quarta-feira, 4 de março de 2026

SALOMÉ (2024, de André Antônio)

Protagonizado por um elenco predominantemente transexual, este filme conjuga duas obsessões temáticas constantes em obras anteriores do diretor: o aspecto litúrgico de membros deambulatórios de uma seita e o caráter fetichizado dos encontros sexuais, em que o recurso aos caracteres olfativos dos pés masculinos é recorrente. O diferencial discursivo está na comparação entre aspectos viciosos de reações a elementos tão distintos quanto a religiosidade, o consumo de substâncias alucinógenas e o tesão enquanto percurso. 
 


Narrativamente, o filme acompanha o retorno de uma jovem à casa de sua mãe, onde repensa os seus erros de adolescência: famosa internacionalmente enquanto modelo fotográfica, Cecília dos Anjos (Aura do Nascimento) reencontra casualmente o filho de uma vizinha, chamado João (Fellipy Sizernando), de quem sua mãe Helena (Renata Carvalho) não gosta muito. Bastante religiosa, Helena considera João uma má influência, pois sabe que ele está relacionado ao tráfico de alucinógenos. Ocorre que, ao experimentar um tipo inusual de loló entregue pelo rapaz, Cecília fica apaixonada em âmbito transeúnico: a primeira transa de ambos é fascinante! 


À medida que consegue fazer as pazes com a mãe e com uma prima, com quem brigara numa situação já esquecida, Cecília queda obcecada por João, que some constantemente, justamente para conseguir novos lotes do loló que tanto impressionou a jovem, que decide tornar-se sóbria repentinamente. Isto acontece pois ela constata que aquilo que percebera quando estivera sob a alucinação induzida pela substância em pauta, na verdade, está na própria realidade, ressignificada pela constatação de que "o poder do amor é maior que o poder da morte". Porém, este argumento não é suficiente para convencer João, que confessa um estranho relacionamento com alienígenas (liderados por Everaldo Pontes) que buscam uma descendente da figura bíblica de Salomé, através da disponibilização cibernética de vídeos pornográficos. 



Como se percebe, o roteiro deste filme, a cargo do próprio diretor, possui diversas camadas de significação, advindas de seu fascínio pelo Simbolismo e de rememorações familiares íntimas: a cor verde domina os ambientes, enquanto representação de algo que pode preencher o tédio que ronda aqueles personagens. É quando Cecília, apesar de admitir as belezas recifenses, volta a se sentir deslocada nesta cidade, sentindo-se tentada a participar de uma seleção publicitária que, se bem sucedida, possibilitará que ela viaje até Paris. Como fazer isto sem que ocorra um novo rompimento com sua mãe? 


Ostensivamente maneirista, opulento em intenções e épico em seu registro agregador da estética 'queer' (vide a diversidade LGBTQIAPN+ entre os membros da equipe e as referências culturais dos personagens), este filme surpreende pela crença sincera na reconciliação entre pessoas que divergiram anteriormente e pela abordagem não julgamental do que é generalizado através do rótulo de "drogas". Inebriante em mais de um sentido, "Salomé" (2024) é merecedor de todos os prêmios que recebeu e deixa-nos ansiosos pelos trabalhos vindouros do autoral realizador André Antônio. Que venham!



Wesley Pereira de Castro. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Mostra Tiradentes 2026: PARA OS GUARDADOS (2025, de Desali & Rafael Rocha)

 

Num dos segmentos deste média-metragem ("Dia de Visita"), o tom melancólico é estabelecido de maneira afetiva, contrariando quem esperava mais relatos de violência, injustiças ou situações de abandono no ambiente prisional, comum a este tipo de documentário: de repente, para os realizadores, o que interessa é a interação estendida, compartilhada, em atmosfera crepuscular, no qual um grupo de amigos envia mensagens de esperança para amigos detidos e executam canções ao violão. Os toques ou vozes eventualmente desafinam, mas a beleza desta demorada seqüência instaura-se definitivamente na recepção emocionada dos espectadores, que percebem que estão diante de um filme dificílimo de ser classificado - mas elementar no que ele provoca enquanto exercício de empatia. 


Em "para os guardados" - título estilizado em letras minúsculas -, temos o paroxismo audiovisual de um percurso advindo de curtas-metragens produzidos através do projeto A.P.N. (Aliança Periférica Nacional), coordenado pelos realizadores, sendo um deles mui consagrado por suas exposições, decorrentes da formação em Artes Plásticas. Os temas destes curtas-metragens (exploração da força proletária e solidariedade às vítimas de violência policial, sobretudo) justificam a ação inicial, que é a de organização de 'kits' de víveres a serem entregues a familiares de pessoas encarceradas, que os repassarão aos seus companheiros privados de liberdade e, assim, será estabelecida a lógica discursiva da obra, respeitando o eu-lírico das pessoas mostradas. Não se trata de uma abordagem conseqüencial, em que os motivos para as prisões são trazidas à tona: aqui, o que interessa é a humanização de quem, noutros contextos, é tratado como mera estatística negativa. "Se um branco corre, ele é considerado atleta; quando um negro está correndo, ele é tachado de ladrão", comenta um dos entrevistados. 


Editado de maneira crua, ciente de que quaisquer convenções cinematográficas prévias não abarcariam adequadamente as intenções acolhedoras desta obra, o filme investe numa linguagem documental de reinvenção, assumindo a impressão de amadorismo como sinceridade produtiva. É como se testemunhássemos a transmissão de uma ligação de vídeo íntima dos amigos e familiares dos internos, com vistas a alegrar um pouco o cotidiano de repressão destes últimos. Folhas de maconha são focalizadas com orgulho botânico e os versos de uma famosa canção da banda Natiruts ("Liberdade pra Dentro da Cabeça") são acusticamente ressignificados, enquanto declaração de ausência. Noutro momento, um dos ex-internos pinta a tornozeleira eletrônica que é obrigado a usar com cores vivas e exortações frasais de cariz basquiatiano. O filme é convertido num rascunho de carta de amor, entregue no momento mesmo de sua confecção. Algo que exige do espetador muito mais que arcabouço artístico para ser devidamente assimilado: pura declaração de fé e aceitação do próximo, para além (ou aquém) do que este tenha feito. Um instrumento imagético e sonoro de legítima ressocialização



Wesley Pereira de Castro.