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quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: SANGUESSUGAS - UMA COMÉDIA MARXISTA SOBRE VAMPIROS (2021, de Julian Radlmaier)

No segundo dos três capítulos deste filme, acontece algo muito importante, em termos narrativos: depois de ser acusado de não possuir cultura literária e, portanto, ser incapaz de julgar adequadamente os sentimentos humanos, o assistente vegetariano Jakob (Alexander Herbst) pega emprestado o romance proustiano que sua patroa - por quem é apaixonado - lia e resolve, a partir daí, contar ele próprio a sua história (e a dos outros), imitando o fluxo de consciência do personagem central do hepteto "Em Busca do Tempo Perdido". Deste momento em diante, fica evidente que ele é uma espécie de alter-ego satírico do próprio realizador, ostensivamente erudito. Convertido em "mão invisível", numa situação posterior, alguém pergunta a Jakob como é estar morto. Sua resposta: "bem melhor, pois observo as pessoas com maior atenção, por não estar mais apegado à vida". É uma piada, claro - e também uma autocrítica!


Em verdade, o filme é repleto de chistes desse tipo, incluindo aquele que aparece antes mesmo dos créditos iniciais, quando um grupo de estudos marxiano acha equivocada a associação pretendida pelo autor entre os capitalistas e os vampiros. Há um interesse escuso nesta provocação, de modo que o roteiro não esconde a sua predileção pelas contradições de classe - marca registrada da ainda breve porém chamativa filmografia do diretor. Desde o início, sabemos que a bela e generosa Octavia (Lilith Stangenberg) é, de fato, tanto uma capitalista quanto uma vampira, não sendo casual que, em dado momento, ela demonstre-se frustrada em relação ao amor, pois crê que este sentimento baseia-se na presunção de interesses, o que, paradoxalmente, é o que salva-lhe a vida, quando os moradores da região passam a suspeitar que ela seja uma hematófaga legítima. Há evidências disso, mas uma filmagem ficcional ofertada como documental faz com que um inocente seja punido em seu lugar. As autocríticas do cineasta não param!


No primeiro dos capítulos, somos apresentados ao "cavalheiro sem classe" Ljowushka (Aleksandre Koberidze), que, por estar vestindo o figurino de uma produção eisensteiniana de que participou, é confundido com um barão. Mesmo revelando a Octavia as condições de sua fuga da Rússia - e admitindo que é um proletário -, ele é acolhido por ela, o que faz com que os anseios platônicos de Jakob sejam abandonados. Ex-camponês que converteu-se em refugiado político, este personagem trai os seus próprios ideais de juventude, ao conviver prolongadamente com os pequenos-burgueses que tanto odeia. O desfecho confere melancolia à comédia até então representada, fazendo com que reflitamos sobre as incongruências da contemporaneidade. Mui provocativamente, o diretor serve-se de inúmeros recursos propositalmente anacrônicos (a abertura de uma lata de Coca-Cola, numa mesa de jantar aristocrática em 1928, por exemplo) e de cacoetes estilísticos que já foram demonstrados no curta-metragem "Um Conto de Inverno Proletariado" (2014). Os títulos de seus filmes evidenciam as suas intenções paródicas, demonstrando que ele pesquisou a fundo os livros que cita. Um gênio em formação, talvez?



Wesley Pereira de Castro. 

 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

MOSTRA SP 2021: I COMETE - UM VERÃO NA CÓRSEGA (2021, de Pascal Tagnati)


Estruturalmente, esta obra possui vários pontos em comum com alguns filmes de Robert Guédiguian: muitos personagens numa mesma região, a ausência de um protagonista definido, situações sobremaneira dramáticas mas conduzidas de forma desdramatizada, trilha musical apenas diegética, sem algo que direcione a condução espectatorial... Vemos um grupo de pessoas interagindo num local famoso por suas belezas naturais e pelas riquezas acumuladas de alguns moradores. Demoramos a entender - quando conseguimos - as relações de parentesco e/ou afinidade existentes entre eles. Estranhamos os diálogos constantemente chulos, que acentuam o naturalismo da realização. Mas, mesmo assim, nem de longe funciona tão bem quanto em relação ao diretor cotejado: ao também ator Pascal Tagnati, falta pujança política, a escolha de um discurso direcionado a outrem. Ele apenas dispara ações inconseqüentes - muitas delas praticadas por crianças ou adolescentes. E daí?


O personagem com maior tempo em cena chama-se François-Régis (Jean-Christophe Folly) e, apesar de ser o único negro do local, não é hostilizado por conta disso. Pelo contrário, ouve calado as muitas manifestações racistas, homofóbicas, xenofóbicas e misóginas de seus amigos. Concorda com muitas delas, em verdade, principalmente quando, ao assumir-se burguês, alega que "seus peidos são mais cheirosos que os dos outros". Os dilemas recorrentes de seus convivas são banais. Exemplo: um deles morre de medo de ter um ataque cardíaco enquanto defeca; outro frustra-se ao constatar que os times de futebol europeu diferenciam-se pouco entre si atualmente; um terceiro passa quase todo o tempo chorando, provavelmente porque uma mulher o abandonou. E assim as subtramas paralelas avançam, por mais de duas horas!


Obviamente, o filme possui virtudes dignas de nota: a longa seqüência explícita em que Cindy (Maryse Miège) masturba-se num lago, diante do computador em que conversa com seu namorado à distância, é primorosa. Idem quanto aos dissabores românticos do jovem roqueiro Lisandru (Joseph Castelliti). Entretanto, é muito difícil acompanhar um enredo tão intencionalmente incoeso, sem que consigamos afeiçoar-nos aos personagens ou entender as suas motivações iracundas (vide o incêndio que mata um grupo de ovelhas). Talvez numa revisão, o filme seja mais interessante. Mas cadê motivação para conferi-lo novamente, depois do enfado inicial?! 


Wesley Pereira de Castro. 

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

* Mostra SP 2020: NOVA ORDEM (2020, de Michel Franco)


 Durante e após a sessão, são abundantes os conceitos foucaultianos que aplicam-se à análise deste filme. Expressões como "microfísica do poder" e "sociedade da vigilância" são apenas algumas que precisam ser obrigatoriamente mencionadas, dada a rigorosa aplicação nesta obra poderosamente distópica, que é lançada num momento em que a extrema-direita política foi eleita em inúmeros países. Por vias democráticas, a perda constitucional de direitos foi aplicada: chegamos a um momento histórico em que os absurdos da realidade superam a mais apavorante ficção... É o caso deste filme!


Antes do 'tour de force' directivo aplicado na longa seqüência do casamento, há um despejo de imagens estranhamente coloridas, em que pessoas nuas são cobertas de tinta verde e sinais de violência física - em larga escala - são detectados. A evacuação súbita de um hospital induz-nos a desesperadas interpretações, até que somos apresentados aos personagens centrais, pertencentes a uma riquíssima família da alta sociedade mexicana. A filha mais nova, Marianne (Naian Gonzalez Norvind), é a noiva. Ela será seqüestrada, o que desencadeará eventos acachapantes... 


Um dos grandes méritos do filme é a sua ambivalência moral: não obstante os aquisitivamente favorecidos serem comumente noticiados como os vilões da corrupção nacional, não importa qual seja o País, a protagonista é extremamente carismática e benevolente, o que aumenta o impacto das agressões que ela sofre. Porém, toda a frenética movimentação exordial é atravessada por questionamentos de lógica narrativa. Afinal, quem ousaria pedir tanto dinheiro a um patrão na cerimônia de casamento de um de seus filhos? Quem teria a audácia de se casar luxuosamente em plena erupção de um levante urbano? Como os manifestantes puderam escalar tão facilmente os muros (incrivelmente baixos) daquela mansão? As respostas a estes questionamentos não resvalam em defeitos de verossimilhança, mas em adesão prévias às convenções alegóricas. Conforme dito anteriormente, malgrado o realismo supremo do filme, trata-se de uma abordagem distópica, potencialmente aplicável a um futuro bem próximo... 



Fazendo excelente uso dos sons em 'off', a magistral direção de Michel Franco mantém-nos em pleno escândalo: independente de quem esteja sendo espancado, as táticas de tortura e chantagem são insuportáveis, sem contar os reiterados estupros sexuais, a fim de desestabilizar por completo os reféns, de ambos os sexos. Nalguns momentos, vê-se que os empregados das pessoas ricas colaboram com o seqüestro e com os assassinatos em massa, o que retroalimenta a contínua desconfiança entre classes. O roteiro leva a crise do Capitalismo ao seu píncaro, visto que não há união de uma classe contra outra, mas pobres X pobres, pobres X ricos, ricos X ricos, todo mundo X todo mundo. Numa conjuntura de corrupção escalonada, não há qualquer tipo possível de união, exceto quando provisória e oportunista, permeada por inúmeras mentiras. Em seu corolário extremado das noções de vigilância e punição estudadas por Michel Foucault [1926-1984], o filme serve como uma advertência equânime a todos os espectadores, para além de suas condições classistas: é isso o que o fascismo e a monetifagia fazem com as pessoas!



Se, sociologicamente, o filme é intencional e inevitavelmente lacunar, em termos narrativos ele é primoroso: cumpre as suas funções advertentes da maneira exacerbada pelo qual o diretor é conhecido, sendo ele um polemista acostumado às diatribes e polemismos, nem sempre no melhor sentido destas palavras. Aqui, ele conta com um elenco extremamente afiado e com uma equipe que obtém êxito na implantação de efeitos documentais e parajornalísticos à apresentação dos fatos: é difícil quedar emocionalmente incólume ao final da sessão. Seria essa mais uma confirmação da índole questionável de seu diretor, conforme reclamam os seus detratores? Toda e qualquer interpretação é válida diante do medo. Eis o real perigo. Atentemo-nos à realidade! 



Wesley Pereira e Castro.