixona... 


Apesar de esta trama de amadurecimento emocional parecer corriqueira, a diretora revela-se arrojada ao preferir abordar as crises morais do personagem masculino, de modo que a perspectiva adotada é o desconforto de Ahmed diante da naturalidade sexual de suas amigas: passa a agir de maneira controladora até mesmo em relação à sua irmã, cujo namoro é motivo de fofocas entre os seus companheiros de trabalho, que pretendem perder a virgindade num prostíbulo holandês. Não obstante a origem argelina, Ahmed não fala árabe, não conhece os locais onde seus pais foram criados e não segue à risca os preceitos da religião muçulmana. E, quando masturba-se, constata que está obcecado por Farah!


Numa montagem que insiste em valorizar a beleza física do personagem, há uma fusão imagética entre o momento em que Ahmed insere a mão entre suas pernas e o mergulho simbólico no livro que ele lê. A professora mais popular da faculdade não titubeia ao associar o material de ensino à lubricidade, o que desconcerta cada vez o protagonista, que pensa em largar os estudos. "Se tu desistires, concederás muita satisfação às pessoas que torcem por seu fracasso", diz a professora. Ahmed reflete consigo mesmo acerca dos múltiplos vícios de sua criação: considera o pai inativo, já que este não conseguiu emprego na França depois que fugiu da Argélia, perseguido por suas atividades como jornalista; e não consegue justificar para seus amigos o porquê de ter escolhido o curso de Letras. Confuso, indeciso, mas em constante excitação egoísta, Ahmed é intimado a aprender - para além das paredes da Universidade. A tarefa requerida para a auto-aprovação é um beijo em público, seguido da aguardada penetração sexual (que, obviamente, é privada). A vida é também poesia, conforme regozija-se a diretora, neste filme um tanto ingênuo, mas prenhe de um vigor minimamente contestatório. O orgasmo é algo tão cultural quanto político! 


Wesley Pereira de Castro. 

sábado, 16 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: AS BRUXAS DO ORIENTE (2021, de Julien Faraut)


À primeira vista, um documentário de uma hora e quarenta minutos de duração sobre a primeira equipe olímpica de voleibol no Japão, dirigido por um francês, parece um filme cansativo, não é? Procede, mas no sentido literal do adjetivo: ao ouvirmos as jogadoras idosas, hoje em dia, comentarem a rotina diária de trabalho matinal numa fábrica de algodão e treinos esportivos que começavam no período vespertino e iam até a madrugada, o espectador fica imediatamente cansado. Mas o filme é surpreendentemente delicioso!


Muitíssimo bem montado, dirigido e musicado, este relato sobre uma história de superação grupal incrivelmente pouco conhecida seduz-nos pelo modo esperto como concatena as imagens de desenhos animados celebratórios, imagens de arquivo dos eventos narrados, depoimentos contemporâneos e canções 'indie' maravilhosas, como "Machine Gun" (do Portishead) e "Honour When We Leave", composta especialmente para o filme por Jason Lytle, vocalista da banda Grandaddy. É difícil não se emocionar com a seqüência em que as jogadoras explicam os seus apelidos e com a tensão erigida durante a final das Olímpiadas de 1964. O modo agradecido com que elas referem-se ao rigoroso treinador Hirofumi Daimatsu [1921-1978] é absolutamente enternecedor. Mesmo quem não gosta de esportes pode lacrimejar sem culpa!


Oportunamente lançado num ano em que as Olímpiadas coincidiram de estar novamente sediadas em Tóquio (os jogos deveriam ter ocorrido em 2020, mas foram transferidos para 2021, mantendo o logotipo original), este documentário pode ser avaliado sob múltiplos primas: seja pelo viés exortativo da emancipação feminina, seja pelo elogio emocionado à capacidade de auto-reconstrução dos japoneses, após os ataques violentos durante a II Guerra Mundial. Pesquisador especializado no assunto, o diretor Julien Faraut torna mui aprazível e divertido o percurso documental. Torcemos juntos pelas garotas da fábrica e contentamo-nos ao percebê-las reunidas depois de tanto tempo, exercitando-se com vigor numa academia de ginástica e brincando com seus netos. Um vitorioso exemplo de reerguimento comunitário e uma poderosa demonstração de que a lógica desportiva vai muito além do que ocorre dentro das quadras! 


Wesley Pereira de Castro. 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

MOSTRA SP 2021: I COMETE - UM VERÃO NA CÓRSEGA (2021, de Pascal Tagnati)


Estruturalmente, esta obra possui vários pontos em comum com alguns filmes de Robert Guédiguian: muitos personagens numa mesma região, a ausência de um protagonista definido, situações sobremaneira dramáticas mas conduzidas de forma desdramatizada, trilha musical apenas diegética, sem algo que direcione a condução espectatorial... Vemos um grupo de pessoas interagindo num local famoso por suas belezas naturais e pelas riquezas acumuladas de alguns moradores. Demoramos a entender - quando conseguimos - as relações de parentesco e/ou afinidade existentes entre eles. Estranhamos os diálogos constantemente chulos, que acentuam o naturalismo da realização. Mas, mesmo assim, nem de longe funciona tão bem quanto em relação ao diretor cotejado: ao também ator Pascal Tagnati, falta pujança política, a escolha de um discurso direcionado a outrem. Ele apenas dispara ações inconseqüentes - muitas delas praticadas por crianças ou adolescentes. E daí?


O personagem com maior tempo em cena chama-se François-Régis (Jean-Christophe Folly) e, apesar de ser o único negro do local, não é hostilizado por conta disso. Pelo contrário, ouve calado as muitas manifestações racistas, homofóbicas, xenofóbicas e misóginas de seus amigos. Concorda com muitas delas, em verdade, principalmente quando, ao assumir-se burguês, alega que "seus peidos são mais cheirosos que os dos outros". Os dilemas recorrentes de seus convivas são banais. Exemplo: um deles morre de medo de ter um ataque cardíaco enquanto defeca; outro frustra-se ao constatar que os times de futebol europeu diferenciam-se pouco entre si atualmente; um terceiro passa quase todo o tempo chorando, provavelmente porque uma mulher o abandonou. E assim as subtramas paralelas avançam, por mais de duas horas!


Obviamente, o filme possui virtudes dignas de nota: a longa seqüência explícita em que Cindy (Maryse Miège) masturba-se num lago, diante do computador em que conversa com seu namorado à distância, é primorosa. Idem quanto aos dissabores românticos do jovem roqueiro Lisandru (Joseph Castelliti). Entretanto, é muito difícil acompanhar um enredo tão intencionalmente incoeso, sem que consigamos afeiçoar-nos aos personagens ou entender as suas motivações iracundas (vide o incêndio que mata um grupo de ovelhas). Talvez numa revisão, o filme seja mais interessante. Mas cadê motivação para conferi-lo novamente, depois do enfado inicial?! 


Wesley Pereira de Castro. 

 

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Ecrã: SAXÍFRAGAS, QUATRO NOITES BRANCAS (2021, de Nicolas Klotz & Élisabeth Perceval)


Por algum motivo, este filme está sendo divulgado como documentário em diversos festivais: talvez, porque a alcunha de "experimental" não seja suficiente para abarcar as intenções de seu percuciente itinerário de erros; ou porque o que ele traz à tona em suas citações urdidas seja ainda bastante contemporâneo. Afinal, é um filme que aborda a Peste que dizimou a população européia durante a Idade Média. É um filme que analisa as conseqüências do terror radioativo em pessoas comuns. É um filme que ousa apregoar que "não existe revolução sem artistas". É um filme que pergunta-nos, diretamente: "é infinitamente inútil ser bom?". 


As possibilidades de resposta a este último questionamento surgem nas frases e imagens superpostas de vampiros contemporâneos, que deambulam por vielas esvaziadas, sob a luz diáfana da madrugada. A fotografia é predominante cáqui, num tom amarelo-esverdeado que parece associar os dias hodiernos ao aspecto de doença, às características sociais diagnosticadas por Émile Durkheim [1858-1917]. Anomia e suicídio são mencionados, bem como as agressões perpetradas por fascistas, inclusive quando testemunhadas por animais famintos. Num texto derradeiro, comenta-se o ditado popular de que "o cachorro é o melhor amigo do homem", numa reflexão renitente sobre as intersecções entre amor e fidelidade. Lembremos que os cachorros obedecem: sentindo fome, eles alimentam-se de cadáveres humanos ou chegam mesmo a matar os párias apontados por seus donos. O filme é sobre isso, a servidão malévola, num cotejo com "a beleza da feiúra": é um documentário, portanto? 


A trilha musical de Ulysse Klotz - que é filho dos diretores - é sobremaneira lúgubre, taciturna, recheada de elementos góticos. O filme é impregnado de tristeza e lamentos, mas também destinado ao clamor combatente, que torna-se ainda mais evidente quando o negativo infravermelho apresenta-nos a uma reunião de ativistas que deliberam sobre a importância da revolta juvenil, com base nos exemplos percebidos na França, em maio de 1968. Trechos de discursos de Giovanni Bocaccio, Marguerite Duras, Allen Ginsberg, Pier Paolo Pasolini e do porta-voz zapatista Subcomandante Marcos, entre outros, escorrem pelas bocas e olhos tristes dos personagens. Às vezes, percebemos um sorriso, nos interstícios das dores quiçá afogadas em doses reiteradas de bebidas alcoólicas. Brilhante testemunho do ano em que o filme foi produzido: se não chega a ser um documentário em si, funciona como tal, na acepção godardiana do termo. Estamos diante de um panorama poético e político acerca do ano 2021, sob a égide de uma pandemia letal e da ascensão da extrema-direita ao poder em múltiplos países: eis o que é documentado, afinal!



Wesley Pereira de Castro.