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terça-feira, 26 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: NA PRISÃO EVIN (2021, de Mehdi Torab-Beigi & Mohammad Torab-Beigi)


Partindo do pressuposto teórico de que a identificação primária do espectador é em relação à câmera, os realizadores deste filme utilizam um procedimento até hoje poucas vezes adotado no cinema, que é a narrativa integralmente conduzida pelo olhar subjetivo de um personagem, que é visto apenas através de relances. Levado a cabo anteriormente por cineastas tão distintos como Robert Montgomery e Walter Hugo Khouri - e, em partes, Paul Verhoeven -, este procedimento requer muita observação acerca de como os objetos e os coadjuvantes são dispostos ao redor da pessoa protagonista, que, neste caso, é refletida em mais de um espelho quebrado. Trata-se de uma metáfora óbvia para a condição da atormentada Amen (Mehri Kazemi), cuja voz ouvimos do início ao fim e que anseia por uma cirurgia de redesignação sexual... 



A audição ostensiva da voz dessa personagem é essencial para o desenvolvimento tramático, pois ela foi escolhida para uma determinada função justamente por suas características vocais: um magnata que comporta-se como gângster (Mahdi Pakdel) deseja que Amen finja ser a sua filha por algum tempo, mas não revela com sinceridade as condições embutidas nesse processo. Pouco a pouco, Amen perceber-se-á diante de um dilema sobremaneira delicado: permanecer sentindo-se presa num corpo de homem ou poder ser efetivamente uma mulher, porém reclusa numa penitenciária? O filme reforça este dilema através de metáforas visuais um pouco óbvias, como os já mencionados espelhos partidos e o documentário sobre lagartas recolhendo-se em casulos a que ela assiste na TV. O agravante: é perceptível que (quase) todos ao seu redor estão mentindo, inclusive a amiga que apresentou-lhe ao falso benfeitor!


Se, por um lado, parece inusitado que uma produção iraniana traga como temática central o transexualismo, por outro, o roteiro aborda o tema sem preconceito ou exotismo, inclusive enfatizando que há leis federais que autorizam a cirurgia hospitalar de mudança de sexo, sem que hajam reprimendas religiosas neste sentido. Para os espectadores ocidentais, isso é algo deveras inusitado, mas a trama põe este aspecto em segundo plano: o que está em evidência é a situação policialesca em que Amen se envolve, que desencadeia uma série de questionamentos morais e individuais. Sua aparência é imageticamente constituída de maneira parcimoniosa, através de 'close-ups' em sua mãos esfoliadas ou nas unhas pintadas de seus pés. O desfecho deixa em aberto a consecução da negociação-chave que parte de Amen, visto que, como diz um dos visitantes do magnata, "ela possui a resistência dos homens e a paciência das mulheres". O que ela propõe (ou a que ela se submete) é o requisito definitivo para experimentar a condição feminina em seu país? Mais uma válida metáfora é erigida, portanto. 


Wesley Pereira de Castro. 

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: PEGANDO A ESTRADA (2021, de Panah Panahi)


 Na seqüência de abertura, um garotinho toca piano nas teclas desenhadas no gesso que recobre a perna de seu pai: enquanto ele dedilha a figura, ouvimos os acordes. Com isso, fica estabelecido, desde o começo, que o diretor segue um caminho completamente distinto de seu pai, Jafar Panahi, apesar de ter realizado a montagem de "3 Faces" (2018). Se o pai é um hábil desenvolvedor da 'mise-en-abyme' no contexto metalingüístico persa, o filho assume o percurso lúdico. Tanto que, num dos diálogos deste filme mais recente, a mãe (Pantea Panahiha) pergunta ao seu filho mais velho qual o filme favorito dele. A resposta: "2001: Uma Odisséia no Espaço" (1968, de Stanley Kubrick) - e ele faz questão de descrever a meia-hora final da obra. A mãe começa a rezar. Mais à frente, o pai e o irmão mais novo deste rapaz cinéfilo mergulharão numa espécie de viagem interestelar, em pleno deserto... 


Apesar de ser magistralmente fotografado e de as comparações familiares serem desnecessárias, há algo confuso no desenvolvimento do roteiro: não compreendemos devidamente as situações - o que é muito comum no cinema iraniano - e lidamos com um entrecho inequivocamente ficcional, quase uma comédia familiar, com muitos xingamentos e reconciliações. O irmão mais velho (Amin Simiar) está prestes a fugir do país e está chateado por causa disso. Sua mãe sente falta antes mesmo que ele se vá, enquanto o pai (Hasan Majuni) comporta-se de maneira rabugenta durante a viagem. O irmão mais novo (Rayan Sarlak) é hiperativo, e não sabe que seu cachorro está doente. Quando os sentimentos afloram, as canções típicas ajudam os personagens a se expressarem!


Ao contrário da maioria dos cineastas de seu país, esse diretor estreante não obtém tanta dramaticidade dos encontros casuais - vide o diálogo pouco inspirado com um ciclista trapaceiro que o veículo da família atropela - mas o roteiro mostra aspectos mui definidores da contemporaneidade: são muitas as referências estrangeiras comentadas pelos personagens. O ciclista é fã de Lance Armstrong, a despeito das acusações de 'doping' que pesaram sobre ele, enquanto o garotinho é obcecado pelo Batman. Se nem todas as seqüências são efetivas na transmissão da emotividade, os dois números musicais contíguos que encerram o filme (um, muito alegre; outro, sobremaneira triste) merecem aplausos de pé. O filho ousa seguir seu próprio caminho, malgrado o sobrenome tão famoso e atrelado a expectativas de genialidade. Desengonçadamente, ele consegue! 


Wesley Pereira de Castro. 

sábado, 24 de outubro de 2020

* Mostra SP: PARI (2020, de Siamak Etemadi)


 Não é nada casual que, num dos encontros fundamentais que trava na Grécia, alguém peça para a protagonista (muito bem defendida por Melika Foroutan) explicar o significado de seu nome. "Pari significa algo com asas...". "Um anjo?", interrogam-lhe. Somente muito tempo depois, ela encontrará a palavra correta: "uma fada"! E isso aplica-se ao filme como um todo, visto que a narrativa transita entre o pasticho militante e o percurso feérico, com forte elã feminista. 



A despeito de alguns elementos narrativos pouco verossímeis que permeiam a chegada dos pais do estudante Babak à Grécia, estes são reinterpretados sob a chave da incomunicabilidade cultural: por mais carinhoso que seja Ahmadi (Bijan Daneshmand) em relação à sua esposa, ele carrega até mesmo em sua efígie os traços nacionais de opressão. Vamos descobrindo que ele age de forma até abnegada em relação a ela - visto que o filho que ela tanto busca sequer é dele! - mas inevitavelmente a aprisiona, conforme fica evidente em toda a seqüência do aeroporto, em que o vislumbre de uma porta deslizante que se abre metonimiza, no olhar de Pari, o quanto ela deseja fugir... 



Na abertura, a protagonista recita os versos enômanos do poeta afegão Rumi [1207-1273], que encontra posteriormente espalhados - e traduzidos para o inglês - no quarto onde morou Babak. Com isso, o roteiro antecipa a correspondência de caracteres entre ela e o filho: ambos desejam vagar pelo mundo, ambos possuem fascínio pelo comportamento típico dos dervixes. Por ser homem e jovem, ele consegue. Ela deseja, busca, mas sucumbe às necessidades matrimoniais, muito exigentes em seus país natal. Na Grécia, após mais de um mês de confinamento forçado, ela emancipar-se-á: a derradeira seqüência do filme, em que a protagonista é mostrada, de costas, contemplando o mar, é absolutamente sublime!



Os indícios que reforçam o comportamento desejoso de Pari são abundantes na trama: além dos já mencionados, o instante em que seu chador incendeia-se, durante uma manifestação, é deveras sintomático. É ela que possui a alma ígnea, não sendo mais capaz de conter a verve incendiária de seus anseios. Dessa maneira, a busca insaciável pelo filho converte-se no ato de encontrar-se comigo mesma, enquanto processo de transferência simbólica: os 'flashbacks' que mostram-na amamentando o pequeno Babak emulam o mesmo tom libertário dos poemas de Rumi e da anarquista que beija Pari, repentinamente. A protagonista é muito maior que o filme, portanto: por ela, todos os equívocos do irregular itinerário roteirístico justificam-se! 



Wesley Pereira de Castro. 

sábado, 17 de outubro de 2020

EXODUS (2019, de Bahman Kiarostami)



Aproveitando-se o conceito sociológico de “não-lugar”, referente aos ambientes humanos de rápida circulação, notamos uma diferença radical no modo como sociedades internacionais abordam a questão dos refugiados. Se, no excelente longa-metragem de Karim Aïnouz, "Aeroporto Central" (2018), deparamo-nos com uma situação de acolhimento e nacionalização, o que é perscrutado por Bahman Kiarostami sufoca pelo excesso de ruídos comunicacionais, no trânsito entre habitantes de países vizinhos, que destacam-se pela homogeneidade idiomática, mas não político-econômica.


Por mais que, num olhar rasteiro, Afeganistão e Irã pareçam congêneres na opressão advinda da associação entre religião e Estado, o que percebemos neste documentário demonstra o quão equivocada é tal generalização: num Centro de Retorno, onde realizam-se as entrevistas que permitem que os afegãos retornem ao seu país, encontramos diversas pessoas que reclamam da desvalorização da moeda iraniana. Querem voltar ao Afeganistão porque crêem que, lá, poderão encontrar trabalho e organizar a vida, já que o poderio dos Talibãs arrefeceu. E, assim, ostentam a falta de dignidade de seus cotidianos…


Separando as entrevistas em blocos informais – os não-documentados, as mulheres desacompanhadas, os doentes, os tatuados, os viciados em drogas, etc. – o diretor mantém o espectador sufocado num emaranhado de mentiras, utilizadas como armas de sobrevivência num contexto de guerra longeva. Enquanto os afegãos inventam narrativas infundadas, no afã por retornarem ao país-natal que não mais conhecem, a canção homônima de Bob Marley and the Wailers é executada na banda sonora, falando sobre o percurso do “povo de Jah”, cujos caminhos errantes são trilhados após enorme tribulação e incompreensão. No meio de tudo isso, funcionários fatigados, ouvindo as mesmas invencionices, repetidas a fio num desgaste burocrático não impeditivo: ao final, um ônibus parte, lotado de passageiros. Mas as filas continuam imensas!


Wesley Pereira de Castro.