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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

PACTO DA VIOLA (2024, de Guilherme Bacalhao)

 

Urdido sob a perspectiva desorientada do protagonista Alex (Wellington Abreu), que tem o seu laivo de deslocamento enfatizado desde a primeira aparição, quando lava o sangue dos bois que assassina num matadouro, o roteiro deste filme é balizado por uma tendência à simplificação, seja na maneira romantizada/espalhafatosa com que são apresentadas as crenças de Lázaro (Sérgio Vianna) e seus vizinhos nas manifestações demoníacas interioranas, seja nas oposições imediatistas que Joyce (Gabriela Correa) direciona ao lugar em que vive, tachando de "jecas" quem não aprecia as músicas eletrônicas que ela ouve até mesmo quando está despejando agrotóxicos na fazenda em que trabalha... 


De um lado, Alex deseja continuar a tradição que lhe fôra repassada por seu pai, um hábil violeiro, que abandona a música depois do falecimento de sua esposa, misteriosamente afogada, supostamente por causa de uma aparição do Diabo; do outro, ele tenta se adequar aos comportamentos modernosos sugeridos por Joyce, que, como ele, também viveu em Brasília, e o convida para 'raves' e para desempenhar funções insalubres na fazenda que usurpa a água fluvial da região e interdita até mesmo as estradas do povoado. Resta a este personagem a indecisão contumaz, que desencadeia gestos estouvados, na tentativa aflita de levar a cabo as crendices sugeridas pelo misterioso Tião (Márcio Rodrigues). 


Em termos imagéticos, isto se reflete numa fotografia - a cargo de André Carvalheira - que se inicia contemplativa, aproveitando a experiência do realizador, estreante em longas-metragens, com a linguagem documental, mas que logo adere ao frenesi associado à confusão mental de Alex, em movimentos trêmulos, como aqueles da supracitada cena em que Joyce despeja os agrotóxicos e quando ele queima um boi morto, junto à madeira na qual seu pai crê que se esconde um ninho de cascavéis. Como faria ele para ressuscitar o chocalho concedido por Tião, ao afirmar que "uma viola sem proteção é igual a um boi sem chifre"? A resposta é: ocupando o lugar pretensamente santificado de seu pai adoentado, sem se preocupar com as conseqüências desta arriscada substituição. 


Esquemático na maneira como apresenta as tradições e costumes do munícipio mineiro de Urucuia, onde ocorreram as filmagens, e ressabiado no modo como os diálogos comentam as frustrações dos migrantes em suas respectivas passagens por Brasília, "Pacto da Viola", conforme previamente indicado, confunde-se tanto com o seu protagonista, que não oferece nenhum discurso ou proposta concreta de enfrentamento: transige diante de uma conjuntura rural sufocada pela lógica invasiva dos latifúndios (o "mar de soja" que Joyce comenta com desdém), enquanto as manifestações culturais são reproduzidas sob a égide do cansaço, num estertor automático que apela para as superstições, quando o silêncio de Deus atinge píncaros insuportáveis, metonimizados no esvaziamento do restaurante em que Alex apresenta a sua música; na interrupção radiofônica de sua canção, devido à transmissão de "A Voz do Brasil"; e nos CDs que ele não consegue vender, já que "ninguém mais ouve isto". Resta a faca na goela do boi, infelizmente! 



Wesley Pereira de Castro. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Mostra SP 2024: O TRATOR (2024, de Ramesh Yanthra)


O fato de o diretor Ramesh Yanthra ser proveniente dos documentários faz com que ele dedique parte considerável da metragem de sua estréia ficcional à abordagem descritiva do cotidiano de Muthu (Prabhakaran Jayaraman) e seus parentes: como o enredo condiz com a época do Pongal - festival que ocorre no Sul da Índia, no início de cada ano, no qual, por quatro dias, as pessoas fazem oferendas aos deuses familiares - , esta cerimônia é mostrada duas vezes, em dois anos consecutivos. Numa delas, há fartura, decorrente do labor rural; na outra, a miséria induzida pela credulidade do protagonista em relação a uma empresa fraudulenta, que promete-lhe um trator enquanto prêmio, após o pagamento vultoso de algo similar a um consórcio. Entre uma e outra situação, a vida, que persiste. 



Se o cineasta é mui exitoso na reprodução dos rituais religiosos, nas idas de Muthu à feira, nas suas atividades enquanto agricultor e na maneira afetiva como ele se relaciona com a esposa, com o filho, com a mãe e com o sogro, há também espaço, no realismo da proposta cinematográfica, para uma cena de sonho (que metonimiza a extrema ansiedade do protagonista quanto ao recebimento de seu prêmio - afinal, enganoso), para uma contundente denúncia contra a invasão das tecnologias ocidentais e fraudes multinacionais (a mãe de Muthu reclama que, desde que seu filho comprou um telefone celular, coisas ruis começaram a acontecer) e para canções que sintetizam os eventos ocorridos, na plangente voz da mãe de Muthu, interpretada por Pillaiyarpatti Jayalakshmi. 


Aceitando o viés dramático, mas evitando o sensacionalismo caro a produções que abordam o malogro de indivíduos através do registro progressivamente sádico, este realizador demonstra um carinho legítimo por seu personagem principal, ficando ao seu lado até o derradeiro momento, quando a mudança de protagonismo para a esposa Selvi (Sweetha Pradhap) - que passa a conduzir o trator, a contragosto - desencadeia mais uma canção por parte da senhora idosa, entoada entre o lamento e a valorização dos esforços de sua nora. O modo persistente como o toque do aparelho telefônico de Muthu invade a banda sonora, nas diversas vezes em que os funcionários do banco cobram as prestações atrasadas, é magistralmente associado à corrosão emocional embutida naqueles acordes eletrônicos, que ressurgem nos créditos finais. Temos, aqui, uma grata surpresa indiana hodierna! 



Wesley Pereira de Castro. 

Mostra SP 2024: O CHEIRO DO LEITE QUEIMADO (2024, de Justine Bauer)


O fato de ser narrado por uma adolescente permite a este filme uma ambivalência que, ainda que não o redima por completo, problematiza aquilo que incomoda as parcelas do público que não se identificaram com os dilemas compartilhados: se, por um lado, acompanhamos os anseios púberes de garotas que, tal como ocorreu com suas mães e avós, precisam dedicar a maior parte de seus dias às tarefas rurais, por outro, verificamos também a exposição das conseqüências drásticas da especulação financeira nos destinos de pequenos agricultores e pecuaristas. Neste sentido, a seqüência que explica o título é particularmente atordoante, tanto pelo que acontece em seguida (o suicídio de um fazendeiro) quanto pelo próprio desperdício de leite, que não causa a comoção midiática pretendida.


A ausência dos familiares masculinos da protagonista talvez seja explicada pela necessidade de eles trabalharem nas áreas fabris da Alemanha. Resta àquelas mulheres tarefas árduas e intermináveis, como juntar feno, castrar ruminantes e afogar ou espancar os gatinhos recém-nascidos. A constatação de uma reflexão social subjacente a todos estes procedimentos não abole a má impressão direcionada às jovens personagens, visto que a maneira pragmática com que elas tratam os animais provoca desconforto. Vide o instante em que é dito que "depois que o touro foi castrado, ele cresceu bastante e, assim, pôde trabalhar mais"...


As atrizes são simpáticas, mas as situações em que elas se envolvem são regidas por convenções dramáticas muito específicas daquela conjuntura regional: a dúvida de uma das adolescentes quanto à manutenção de uma gravidez, por exemplo, não chega a desencadear um conflito evidente (ao perceber que a sua filha está grávida, a proprietária da fazenda apenas pergunta: "quer dizer que eu serei avó?"), não obstante converter-se na cena que encerra o filme, abruptamente interrompida. O ritmo narrativo é conduzido de maneira monocórdica, mesmo diante de situações impactantes, como o supracitado suicídio ou o momento em que um homem banha-se completamente despido no córrego onde as garotas decidem nadar. Terminada a sessão, as questões sociológicas se sobressaem ao enfado provocado pelos diálogos truncados pela indecisão entre o realismo campestre e o arremedo juvenil de um existencialismo essencialmente feminino. As boas intenções, neste caso, são insuficientes para validar a nossa apreciação!


Wesley Pereira de Castro. 

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Mostra SP 2024: O VAQUEIRO (2024, de Emma Rozanski)


Num diálogo circunstancial, porém mui elucidativo acerca das intenções discursivas desta produção, Bernícia (Natalia Cortés Rocha) comenta com sua tia e sua irmã que decepcionou-se um pouco com o faroeste antigo que acabaram de ver. O motivo: segundo ela, havia muitas cenas de ação, e preferia que os personagens apenas cavalgassem e observassem a paisagem. Suas interlocutoras comentam que, sem os tiroteios, o filme ficaria monótono, ninguém gostaria de assisti-lo. Ao que a protagonista retruca: "quem gosta de meditar, gostaria, sim". Para ela, isto representa a descoberta de um reconhecimento identitário, que confunde-se com o próprio filme que estamos vendo, na placidez com que a trama se desenrola... 



As situações acontecem de maneira corriqueira: enquanto trabalha num restaurante que fica num parque florestal onde turistas costumam fazer trilhas, Bernícia percebe uma égua perdida na vizinhança. Ela não tem lembranças de já ter montado num cavalo antes, mas passa a ficar obcecada pelo animal, chegando mesmo a dormir no rancho em que o eqüino vive deixando as suas parentas preocupadas, já que ela não possui sequer um telefone celular para enviar mensagens. A partir daquele momento, esta personagem não apenas sentirá que "está aqui" no mundo, mas escolherá para si mesma uma personalidade, para a qual busca inspiração em filmes antigos - no caso, obras da década de 1930, dirigidas por Robert N. Bradbury [1886-1949], que estão sob domínio público. 


Conduzido com extrema simpatia pela diretora, este filme apresenta um carinhoso panorama sobre a vida no interior de uma cidade colombiana, em que as notícias violentas associadas ao país estão distantes. Bernícia ressignifica a sua própria solidão, ao encontrar a vestimenta de vaqueiro que começará a utilizar em tempo quase integral. Sua irmã Edita (Paola Abril) a apoia integralmente, mas a decisão dela por dedicar mais tempo para si mesma instaurará alguns conflitos, no sentido de que ela era enxergada apenas como um arrimo familiar, como a babá de seus sobrinhos. Neste sentido, o filme cativa-nos pelo modo como valoriza o sutil empoderamento de uma mulher sem muitas perspectivas, que se reconhece capaz de cuidar de um rancho e até mesmo de fazer amizades, como ocorre com o mochileiro Tobi (Lennart Hermanns), que passa uma noite consigo, bebendo uísque e aguardente. Um enredo deveras simpático sobre autodescoberta, portanto!



Wesley Pereira de Castro. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Mostra SP 2022: CARVÃO (2022, de Carolina Markowicz)


Para uma diretora estreante em longas-metragens, o domínio rítmico de Carolina Markowicz é impressionante. A duração é muito bem aproveitada na implementação dos silêncios e o elenco heterogêneo está bastante integrado às composições de cada um de seus personagens: Irene, a protagonista, é uma mulher de temperamento centrípeto, quiçá por causa da negligência sexual de seu marido, Jairo (Rômulo Braga), homossexual inassumido, que tem um caso com um vizinho, também casado. Eles vivem numa cidade erma do interior paulista, e recebem uma proposta perturbadora de Juracy (Aline Marta Maia), uma enfermeira local: sacrificar, de maneira violenta, o pai de Irene e, no lugar dele, conceder refúgio a um traficante argentino (César Bordón), que forja a própria morte. A presença deste "gringo", entretanto, acentuará as crises de comunicação sufocadas nesta comunidade de gente tão trabalhadora quanto melancólica... 


O desconforto provocado pelas situações supracitadas é contrabalançado pelo incrível bom humor do filho de Irene e Jairo, Jean (Jean de Almeida Costa, esplêndido), um garotinho que, a despeito das dificuldades de acesso da região em que vive, demonstra uma habilidade surpreendente para resolver problemas. Revela-se safo tanto na interrogação acerca da possiblidade de pedofilia em relação a alguém que acaba de conhecer quanto na desenvoltura para conseguir cocaína. Na lida diária com a sua mãe, ele parece estar em perene conflito, enquanto sequer percebe que seu pai está em casa, de tão ausente que ele demonstra-se, quando está longe do homem que ama. Tudo conduz a um desfecho violento, portanto. 


Mui hábil na condução de seu próprio roteiro, a diretora evita a obviedade climática: ficamos sem entender muitas das situações apresentadas (não sabemos quais crimes Miguel cometeu, por exemplo), mas dispomos de suficientes informações para compreender o impacto daquelas relações forçadas tão destoantes. Excitada, Irene começa a perfumar-se em excesso, no afã por atrair a atenção sexual de seu hóspede arredio, que beija Jairo numa demonstração implícita de poder. Permanece sempre misteriosa a origem de Juracy, do mesmo modo que são sub-articuladas as conversas entre Jean e seus colegas de escola. A Jairo, resta embebedar-se, a fim de poder enfrentar o seu cotidiano de repressão. No rádio (e, por extensão, na sardônica trilha musical), canções religiosas, cantadas pelo padre Marcelo Rossi. A igreja é bastante enfeitada, mas o pároco reclama das dificuldades financeiras por ele enfrentadas. Na parede do quarto de Jean, um lema providencial: "ora que melhora". Isso não evitará que Miguel seja sufocado diante de uma ilustração que evoca a derradeira ceia cristã. Por fim, um estampido abruto. Trata-se de um filme para adultos! 


Wesley Pereira de Castro. 

domingo, 31 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: MADALENA (2021, de Madiano Marcheti)


O surpreendente desfecho em aberto deste filme vem acompanhado de uma triste constatação noticiosa, que poderia estar no início ou atrelada à campanha publicitária do filme: "o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo". Isso explica muito acerca do que acontece no filme, mas não exatamente o que acontece no enredo: caberá ao espectador completar as lacunas tramáticas. Ao invés da teleologia narrativa, o diretor oferta-nos a realidade enquanto algo rizomático, o que ocorre também através da multiplicidade de gêneros cinematográficos com que o roteiro flerta.


Oficialmente, pode-se dizer que o filme possui três episódios específicos - ao mesmo tempo, isolados e interdependentes entre si, com sutis elipses temporais de um para o outro: começa-se com um drama, avança-se pelo suspense e termina nalgo semelhante à aventura de amadurecimento, havendo elementos críticos de ficção científica em cada um deles, visto que o ambiente rural em que as situações ocorrem é permeado por muitas anedotas envolvendo OVNIs. Além disso, os instrumentos e veículos que são notados na fazenda denota o uso de altíssima tecnologia agrícola: os coletores são imensos artefatos robóticos, há drones vasculhando toda a plantação e até mesmo os narguilês que Cristiano (Rafael de Bona) fuma são eletrônicos e luminosos. Nada é por acaso, afinal!


As excelentes interpretações impressionam pelo modo como delimitam as relações interpessoais em cada uma das tramas: no primeiro caso, Luziane (Natália Mazarim) é responsável pela manutenção dos cuidados familiares e pelas reflexões proletárias; no segundo, o supracitado Cristiano surge como metonímia juvenil da corrupção característica de quem é classistamente bem-sucedido; e, por fim, Bianca (Pâmela Yulle) instaura um pouco de leveza e esperança ao núcleo social diretamente afetado pela lamentável estatística que é reproduzida no letreiro final. Junto às suas amigas, ela sorri. Briga, às vezes, mas logo faz as pazes, numa desenvoltura emocional distinta dos episódios anteriores. Ainda que onipresente, Madalena não aparece: sabemos que ela está morta. Não sabemos em quais condições isso ocorreu - mas, sem dúvida, foi através da mais imperdoável e naturalizada das violências! 



Wesley Pereira de Castro. 


quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: ASSIM COMO NO CÉU (2021, de Tea Lindeburg)


Apesar de ser um filme que faz uso muito expressivo das cores, trata-se de uma obra que transmite com precisão a hipertrofia acinzentada do luteranismo enquanto propósito implantado de vida em sociedade: todo lastro de rudeza, frieza e secura que associamos à "ética protestante" encontra aqui a sua contrapartida feminina, num registro muito doloroso do que já é confirmado desde o título. Na abertura, a protagonista Lise (Flora Ofelia Hofmann Lindahl, extraordinária) depara-se com nuvens avermelhadas que formam-se no céu para onde convergem as flores de dente-de-leão que ela desmancha com seu sopro. Chove sangue, abruptamente: é um prenúncio do que virá a seguir!


Num contexto em que as advertências oníricas são muito mais respeitadas que a Ciência, Lise é hostilizada por querer estudar, ainda que este anseio tenha provindo de sua mãe (Ida Cæcilie Rasmussen), que está grávida mais uma vez. Elas vivem numa comunidade rural, e os trabalhos destinados às mulheres parecem inextinguíveis. Como é a mais velha das crianças - já uma adolescente, em verdade - cabe a ela a responsabilidade de cuidar dos irmãos menores. Porém, ela começa a experimentar desejos íntimos: sente-se atraída por um rapaz criado por sua família e percebe gradualmente que as negociações com Deus, realizadas através das orações passadas de geração em geração para a sua família, são vãs: "Pai nosso que estás no Céu, (...) seja feita a Tua vontade"...


Por motivos óbvios, pensamos na filmografia de Carl Theodor Dreyer [1889-1968] durante a sessão, sobretudo em sua obra-prima "A Palavra" (1955), mas num viés que ressignifica os temores e tremores kierkegaardianos: o ritmo aqui é bem mais frenético, os gritos de dor são bem mais agudos, e os milagres são tolhidos pela realidade implacável das tarefas campesinas. A despeito disso, Lise e sua infinidade de irmãos e primos brincam avidamente, em seqüências abrilhantadas pelo uso magistral da câmera na mão. Conscientes dos males iminentes, as crianças tentam inverter a malevolência do que as circunda, imaginando até mesmo "as coisas boas que se seguem após a morte da mãe". Entretanto, é a impavidez das senhoras mal-humoradas que instala-se como regra: ao perceber que sua avó não está chorando, Lise pergunta o porquê. Ela responde sem titubear: "depois que se enterra mãe, pai, marido e dez filhos, não há mais lágrimas a verter". O que surge como consolo num contexto religioso como este?



Wesley Pereira de Castro. 



segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: LUA AZUL (2021, de Alina Grigore)


Antes de ser diretora, Alina Grigore era atriz - e fica evidente que este é seu trabalho de estréia: apesar das boas intenções de seu roteiro, que demonstra o quão exploradas e maltratadas são as mulheres no interior romeno, a execução é um tanto desengonçada e repetitiva. A diretora confia bastante em seu elenco, mas as situações são forçadas e os diálogos improvisados de maneira pouco espontânea. A câmera na mão nem sempre consegue captar os arroubos previsíveis de raiva e as conversas entre os parentes soam pouco verossímeis no modo como reiteram eventos ocorridos há muitos anos - vide a frustração de Irina (Ioana Chitu) ao ter sido esmurrada por seu primo Liviu (Mircea Postelnicu) quando afogava-se num lago, na pré-adolescência, ou o conselho assustado do senhor que insiste para que uma jovem que admirava a lua saísse da sacada, pois ela caíra dali aos três anos de idade...


Se, por um lado, o filme é sobremaneira esforçado ao apresentar alguns comportamentos machistas que, como exclama um determinado personagem, parecem provenientes da Idade Média, por outro, as relações entre todas aquelas pessoas soam muito artificiais. Vide a insistência da mãe de Irina em declarar que um diploma de graduação não serve para nada, as confusões e tramóias em que Liviu se mete por não saber ler, a mal-explicada relação amorosa que Viki (Ioana Ilinca Neacsu) tenta esconder de seus parentes, e as brigas persistentes que ocorrem diante dos turistas que fazem as suas refeições na hospedaria gerida pela família disfuncional de Irina. Para piorar, os quiproquós envolvendo o professor casado por quem ela aparece se apaixonar - ou em quem projeta a sua possibilidade de ir para a Universidade, em Bucareste - são tolos. Os diálogos do filme são imprecisos, vagos!


Talvez o grande problema desta produção esteja na maneira apressada com que a diretora tenta enfatizar a opressão subempregatícia de Irina, já que ela obviamente não é remunerada: o filme inicia-se com uma seqüência abrupta e mui barulhenta, na qual a protagonista é despertada subitamente, a fim de substituir algum de seus familiares, que não cumpriu uma das atividades diárias de hotelaria. Esse ritmo frenético pretende ser mantido ao longo de todo o filme, mas os atores titubeiam, parecem confusos aos externarem as suas falas. Quando podemos ouvir adequadamente os dois lados de uma contenda (o instante em que Irina e seu tio conversam sobre a necessidade de aquecer um galinheiro para proteger os pintinhos recém-nascidos, por exemplo), o enredo ganha em interesse e empatia, mas quando mostra Irina reagindo com absurda naturalidade aos constantes espancamentos públicos de Liviu, ele demonstra-se pouco contundente. Que o diga a obviedade da seqüência em que ele quebra o telefone celular dela: faltou organicidade num relato que se pretende tão denuncista quanto naturalista!


Wesley Pereira de Castro. 

sábado, 16 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: UM FORTE CLARÃO (2021, de Ainhoa Rodríguez)


Filme-painel calcado pelo realismo mágico, esta obra deixa as suas intenções explícitas logo na abertura: uma vendedora de churros com deficiência intelectual grava uma mensagem telefônica para si mesma, em que, com extrema sobriedade, adverte-a que "um forte clarão ocorrerá e mudará tudo". Os espectadores ficam na expectativa, mas o ritmo do filme é muito lento: somos apresentados aos moradores de um pequeno vilarejo no interior da Espanha, onde as mulheres esforçam-se para libertar-se de suas rotinas aprisionantes. Recorrem à magia de que se serviam na infância e, como tal, são incompreendidas por seus parceiros e convivas. Antes as orgias aos suicídios!


Se a vendedora de churros é comumente assediada pelos homens bêbados da região, a despeito de seus problemas de comunicação, outra personagem foge de casa, a fim de libertar-se de seu esposo monotonamente opressor: numa cena mui inusitada, ela pede que ele lamba os fachos luminosos emitidos por um candelabro no quarto. "Tem sabor de quê?", pergunta ela. "De laranja", responde ele, enquanto adormece. Restará ao mesmo o desespero de ser entrevistado num programa sensacionalista de TV, onde suplica que sua amada retorne. O braço quebrado por causa da mesa que quebrou ao encontrar a sua carta de despedida demonstra que ela tinha razão em partir... 


Se os eventos desenvolvem-se de maneira mui plácida - e balizada pelas procissões e artefatos religiosos - a trilha musical utiliza efeitos eletrônicos e ruídos estranhos para acentuar que algo inusitado pode ocorrer a qualquer momento. E ocorre, de fato, mesmo que nem sempre vejamos. No instante mais explícito de imersão lisérgico-enfeitiçador, um grupo de senhoras refinadas experimentam um doce exótico de leite de cabra com mel e entregam-se a um sabá lésbico mui prazenteiro. O clarão transformador é a própria luz da tela, onde o filme está sendo projetado!


Wesley Pereira de Castro. 

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Festival de Gramado 2021: A PRIMEIRA MORTE DE JOANA (2021, de Cristiane Oliveira)


Em dado momento, a protagonista Joana (Letícia Kacperski) reclama que está sentindo dores recorrentes no joelho, demonstrando que adquiriu uma espécie de hipocondria somatizada, ao identificar-se com os mistérios de uma tia recém-falecida. Adolescente introspectiva de uma cidade pequena do interior gaúcho, ela insiste em perquirir os motivos de sua parenta ter morrido vitalina, visto que ninguém a viu com nenhum namorado. Sua avó é taxativa quanto ao diagnóstico: "o que tu estás sentindo são dores de crescimento". É a metáfora fisiológico-existencial que conduz o enredo até o seu desfecho anticlimático... 


Não obstante ser tecnicamente aplaudível, este filme deixa-nos com a impressão de enfado: afinal, a trama desenrola-se morosamente e é tudo muito óbvio, sobremaneira evidente. Trata-se de uma descoberta periclitante do amor lésbico, na perspectiva tímida da adolescência rural. Fica-se torcendo para que Joana declare seu amor pela amiga Carolina (Isabela Bressane), mas tudo ocorre num ritmo anacrônico, lentíssimo. Exemplo: a mãe de uma das personagens, ao chegar da Alemanha, menciona que ainda utiliza constantemente o Orkut. Seu modo de encarar a maturação da filha é igualmente deslocado no tempo: ela despe-se com naturalidade à beira de um córrego, mas desaprova a homossexualidade da garota. 


O grande problema do filme, portanto, está na imiscuição desse tipo de julgamento moral: o roteiro escandaliza-se com o que - hoje, sobretudo - é bastante comum. A ponto de recorrer a uma trilha musical de umbanda na cena em que Joana masturba-se pensando na melhor amiga. O que é absolutamente natural é apresentado como indecoroso. Noutras palavras: o filme soa desenxabido, ainda que bem-feitinho, narrado com uma cautela excessiva, sendo mui gracioso em seus intentos românticos... Fosse lançado na década de 1980, talvez se tornasse um filme de culto entre as moçoilas incompreendidas, mas, na conjuntura cultural hodierna, informativamente pornográfica, periga ser rapidamente esquecido. Que nem uma comida nutritiva, porém insossa. 


Wesley Pereira de Castro.