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quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Mostra SP 2024: O CHEIRO DO LEITE QUEIMADO (2024, de Justine Bauer)


O fato de ser narrado por uma adolescente permite a este filme uma ambivalência que, ainda que não o redima por completo, problematiza aquilo que incomoda as parcelas do público que não se identificaram com os dilemas compartilhados: se, por um lado, acompanhamos os anseios púberes de garotas que, tal como ocorreu com suas mães e avós, precisam dedicar a maior parte de seus dias às tarefas rurais, por outro, verificamos também a exposição das conseqüências drásticas da especulação financeira nos destinos de pequenos agricultores e pecuaristas. Neste sentido, a seqüência que explica o título é particularmente atordoante, tanto pelo que acontece em seguida (o suicídio de um fazendeiro) quanto pelo próprio desperdício de leite, que não causa a comoção midiática pretendida.


A ausência dos familiares masculinos da protagonista talvez seja explicada pela necessidade de eles trabalharem nas áreas fabris da Alemanha. Resta àquelas mulheres tarefas árduas e intermináveis, como juntar feno, castrar ruminantes e afogar ou espancar os gatinhos recém-nascidos. A constatação de uma reflexão social subjacente a todos estes procedimentos não abole a má impressão direcionada às jovens personagens, visto que a maneira pragmática com que elas tratam os animais provoca desconforto. Vide o instante em que é dito que "depois que o touro foi castrado, ele cresceu bastante e, assim, pôde trabalhar mais"...


As atrizes são simpáticas, mas as situações em que elas se envolvem são regidas por convenções dramáticas muito específicas daquela conjuntura regional: a dúvida de uma das adolescentes quanto à manutenção de uma gravidez, por exemplo, não chega a desencadear um conflito evidente (ao perceber que a sua filha está grávida, a proprietária da fazenda apenas pergunta: "quer dizer que eu serei avó?"), não obstante converter-se na cena que encerra o filme, abruptamente interrompida. O ritmo narrativo é conduzido de maneira monocórdica, mesmo diante de situações impactantes, como o supracitado suicídio ou o momento em que um homem banha-se completamente despido no córrego onde as garotas decidem nadar. Terminada a sessão, as questões sociológicas se sobressaem ao enfado provocado pelos diálogos truncados pela indecisão entre o realismo campestre e o arremedo juvenil de um existencialismo essencialmente feminino. As boas intenções, neste caso, são insuficientes para validar a nossa apreciação!


Wesley Pereira de Castro. 

domingo, 14 de julho de 2024

UM DIA NOSSOS SEGREDOS SERÃO REVELADOS (2023, de Emily Atef)


 

Na primeira cena deste filme, Maria (Marlene Burow) prefere ficar em casa lendo, em vez de ir à escola. Ela faz isso há vários dias, o que intriga seu namorado Johannes (Cedric Eich), que ameaça jogar o grosso romance que ela lê pela janela. Ela pede que ele não faça isso e, numa conversa casual, Johannes pergunta-lhe qual o nome do livro e do que se trata. Ela responde: “Os Irmãos Karamazov”, de Fiodor Dostoiévski, e, em seu resumo, a trama é sobre os três filhos de um senhor assassinado, sendo que o mais novo deles fica dividido entre duas mulheres de temperamento radicalmente distinto. É uma enorme simplificação, claro, mas ajuda a compreender o ímpeto passional da protagonista…



Ao som da canção “Behind the Wheel”, da banda britânica Depeche Mode, intuímos que estamos entre o final da década de 1980 e o início da década de 1990: a Alemanha acabara de ser unificada, em razão da derrubada do Muro de Berlim, que dividia o país em dois. Maria vive na parte oriental, e passa mais tempo na casa de seu namorado que ao lado de sua mãe, Hannah (Jördis Triebel). Esta ficou desempregada recentemente, devido às bruscas mudanças econômicas desencadeadas pela situação supracitada e, para piorar, ela está ressentida porque o seu ex-marido, pai de Maria, casar-se-á com alguém com metade de sua idade. A comunicação entre mãe e filha é dificultada, em múltiplas instâncias.


Apesar de não ser uma fazendeira abnegada, eventualmente Maria ajuda a família de Johannes em tarefas cotidianas, como debulhar o trigo ou auxiliar nas vendas de uma quitanda. É numa dessas atividades que ela conhece o ríspido Henner (Felix Kramer), com quem ela se envolverá sexualmente, num desenvolvimento enredístico que, segundo alguns espectadores, emula tramas como as dos romances “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, ou “O Amante de Lady Chatterley”, de D. H. Lawrence. Tal como ocorre nestas obras, Maria busca refúgio no sexo, ao quedar entediada na lida com a rotina rural…


O relacionamento com Henner é permeado por uma sexualidade rude, bruta. Nos primeiros contatos, ele tenta praticar o coito anal, e ela consente, fascinada pela pletora de livros espalhados pela residência do camponês. Estes foram herdados de sua mãe, a quem ele descreve como alguém depressivo, o que vai acrescentando dados que permitem antecipar o que ocorre no desfecho. O roteiro, inclusive, foi co-escrito pela diretora e por Daniela Krien, autora do romance homônimo original.


Chama a atenção, no filme, a sua fotografia amplamente alaranjada, emulando tanto a luz crepuscular, quanto as plantações de trigo e a cor dos cabelos de Maria. Esse tom é também encontrado nas lâmpadas da residência de Henner, bem como no papel de parede que cobre o seu quarto. Maria submerge nesses ambientes quase monocromáticos, até tornar-se presa de uma obsessão que a adoece: em mais de um momento, ela aparece febril, enfraquecida, não hesitando, porém, em entregar-se a Henner mesmo quando está menstruada. O que deixará de ocorrer com Johannes, para o seu descontentamento.


À medida que o filme avança, tons esverdeados surgem na tela, emulando a passagem do tempo, através das estações do ano. Da mesma maneira que Maria – ainda muito jovem, em seus dezenove anos de idade –, a Alemanha está também amadurecendo: os habitantes da Alemanha Oriental, traumatizados por conta da doutrinação e censura comunistas, demonstram-se fascinados com as aberturas comerciais do Ocidente, com as promessas de lucro e com produtos chamativos, como o toca-CDs ou o ‘chantilly’ enlatado. A família de Johannes, que acolhe Maria durante a fase em que ela não sabe direito o que fazer da própria vida, passa por vários conflitos, que espelham o que ocorre em âmbito nacional. É quando o rapaz crê ter encontrado a sua vocação: tornar-se fotógrafo. O que faz com que Maria se sinta ainda mais solitária do que estava inicialmente…


Nas duas horas e nove minutos de duração desta simpática produção germânica, tem-se a impressão de que Maria é presa de um ciclo mui repetitivo de atração e aversão, em relação ao lacônico Henner. Na derradeira seqüência, o título do filme é clarificado, numa associação renovada com a obra que ela lê com tanto entusiasmo. Antes que os versos apaixonantes de “Dancing Barefoot”, de Patti Smith, surjam nos créditos finais, o vaticínio de um personagem dostoiévskiano será pronunciado, em ‘off’, pela jovem: “um dia, nós ressuscitaremos, e nos reencontramos e conversaremos sobre tudo. Absolutamente tudo”. Fica a impressão de que o enredo possui forte pendor autobiográfico, o que não é casual: há uma dupla adolescência sendo abandonada no filme, a de uma moça e a do país em que ela vive. Enquanto leitora compulsiva, Maria exorta-nos a decifrar as entrelinhas do que ocorre no filme em que ela é a personagem principal!



Wesley Pereira de Castro.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

DIÁRIO DE VIAGEM (2020, de Paula Kim)


A transcrição autobiográfica em livros ou filmes é uma tendência subgenérica acometida por uma ambigüidade essencial, no sentido de que os responsáveis por esse tipo de obra podem incorrer na condescendência ou no punitivismo em relação a fatos da própria vida. E, de fato, isso também ocorre neste filme, em que a diretora e roteirista - estreante em longas-metragens - projeta dramas pessoais na concepção da protagonista, vivida com corajosa entrega por Manoela Aliperti. Se os tormentos anoréxicos (e extensivamente depressivos) experimentados por ela asseguram a identificação com quem padece de transtornos semelhantes, pela intensidade com que são retratados, os elementos circundantes engendram a impressão oposta, o afastamento subjetivo, visto que os privilégios classistas da família em pauta podem desencadear interpretações malogradas, em âmbito político. Um ponto de partida interrogativo: por que o enredo faz tanta questão de reforçar que os eventos ocorrem durante a aplicação ministerial do Plano Real, de 1995 em diante? Considerando-se que a protagonista Liz é aburguesada, a insistência desse elemento histórico-econômico soa problemático em relação à fruição dramática do filme... 


Apaixonada por Literatura e pelas artes em geral (e também por Matemática), Liz viaja para a Irlanda, a fim de realizar um intercâmbio estudantil pouco explorado nas interações posteriores, exceto no que diz respeito ao interesse platônico da protagonista por Lucas (Daniel Botelho). Sentindo-se malquista pelos colegas de classe, ao ganhar um caderno de seu pai (Eucir de Souza), Liz resolve redigir as suas inquietações, de trás para a frente, a fim de metonimizar um processo similar ao de transformação de lagarta em borboleta. Na narração em 'off' que conduz o filme, Liz confessa-se para este diário, a quem chama de "Pupa". Em sua precocidade adolescente, ela compara-se indiretamente a Anne Frank [1929-1945], mas seu pai faz questão de estabelecer uma distinção fundamental: "enquanto ela viveu sob a guerra, tu desfrutas de paz e abundância". Repentinamente Liz decide parar de comer, submetendo-se a uma rotina violenta de supressão alimentar, que causa-lhe também amenorréia, automutilações e os tiques involuntários. Isso faz com que ela distancie-se cada vez mais dos poucos amigos e da família. Muitas garotas passam por esse mesmo tipo de sofrimento juvenil, de modo que o filme goza de uma boa comunicação com este público-alvo. Entretanto, a falta de nuanças na apresentação dos personagens secundários - principalmente a mãe de Liz (numa interpretação deveras inexpressiva da mui talentosa Virgínia Cavendish) - expõe as múltiplas fraquezas do filme, que levam-nos a julgar a protagonista quase da mesma maneia cruel com que ela trata a si mesma!


Não ignorando a gravidade dos temas abordados, lamenta-se que a indefinição do enfoque narrativo prejudique a nossa empatia em relação à personagem principal. Na maioria das vezes, claro, torcemos para que ela se recupere, sendo dignos de menção os esforços apresentados no desfecho elíptico do filme, em que a personagem demonstra-se disposta à recuperação, alguns anos depois que os seus distúrbios são diagnosticados. Porém, a maneira passivo-agressiva com que ela se relaciona com as pessoas ao redor beira a inverossimilhança reconstitutiva, como quando, na Irlanda, Liz reclama que algumas brasileiras que estavam consigo no avião não são suas amigas ou na cena em que uma garota se oferece para assinar em um curativo em seu pulso. O comprometimento actancial da jovem atriz com a sua personagem é aplaudível, mas o processo de construção tramática da mesma é incoeso - para além do que é permitido pelo registro da rebeldia adolescente. Trata-se de um filme que merece ser aproveitado para finalidades terapêuticas, por causa da maneira acessível [leia-se: previsível] com que ele é montado, mas que talvez funcionasse melhor como trama seriada, em que os desleixos ideológicos (vide a maneira como a empregada doméstica da família é tratada) tornar-se-iam menos evidentes. Em conjunto com o 'site' sobre "realidade prejudicada" idealizado pela diretora, "Diário de Viagem" é exitoso nalguns objetivos, mas nem sempre se sustenta enquanto peça cinematográfica. Vale pelo esforço compartilhado: ainda que não sejam suficientes, boas intenções importam!


Wesley Pereira de Castro. 

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Festival Varilux 2021: UM CONTO DE AMOR E DESEJO (2021, de Leyla Bouzid)


Na seqüência de abertura, a diretora faz jus ao título de seu filme e apresenta-nos ao protagonista Ahmed (Sami Outalbali) durante o banho: a câmera focaliza suas costas contraídas, enquanto ele se enxuga, a fim de metaforizar a tensão erótica com que ele se deparará dali por diante. Ao invés de converter-se em mero objeto de nossos intentos onanistas, esse personagem assumirá a função de condutor tramático: logo sabemos que é seu primeiro dia de aula na Universidade Sorbonne, onde ele matricula-se numa turma de Literatura. Entretanto, ele não está preparado para o jorro de sensualidade contido nas poesias árabes da Idade Média, tematizadas numa disciplina exordial. Premido entre o machismo da juventude parisiense e as tradições familiares que, em sua interpretação estouvada, relegam as mulheres a posições subservientes, Ahmed não saberá como lidar com a espontaneidade comportamental de sua colega tunisiana Farah (Zbeida Belhajamor), por quem se apaixona... 


Apesar de esta trama de amadurecimento emocional parecer corriqueira, a diretora revela-se arrojada ao preferir abordar as crises morais do personagem masculino, de modo que a perspectiva adotada é o desconforto de Ahmed diante da naturalidade sexual de suas amigas: passa a agir de maneira controladora até mesmo em relação à sua irmã, cujo namoro é motivo de fofocas entre os seus companheiros de trabalho, que pretendem perder a virgindade num prostíbulo holandês. Não obstante a origem argelina, Ahmed não fala árabe, não conhece os locais onde seus pais foram criados e não segue à risca os preceitos da religião muçulmana. E, quando masturba-se, constata que está obcecado por Farah!


Numa montagem que insiste em valorizar a beleza física do personagem, há uma fusão imagética entre o momento em que Ahmed insere a mão entre suas pernas e o mergulho simbólico no livro que ele lê. A professora mais popular da faculdade não titubeia ao associar o material de ensino à lubricidade, o que desconcerta cada vez o protagonista, que pensa em largar os estudos. "Se tu desistires, concederás muita satisfação às pessoas que torcem por seu fracasso", diz a professora. Ahmed reflete consigo mesmo acerca dos múltiplos vícios de sua criação: considera o pai inativo, já que este não conseguiu emprego na França depois que fugiu da Argélia, perseguido por suas atividades como jornalista; e não consegue justificar para seus amigos o porquê de ter escolhido o curso de Letras. Confuso, indeciso, mas em constante excitação egoísta, Ahmed é intimado a aprender - para além das paredes da Universidade. A tarefa requerida para a auto-aprovação é um beijo em público, seguido da aguardada penetração sexual (que, obviamente, é privada). A vida é também poesia, conforme regozija-se a diretora, neste filme um tanto ingênuo, mas prenhe de um vigor minimamente contestatório. O orgasmo é algo tão cultural quanto político! 


Wesley Pereira de Castro. 

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

A NOITE DO FOGO (2021, de Tatiana Huezo)


Por mais onipresente que seja a violência dos cartéis de droga neste filme, a diretora dribla a explicitude que poderia converter-se em espetacularização: ao invés disso, ela prefere enfocar as conseqüências traumáticas e as exortações transformadoras, através das ações provisórias de professores abnegados. A perspectiva narrativa respeita a inocência ainda conservada de Ana (interpretada na infância por Ana Cristina Ordóñez González e, na adolescência, por Marya Membreño), mas as agruras ao seu redor tornam-se cada vez mais severas: sua mãe esforça-se para preservá-la do destino cruel reservado às meninas seqüestradas pelos traficantes, enquanto seu amigo Margarito (Julián Guzmán Girón) aparece com um revólver, demonstrando cumplicidade com as pessoas que fazem tanto mal aos moradores do povoado. O desfecho, neste sentido, é paradigmático, justificando muito bem o título do filme.


Não é por acaso que o fogo aparece, à noite: símbolo de reações encolerizadas, na primeira vez que Ana e suas companheiras vê algo sendo queimado, há um corte brusco que marca o envelhecimento delas. Sob a desculpa de uma infestação de piolhos, seus cabelos são mantidos bem curtos, a fim de assegurar-lhe uma aparência masculina e retardar o temido momento em que ela será perseguida pelos cultivadores de papoulas, em cujas plantações trabalham muitos de seus vizinhos, em atemorizadas condições. Helicópteros são constantemente ouvidos, despejando agrotóxicos. Tiros e explosões são ainda mais freqüentes. A supracitada violência é, portanto, indicial - porém, não exclusiva: num dos mais belos momentos do filme, Ana e Margarito dançam numa festa de rodeio... 


A naturalidade das interpretações infantis impressiona pela efetividade: as descobertas em sala de aula, as brincadeiras marotas (como passar beterraba nos lábios, para simular o uso de batom) e o modo como lida-se com a ausência súbita de outras pessoas abrilhantam ainda mais a dinâmica afetuosa entre o trio principal de amigas. Em planos impactantes, que só confirmam a magnificência da direção de fotografia a cargo de Driela Ludlow, diversas mulheres são vistas tentando falar com seus respectivos parentes, naquele que parece ser o único lugar onde há sinal de telefonia. Nem sempre obtêm êxito na comunicação, defendida como essencial em sala de aula. Enquanto isso, Ana aprende, para além das exigências etárias tradicionais: ótimo exercício de feminilidade cinematográfica! 


Wesley Pereira de Castro. 

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Mostra SP 2021: YUNI (2021, de Kamila Andini)


Quando somos apesentados à personagem-título, ela está sendo repreendida pela diretora de sua escola por estar fazendo algo que parece muito recorrente: furtou o prendedor de cabelos de uma colega de classe, apenas por ser roxo. À medida que o filme avança, notamos que Yuni (Arawinda Kirana) possui uma verdadeira obsessão por esta cor: os detalhes de sua motocicleta, seu caderno, suas roupas, quase tudo que a circunda é roxo. Durante uma discussão, uma garota diz que isso se deve à associação existente entre esta cor e a viuvez. Yuni é cortejada por vários potenciais maridos, mas, mesmo perigando ser desonrada, rejeita cada um deles... 


Não obstante viver numa comunidade muçulmana, Yuni freqüentemente é vista sem o véu e conversa naturalmente sobre sexualidade com as amigas. Tenta até mesmo masturbar-se, pois sabe que atingir o orgasmo nas relações sexuais praticadas durante o casamento é incomum. Após certa relutância, nota que um garoto do seu colégio é apaixonado por ela, mas ele é sobremaneira tímido. Até que a poesia começa a aproximá-los: por estar atraída por seu professor de Literatura, chamado Damar (Dimas Aditya), e ter interesse em ingressar na faculdade, Yuni precisa melhorar as suas notas nesta disciplina, única do currículo escolar em que não possui muita afinidade. O tímido Yoga (Kevin Ardillova) é um exímio leitor, mas tem dificuldades em expressar o que sente. No desfecho, caberá a Yuni a decisão mais difícil de sua vida, para a qual receberá pleno apoio de sua progressiva família.


Muito bem interpretado e dirigido, este filme agrada pelo modo gracioso com que desenvolve os dramas das jovens indonésias: insistentemente cortejadas desde a adolescência, elas estão prestes a serem testadas se são virgens, a fim de permanecerem estudando, conforme ouvimos numa notícia de jornal, segundo proposta do Ministério da Educação daquele país. Parece esdrúxulo, mas é o que acontece quando religião e política se misturam. Mergulhada em sua obsessão monocromática, que a converte numa cleptomaníaca eventual, Yuni tem a oportunidade de experimentar um flerte erótico com Yoga. Porém, ao flagrar seu professor numa situação constrangedora, é submetida a um árduo dilema, sendo que o roteiro não envereda pelo melodrama, respeitando o frescor lascivo da protagonista. Um filme tão bonito e sensível quanto os vários poemas de Sapardi Djoko Damono [1940-2020] que são lidos ao longo da narrativa, e a quem a diretora dedica o seu filme!



Wesley Pereira de Castro. 
 

domingo, 24 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: IRMANDADE (2021, de Dina Duma)


Quem aprecia o corpus cinematográfico da cineasta norte-americana Eliza Hittman, identificará muitos pontos em comum neste filme macedônico - e, por extensão óbvia, também identificar-se-á bastante com os dilemas de consciência da protagonista Maya (muitíssimo bem interpretada por Antonija Belazelkoska). O título do filme possui um caráter quase satírico, se não fosse trágico: a sororidade anunciada redunda no abandono característico da globalização, via Instagram. Como o enredo é desenvolvido numa área metropolitana, esquecemos as complicações históricas relativas ao país que produziu o filme: a diretora centra seu olhar nos dilemas na protagonista, a quem a câmera segue de maneira tão visceral quanto apoiadora... 


Os mergulhos surgem como elemento recorrente na trama: logo no início, de brincadeira, Maya é empurrada no fundo da água por sua melhor amiga Jana (Mia Giraud). Após uma conversa sobre desejos platônicos, ambas pulam de um penhasco, obtendo a atenção de um grupo de rapazes que nadava ao lado. Após algumas frustrações pessoais, este mesmo penhasco - onde os jovens costumam reunir-se, na improvisação de luaus etílicos - servirá de cenário para uma tragédia anunciada. No desfecho magistralmente em aberto, o ato inicial é invertido: agora é Maya quem tenta afundar Jana, num exercício de natação na escola em que ambas estudam. O ciclo nem sempre fecha: é assim com quem sobrevive à adolescência! 


Muito desenvolta em seu estilo naturalista de direção, Dina Duma evita as imagens gratuitas de choque ou a comiseração forçada. Ela põe-se ao lado da protagonista, e tenta compreender os comportamentos arredios e a sua timidez induzida. Mui inteligentemente, ela evita os maniqueísmos típicos desta faixa etária: trata com muita compaixão até mesmo quem exerce funções que, segundo as convenções do gênero dramático, seriam vilanescas. A diretora observa e compartilha as suas impressões, mas não há julgamento, e sim o esforço pelo entendimento e o reencontro com as lembranças traumáticas. Neste sentido, o título é muito certeiro, pois vai além dos modismos nomenclaturais da contemporaneidade. Diz respeito ao que poderia aplacar o desamparo da protagonista (e, porventura, também dos espectadores): em sua assertividade narrativa, é um filme-manifesto!



Wesley Pereira de Castro. 

 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

BLING RING: A GANGUE DE HOLLYWOOD ('The Bling Ring') EUA/Reino Unido/França/Alemanha/Japão, 2013. Direção: Sofia Coppola.

Sofia Coppola é uma cineasta bastante autoral. Como tal, desde o seu longa-metragem de estréia [“As Virgens Suicidas” (1999)], ela deixou assaz demarcadas as suas obsessões temáticas: os conflitos geracionais, o fascínio ambíguo pelas celebridades midiáticas [ambíguas em essência] e o flerte imersivo com as culturas ‘pop’ e/ou ‘indie’.

Em “Encontros e Desencontros” (2003), sua obra-prima até então, ela demonstrou uma maturidade sobressalente em relação a estes assuntos, de maneira que os longas-metragens seguintes, em suas sutis metamorfoses estilísticas, apenas ratificam o que já havia sido anunciado no primeiro filme: em “Maria Antonieta” (2006), por exemplo, os anacronismos vinculados à inserção proposital de artefatos e cantos contemporâneos numa narrativa romântica situada no século XVIII funcionavam como emulações indiciais dos temas anteriormente destacados; e, em “Um Lugar Qualquer” (2010), filme de temática um tanto mais sóbria, tais temas ressurgem no modo donairoso com que um ator afamado se relaciona com a filha adolescente que praticamente desconhecia.

 Em “Bling Ring: A Gangue de Hollywood” (2013), os traços autorais da diretora são misturados de forma astuta e veloz graças ao brilhantismo da montagem de Sarah Flack (colaboradora habitual da cineasta desde o seu segundo filme), que inteligentemente dirime o perigo de a obra tornar-se enredisticamente limitada por sua obediência reconstitutiva aos fatos reais que engendraram a trama, descritos originalmente numa reportagem da jornalista Nancy Jo Sales, em que se baseia o roteiro. Este, escrito pela própria Sofia Coppola, não se limita a contar esta absurda história verídica, mas opera uma interessantíssima reversão narrativa, em que, ao mesmo tempo em que critica os estereótipos modistas que impulsionaram os rompantes criminosos dos protagonistas, lida com os chamarizes cinematográficos e cibernéticos de maneira assumidamente dúbia, a ponto de algumas celebridades aparecerem no filme interpretando a si mesmas, como Kirsten Dunst, parceira freqüente da diretora, e Paris Hilton, intensa e inclementemente citada nos diálogos.

Dedicado ao fotógrafo Harris Savides, falecido em 06 de outubro de 2012 por complicações de um câncer cerebral, este filme ostenta o seu brilhantismo potencial desde os exuberantes créditos de abertura, em que os acordes altissonantes e acelerados de uma canção [“Crown on the Ground”, de Sleigh Bells] sobrepõem-se a imagens de jóias e roupas de grifes famosas, devidamente aludidas e merecedoras de agradecimentos colaborativos nos créditos finais, muito mais brandos, ao som da oportuna “Super Rich Kids”, de Frank Ocean (com participação de Earl Sweatshirt).

A direção de fotografia compartilhada entre o próprio Harris Savides e Christopher Blauvelt proporciona momentos tão fantásticos quanto inesperados, como as extraordinárias seqüências no interior de boates, em que os protagonistas são freqüentemente mostrados fotografando a si mesmos, em ângulos cingidos, através de seus telefones celulares, e o potente instante, filmado em ‘contra-plongeé’, a partir da câmera embutida de um computador, em que o afetado Marc Hall (Israel Broussard) rebola, usa maquiagem feminina e consome drogas inaláveis ao som de “Drop it Low”, de Ester Dean e Chris Brown. Na trilha sonora, inclusive, merece destaque o modo genial com que a diretora mescla as sonoridades apaziguadoras da banda francesa Phoenix [“Bankrupt!”] e do músico Brian Reitzell [que compôs “The Bling Ring Suite”] com as irrupções frenéticas de Kanye West [“Power” e “All of the Lights”], M.I.A. [em “Bad Girls” e “Sunshine”], Reema Major [“Gucci Bag”] e Azealia Banks [“212”], entre tantos outros artistas.

 Não obstante ser dotado da perspectiva subjetivo-confessional que concatena e incita as demais personagens, Israel Broussard oferece uma interpretação tão travada quanto os comportamentos sociais do homossexual enrustido que vivifica, mas isso não impede que seja reverenciada a homogeneidade do excelente elenco, que inclui Leslie Mann, ótima como sempre, no papel da mãe fútil de uma das ladras, insistentemente mostrada em arremedos de rituais religiosos inspirados por ‘best sellers’ de auto-ajuda. Porém, quem mais se destaca no filme são Katie Chang, no papel da dissimulada Rebecca, Claire Julien, que personifica a deslumbrante Chloe, e Emma Watson, irreprochável como a carente e deslumbrada Nicki Moore, que reaparece depois de serem anunciadas as sentenças prisionais dos personagens, sendo entrevistada pelo âncora de um programa sobre a vida íntima das celebridades, comentando que estivera na mesma cena que Lindsay Lohan, atriz juvenil continuamente presa por estar dirigindo embriagada. Quando Nicki olha para a tela da TV e divulga orgulhosamente o seu ‘blog’, percebemos o quanto o roteiro foi sagaz na demonstração da incapacidade da geração à qual ela pertence em assumir as responsabilidades por seus delitos: a fama instantânea desencadeada pela cleptomania de luxo que ela põe em prática a converte num pasticho de celebridade, o que é previamente antecipado no enredo a partir da afinidade dos personagens com jargões e letras de canções que valorizam as atitudes de ‘bitches’ [vadias] e ‘gangstas’ [malandros] e no inusitado questionamento que Marc faz a Rebecca: “se nós deixarmos de ser amigos, tu vais roubar a minha casa?”. “Bling Ring: A Gangue de Hollywood” é, sobretudo, um poderoso testemunho de época! 

 Numa comparação com os demais filmes da diretora, esta obra mais recente revela-se deficitária em mais de um aspecto – em especial, na confecção de seu roteiro, muito mais “óbvio” que os anteriores – mas, ainda assim, a insistência discursiva sobre as características peculiares (e tão influenciáveis quanto influenciadoras) dos jovens hodiernos, para além de suas condições de classe ou configurações gentílicas, evidencia o quanto a diretora é percuciente em seu olhar autoral, a ponto de permitir que o filme pareça se confundir com o que está sendo criticado, já que o espectador é mergulhado em situações de intensa percussividade somática, introjetando o frenesi dos personagens em sua praticamente ininterrupta rotina de festas, culto à própria imagem e consumo abundante de álcool, música dançante e cocaína.

Se, na quinta vez em que a gangue juvenil invade a residência de Paris Hilton, o chiste já não é tão interessante (ou surpreendente), a preparação noticiosa para o contexto em que esse tipo de invasão é possível salta aos olhos, visto que muitas das mercadorias (supérfluas) furtadas são facilmente substituíveis ou ignoradas pelos milionários lesados.

 A lógica do valor de uso é completamente esvaziada, sendo hipertrofiado um simulacro de valor de troca que perpetua, dentro e fora das telas, as crises falsamente desejosas – e encadeadas de maneira psicótica – que acometem os personagens, atingem alguns dos espectadores e, infelizmente, não ficarão restritas a este filme, que já é a versão ficcional de uma patética situação real. Insistindo no que já foi dito, estivemos diante de um verdadeiro filme-testemunho, que, apesar de fadado a envelhecer muito rápido, diagnostica de maneira pluridimensional as fraquezas e destrezas da faixa etária que, não por acaso, é o público-alvo dominante dos produtos hollywoodianos atuais...

 Wesley Pereira de Castro.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

AS MELHORES COISAS DO MUNDO (Brasil, 2010). Dirção: Laís Bodanzky


Na primeira cena do filme, o narrador e protagonista Hermano (vivido com muita graça pelo estreante Francisco Miguez) repete a declaração, feita por seu pai, de que “a melhor fase da vida é a infância e que esta passa rápido demais”, ao que ele discorda, afirmando que demorou muito para que ele atingisse a sua liberdade. Ao final do filme, ele afirma que “não é impossível ser feliz depois que se cresce. É apenas mais complicado”. Nos 107 minutos que separam a contestação da primeira afirmação e a aceitação resignada da segunda, entramos em contato com uma simpática amostragem do cotidiano adolescente contemporâneo, que apresenta particularidades tecnocráticas mui peculiares que, ao mesmo tempo que o distingue radicalmente das gerações adolescentes anteriores (distinção esta muito bem apontada no filme através do ótimo personagem de Caio Blat), possibilitam a instauração de conflitos publicamente interativos que reformulam a noção de dramaticidade no que se convencionou chamar de Era da Informação.

No caso do filme em pauta, o questionamento acerca de o quanto esta pletora de informações altera a sensibilidade dos adolescentes em relação aos dramas que enfrentam (ou pensam enfrentar, em alguns dos casos) vem à tona em três situações-chave, todas elas largamente comentadas por uma blogueira contumaz: a disseminação de fotografias eróticas da adolescente mais cobiçada do colégio em que Hermano estuda, através da qual o mesmo tem sua iniciação sexual; a demissão de um professor de Física bem-quisto pelas alunas do colégio, depois que uma delas (interpretada pela mui expressiva Gabriela Rocha) lhe aplica um beijo num restaurante; e a difusão polêmica da informação verídica de que o pai do protagonista separou-se de sua esposa para viver um romance homossexual, o que ocasiona até mesmo um espancamento. Para além de merecer com louvor os aplausos que vem recebendo em algumas sessões, este filme possui alguns problemas estruturais suspeitos que, não obstante conservarem incólume a simpatia identificatória em relação aos ótimos personagens, precisam ser evidenciados no que tange ao atrelamento do mesmo à possível exploração comercial futura em um formato televisivo seriado, tal qual aconteceu com os livros de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto que deram origem ao roteiro de Luiz Bolognesi, marido e parceiro habitual da diretora. Vamos a estes problemas, antes que tenhamos oportunidade de novamente elogiar o inspirado sopro de vida que este filme lança no ideário adolescente contemporâneo.


A não-dominação da perspectiva narrativa de Hermano em relação aos eventos que o circundam talvez seja o grande problema de subsunção institucional/mercadológica que este filme enfrenta, no sentido de que a concomitância de várias instâncias narrativas diz menos respeito a uma plurivocalidade personalista do que à exaltação egocêntrica do personagem Pedro, irmão do protagonista, que é interpretado por Fiuk, um astro forçosamente ascendido da Rede Globo de Televisão. Em dado momento do filme, portanto, quando já estávamos acostumados a acompanhar os eventos através do prisma sentimental de Hermano, sem julgá-lo pelos erros cometidos e mais tarde justificados por um aforismo pertinente de seu professor de violão (surpreendentemente crível através da interpretação de Paulo Vilhena), a depressão reinante de Pedro assume o papel quase principal do filme e, graças à difusão crescente de suas próprias atividades enquanto blogueiro poético suicida, engendra uma reunião apaziguada dos membros de sua família (incluindo o namorado de seu pai), que, apesar de ser considerada hipócrita pelo jovem que tentara se suicidar, é moralmente validada pelo roteiro, que encontra aqui seu canal dominante de inoculação ideológica. Em verdade, há de se convir que o referido personagem Pedro cresce bastante no decorrer da trama, no sentido de que abandona a ignorância responsiva do início e assume a fragilidade rebelde no final, quando resolve propor à sua ex-namorada uma tentativa de reconciliação poligâmica, mas, ainda assim, sua concepção como um todo é deveras suspeita levando-se em conta os interesses vislumbrados por alguns dos produtores do filme.


Por mais que se possa reclamar de alguns desvios ideológicos e disritmias estruturais do roteiro, a homogeneidade actancial dos elencos adulto e juvenil merece destaque, no sentido de que isentam-se dos cacoetes de estúdio a que estes atores poderiam estar submetidos, conforme demonstram a firmeza de Denise Fraga em impedir que sua personagem torne-se caricata ao defender a todo custo a aplicação de éticas de conduta profissional ou o já citado desempenho de Caio Blat, que assume-se como porta-voz sincero (e obviamente secundarizado) daqueles que se opõem às estruturas canônicas de dominação econômica, e que se pode constatar particularmente na brilhante seqüência em que ele se mostra previsivelmente escandalizado diante das propostas monetifágicas de uma chapa de grêmio estudantil que se auto-batizou “Grana” – e que, não por acaso, será a chapa vencedora na eleição que ocupa o roteiro por algum tempo. No que se refere à condução directiva singela de Laís Bodanzky, pode-se perceber um evidente conflito interno em relação à polidez formal e as soluções supostamente livre-arbitrárias, deveras funcional na cena de abertura, em que ‘riffs’ pesados de guitarra são substituídos por uma música suave no mesmo plano em que Hermano deita-se no chão refletindo sobre o seu futuro, e precipitada ou clicherosamente equivocada na cena em que o protagonista e seus colegas fogem de um bordel quando a fraude de um deles em relação ao pagamento faz com que o mesmo seja alcunhado de “‘playboy’ de condomínio”.

A introdução iterativa da canção “Something” (de The Beatles) em momentos pontuais da trama, visto que esta canção é a preferida do protagonista e com a qual ele vislumbra conquistar as meninas por quem se apaixona, também se revela positiva, não obstante os perigos formulaicos a que esta adesão musical pré-consagrada poderia pressupor.


Aproveitando o inspirado título do filme, posto em cena justamente pela excelente personagem Carol – de longe a melhor coisa do filme! – chama a atenção o modo como ele assegura a cumplicidade com o público (seja qual for a faixa etária) através da exposição elaborada de problemas inevitáveis da contemporaneidade, que culmina no momento de grande dramaticidade terapêutica em que Hermano e sua mãe atiram ovos contra a parede da cozinha depois de um paroxismo de fúria. Junto à qualidade cinematográfica destacável desta seqüência, podemos enumerar todas as ótimas conversas entre Mano e Carol no interior de um ônibus, a filmagem entrecortada da peça teatral concebida por Pedro, o uso incidental da trilha sonora a cargo de BiD (onde merece crédito a maravilhosa seqüência em que Gabriela Rocha cantarola “Com Mais de 30”, de Marcos Valle) e a boa edição de Daniel Rezende, que tem um senso preciso de onde utilizar a montagem saltada e os ‘fade-outs’. Ainda que seja o filme menos habilmente controlado pela diretora Laís Bodzanky, “As Melhores Coisas do Mundo” é prenhe de vida e de originalidade representativa. E isso conta muito na pletora sub-igualitária dos dias atuais!

Wesley Pereira de Castro.