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domingo, 20 de outubro de 2024

RECEBA! (2021, de Pedro Perazzo & Rodrigo Luna)


É oportuno que um dos títulos satíricos lidos nos cartazes pornográficos que emolduram as paredes do local em que Amadeu (Daniel Farias) vai procurar trabalho seja "Onde as Pregas Não Têm Vez", no sentido de que, tal qual acontece nos filmes dos irmãos Ethan & Joel Coen, um cabedal de erros atrapalha os planos dos personagens. Aliás, não se sabe qual a razão da dívida que atormenta este aparente protagonista - nem o porquê das feridas em seu corpo -, mas ele resolve piorar ainda mais a sua situação, quando encontra uma bolsa, contendo alguns quilos de cocaína, junto a seus contratadores, que estão mortos. E o que ele faz? Pega a sacola e tenta vender o seu conteúdo. Como um típico personagem coeniano assim o faria... 



Não demora a percebermos que o plano de Amadeu dará errado e, quando isso de fato ocorre, há uma surpreendente mudança de perspectiva: após um 'fade-out', volta-se no tempo e acompanhamos a busca por esta bolsa através do prisma de outros personagens. Da mesma maneira que caracteriza os trabalhos iniciais de cineastas como Quentin Tarantino ou Guy Ritchie, a narrativa é contada de maneira alinear, complementando-se à medida que outros personagens assumem a posição provisória de protagonistas, até que surja a reviravolta definitiva: será que algum deles consegue ficar com o dinheiro?



Baseado no romance "A Guerra dos Bastardos", publicado em 2007, pela carioca Ana Paula Maia, o roteiro deste filme, escrito pelo co-diretor Pedro Perazzo, translada o enredo para a Bahia e é hábil em seu poder de síntese, evitando contextualizar em excesso o delineamento dos personagens, a fim de que o espectador não se desvie da ação e perceba eventuais furos tramáticos. Ao invés disso, basta saber que Amadeu é romanticamente envolvido com Gina (Edvana Carvalho), que também trabalhara com pornografia, no passado. Graças a ela, ele conheceu o vilanaz Pastor (Narcival Rubens), que, não por acaso, é o dono da cocaína roubada. No afã por recuperá-la, ele designa dois de seus mais violentos capangas para encontrarem Amadeu: Lica (Evelin Buchegguer) e Edgar (Jackson Costa), que é apaixonado por Gina. Quando Edgar visualiza Gina na residência de Pastor, este insinua que "uma vez puta, sempre puta", o que desperta a sua ira. Obediente ao patrão, ele reencontra a amada - que o detesta -, num quarto alugado pelo pintor Horácio (Leandro Villa), que e envolvido de supetão nesta tramóia entrecruzada. Mas o sumiço de Amadeu - e da bolsa que ele carregava, após a cocaína ser vendida por Guilherme (Vinicius Bustani) - reconfigura todas as relações... 


Repleto de convenções do gênero policial - que são de caráter hollywoodiano, mas adequadamente redirecionadas para a conjuntura baiana, conforme percebemos na gíria local que intitula a obra -, "Receba!" mantém o espectador continuamente envolvido, querendo saber qual equívoco será instaurado em seguida, já que os planos dos envolvidos, nesta saga de ambição, dão errado. Os apreciadores das filmografias dos cineastas anteriormente citados quedarão fascinados pela brasilidade inequívoca deste enredo, que é lançado alguns anos após a sua pós-produção, mas numa coincidência em relação ao momento em que as conseqüências públicas do crime organizado em Salvador passaram a ser nacionalmente conhecidas, graças aos telejornais. É uma triste coincidência, mas que valida a verossimilhança das ocorrências criminais, ainda que se possa reclamar eventualmente dos cacoetes de alguns dos bandidos (na cena em que Pastor recontrata Gina, por exemplo). 


A despeito de quaisquer problemas (a ausência de sangue na cena em que um personagem baleado encosta na parede; a celeridade com que Horácio arruma o seu quarto e resolve novamente alugá-lo, depois do atropelamento de Amadeu; a conveniência do desfecho), "Receba!" demonstra-se um agradável exemplar brasileiro do gênero fílmico que homenageia. A trilha musical de Andrea Martins e Ronei Jorge (com canções originais compostas por Raffa Muñoz) é ótima e a utilização de "Virá", na voz da compositora Josyara (em colaboração com Giovani Cidreira), durante os créditos finais, é algo particularmente acertado, de modo que o verso mais repetido ("eu sou você cuspindo fogo/ Latino-América"!) tem tudo a ver com a definição direcionada pelos realizadores ao próprio filme: "um 'noir' de dia, meio esculhambado". E, por tudo isso, muito bom! 


Wesley Pereira de Castro. 

domingo, 30 de outubro de 2022

Mostra SP 2022: INVENTÁRIO (2021, de Darko Sinko)


Nos instantes iniciais deste enredo compassado, somos apresentados a um cidadão trivial, que parece satisfeito com a modorra de sua própria vida: Boris Robič (Radoš Bolčina) é assistente de projeção numa Faculdade de Economia e janta com a sua esposa, Alenka (Mirel Knez), enquanto conversam sobre o abastecimento de carnes na despensa. Depois que senta-se, sozinho, em seu escritório para ler um pouco, Boris é surpreendido pelo barulho de vidro quebrando. Alguém atira em sua janela. Quem teria sido? 


Esse ponto de partida pode ser tanto chistoso quanto melancólico, a depender da perspectiva projetada pelo espectador, no que tange à identificação com o protagonista, mas, em ambos os casos, percebe-se que as feridas da guerra pós-esfacelamento da Iugoslávia seguem afetando as pessoas comuns. Após ser incitado a imaginar quem poderia ter alguma inimizade quanto a seu esposo, Alenka aventa que alguns ex-soldados vivem entre eles. O que Boris não consegue entender é por que alguém o odiaria a ponto de tentar matá-lo, de modo que ele consulta um amigo de juventude, que fôra (e ainda é) apaixonado por Alenka, e visita a sua mãe senil, num asilo, que pronuncia frases despropositadas sobre o fato de a sua nora não gostar verdadeiramente de seu filho. Até que entram em cena um homônimo de Boris, que aparentemente está tendo um caso, e a lembrança de uma apólice de seguros, que pagaria uma fortuna para a esposa e o filho de Boris, caso ele morresse subitamente... 


As reações do protagonista à constatação de que sua vida é considerada vã por outrem confirmam-se quando, ao tentar conseguir alguns dias de folga, ele ouve da sua chefa que "ninguém é insubstituível". Como tal, passa a desconfiar da própria esposa, o que rende algumas situações de comicidade taciturna, como quando ele inverte a ordem dos pratos colocados na mesa, temendo estar sendo envenenado. A condução plácida do filme evita os sobressaltos, ainda que haja uma reviravolta considerável no desfecho, que transfere para o espectador, mais uma vez, a interpretação definitiva acerca da possível nocividade com que Boris trata (e, por extensão, é tratado por) as pessoas ao seu redor. Como incremento argumentativo, temos a excelente seqüência da aula sobre "ética econômica", à qual Boris assiste enquanto exerce as suas funções empregatícias: é essencial compreender se há ganhos mútuos em nossas relações cotidianas, portanto! 



Wesley Pereira de Castro. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Mostra SP 2022: CARVÃO (2022, de Carolina Markowicz)


Para uma diretora estreante em longas-metragens, o domínio rítmico de Carolina Markowicz é impressionante. A duração é muito bem aproveitada na implementação dos silêncios e o elenco heterogêneo está bastante integrado às composições de cada um de seus personagens: Irene, a protagonista, é uma mulher de temperamento centrípeto, quiçá por causa da negligência sexual de seu marido, Jairo (Rômulo Braga), homossexual inassumido, que tem um caso com um vizinho, também casado. Eles vivem numa cidade erma do interior paulista, e recebem uma proposta perturbadora de Juracy (Aline Marta Maia), uma enfermeira local: sacrificar, de maneira violenta, o pai de Irene e, no lugar dele, conceder refúgio a um traficante argentino (César Bordón), que forja a própria morte. A presença deste "gringo", entretanto, acentuará as crises de comunicação sufocadas nesta comunidade de gente tão trabalhadora quanto melancólica... 


O desconforto provocado pelas situações supracitadas é contrabalançado pelo incrível bom humor do filho de Irene e Jairo, Jean (Jean de Almeida Costa, esplêndido), um garotinho que, a despeito das dificuldades de acesso da região em que vive, demonstra uma habilidade surpreendente para resolver problemas. Revela-se safo tanto na interrogação acerca da possiblidade de pedofilia em relação a alguém que acaba de conhecer quanto na desenvoltura para conseguir cocaína. Na lida diária com a sua mãe, ele parece estar em perene conflito, enquanto sequer percebe que seu pai está em casa, de tão ausente que ele demonstra-se, quando está longe do homem que ama. Tudo conduz a um desfecho violento, portanto. 


Mui hábil na condução de seu próprio roteiro, a diretora evita a obviedade climática: ficamos sem entender muitas das situações apresentadas (não sabemos quais crimes Miguel cometeu, por exemplo), mas dispomos de suficientes informações para compreender o impacto daquelas relações forçadas tão destoantes. Excitada, Irene começa a perfumar-se em excesso, no afã por atrair a atenção sexual de seu hóspede arredio, que beija Jairo numa demonstração implícita de poder. Permanece sempre misteriosa a origem de Juracy, do mesmo modo que são sub-articuladas as conversas entre Jean e seus colegas de escola. A Jairo, resta embebedar-se, a fim de poder enfrentar o seu cotidiano de repressão. No rádio (e, por extensão, na sardônica trilha musical), canções religiosas, cantadas pelo padre Marcelo Rossi. A igreja é bastante enfeitada, mas o pároco reclama das dificuldades financeiras por ele enfrentadas. Na parede do quarto de Jean, um lema providencial: "ora que melhora". Isso não evitará que Miguel seja sufocado diante de uma ilustração que evoca a derradeira ceia cristã. Por fim, um estampido abruto. Trata-se de um filme para adultos! 


Wesley Pereira de Castro. 

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

FORTALEZA HOTEL (2021, de Armando Praça)


No segundo longa-metragem de Armando Praça, notamos um percurso semelhante à estrutura geral do que ocorre em "Greta" (2019): após um encontro fortuito possibilitado pelo ambiente de trabalho, os personagens envolver-se-ão em progressivas contravenções, quanto mais íntimos tornam-se entre si. Naquele filme, lidávamos com a solidão pederástica e uma perseguição policial; neste, com o desamparo de mulheres enfrentando perdas recentes: proveniente da Coréia do Sul, Shin (Lee Young-Lan) é hostilizada pelo gerente do hotel titular por estar com o pagamento de sua hospedagem atrasado. Seu marido acabara de suicidar-se e deixou-lhe situações bastante complicadas para serem resolvidas. É quando ela pede auxílio à camareira Pilar (Clébia Souza), em razão de ela saber falar Inglês...


Ocorre que Pilar anseia por sair do Brasil. Possui uma relação turbulenta com sua filha Jamille (Larissa Góes), envolvida com criminosos, e está prestes a viajar para a Irlanda. Até que uma tragédia anunciada acontece: Jamille é seqüestrada por bandidos locais depois que seu namorado é assassinado, e cabe a Pilar buscar o dinheiro necessário ao pagamento do resgate. Em meio a essas duas situações, as duas mulheres aproximam-se afetivamente, utilizando um idioma estrangeiro para identificar as intersecções que permeiam as suas dores. 


Em dado momento, quando perguntada se deseja voltar ao seu país-natal, Shin responde que a Coréia do Sul não faz mais sentido para ela. Pilar responde que o Brasil também não faz mais sentido, "exceto pelas praias e pela música". Num instante de bebedeira, elas dançam ao som de um forró romântico - mais precisamente, uma canção da banda Mastruz com Leite - enquanto tentam afogar as suas dores com vinho barato. Como se fosse um herdeiro contemporâneo do dramaturgo Plínio Marcos [1935-1999], o diretor e roteirista afeiçoa-se a personagens marginalizados, e evita julgá-los mesmo quando eles cometem atos graves de traição. As situações anteriormente descritas ocorrem na semana que separa as comemorações natalinas e o Réveillon: os fogos de artifício não conseguem abafar os choros das duas mulheres, ainda que estes sejam silenciosos. Durante uma brincadeira de amigo secreto, uma amiga de Pilar diz que "ela é uma das melhores pessoas que eu conheci". O que caracteriza um bom relacionamento? Dívidas e tristezas comuns?



Wesley Pereira de Castro.