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sábado, 26 de outubro de 2024

Mostra SP 2024: OS MAUS PATRIOTAS (2024, de Victor Fraga)


Avançando em sua proposta de finalizar uma trilogia documental sobre manipulação midiática - depois de realizar o interessante "A Fantástica Fábrica de Golpes" (2022, co-dirigido por Valnei Nunes - comentado aqui) -, o diretor baiano Victor Fraga, radicado em Londres, entrevista duas importantes personalidades britânicas, comumente criticadas por sua simpatia ao socialismo e pelas críticas ao imperialismo monárquico: o cineasta Ken Loach, duas vezes ganhador da Palma de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Cannes, e o parlamentar Jeremy Corbyn, que foi líder do Partido Trabalhista entre 2015 e 2020. Segundo a narração, o próprio Ken Loach já teve a intenção de realizar algo protagonizado por Jeremy Corbyn, mas esta é a primeira vez em que eles são filmados juntos... 


Na curta duração do filme (cerca de uma hora e setenta minutos), o documentarista senta-se diante de seus dois entrevistados, e eles conversam sobre o modo hostil com que são geralmente definidos nos meios de comunicação de massa locais. Algumas imagens de longas-metragens loachianos servem como ilustrações das falas de ambos, confirmando algo que o veterano realizador diz: "a divergência de opiniões é mais tolerada na ficção porque é ficção". Ao que Jeremy Corbyn complementa, elogiando-o bastante, referendando que o cineasta é assaz modesto ao falar sobre as suas necessárias provocações cinematográficas, sendo que algumas de suas obras foram censuradas internamente, já que "a mídia britânica é hostil a mudanças radicais no 'status quo'". Enquanto ouve, Victor Braga reage com expressões de estupefação e, obviamente, faz alguns comentários sobre a política brasileira, com destaque para o 'impeachment' sofrido por Dilma Rousseff e para a prisão injusta de Luiz Inácio Lula da Silva, sobremaneira conhecidos por Jeremy Corbyn. Mas o melhor momento de intervenção é quando ele pergunta a Ken Loach se "um cineasta socialista pode não ser realista?"!



Validando a entrevista, declarações encolerizadas de jornalistas vinculados à direita política são animadas através de pequenas vinhetas, nas quais ouvimos que "Leni Riefenstahl era mais sutil [em seu propagandismo] que Ken Loach" ou que seus filmes nem precisam ser vistos, "da mesma forma que não é necessário ler 'Minha Luta' para saber que Adolf Hitler é um monstro". O que confirma uma opinião progressista compartilhada por ambos os entrevistados: "o que seria de uma sociedade democrática em que não se tem acesso aos eventos, mas apenas a interpretações sobre os eventos?". Como tanto o cineasta quanto o parlamentar são eventualmente tachados de antissemitas, por serem favoráveis à causa palestina, Victor Fraga aproveita esta deixa para comentar a diferença de tratamento concedida à Rússia e a Israel. Em razão de a entrevista em pauta ter ocorrido antes do ataque da organização Hamas, em outubro de 2023, questões essenciais do debate são continuadas após a sessão, naquilo que ele incita. Vale acrescentar que o documentário, mesmo elementar em seus apanágios (o diretor tenta dinamizar o ritmo fílmico inserindo efeitos visuais durante os bastidores, como quando Jeremy Corbyn pede água ou quando Ken Loach recusa maquiagem), é deveras assertivo em seu discurso midiático-denuncista. Que venha a terceira parte da trilogia, com a participação do lingüista Noam Chomsky!  




Wesley Pereira de Castro. 

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Olhar de Cinema: DEUS TEM AIDS (2021, de Fábio Leal & Gustavo Vinagre)


Ambos os diretores deste filme têm uma relação extensa e mui desenvolta com a sexualidade, geralmente mostrada de maneira transgressiva, em razão de a naturalidade do sexo ainda ser considerada um tabu. Como tal, esperava-se que este documentário possuísse uma similar intensidade na opção pelo escândalo, visto que o título evidencia a frontalidade na abordagem do assunto, ainda evitado ou insuficientemente tratado até mesmo por políticos e personalidades progressistas. O modo como o filme é organizado, entretanto, evita a abordagem explícita e objetivamente didática, ainda que seja inevitável a necessidade de compartilhar experiências sobre um tema tão incômodo - e este é o grande mérito do roteiro: a abordagem é pessoal, a partir das vivências (tão íntimas quanto públicas) de um grupo de entrevistados... 


Logo no começo, um enfrentamento midiático é requerido: enquanto vemos imagens televisivas mal sintonizadas, ouvimos narrações jornalísticas que apresentam a AIDS como doença associada à promiscuidade sexual, abordagem moralista que era comum nas décadas de 1980 e 1990 e que, ainda hoje, é indecorosamente perpetuada. O primeiro depoente confunde-se ao responder uma determinada pergunta, no afã por compartilhar com a equipe como contou para a sua família que havia descoberto que era soropositivo. O processo de identificação empática é imediatamente estabelecido: como não há legendas identificando imediatamente quem são aqueles depoentes - quase todos envolvidos com expressões artísticas - transferimos para eles a impressão de casualidade. São pessoas como nós que, de repente, perceberam-se julgados pela sociedade por estarem doentes. E isso é o que mais nos aflige após a sessão, quando letreiros cotejam tudo o que testemunhamos aos depoimentos e medidas genocidas do atual presidente Jair Bolsonaro. Cabe a nós, enquanto espectadores conscientes, despojar-nos dos preconceitos que ainda retroalimentamos - quiçá inconscientemente - sobre a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida... 


Como era de se esperar num trabalho que reúna os talentos erotógenos destes ótimos diretores, o clímax do documentário é uma performance impressionante, no qual um artista retira seu próprio sangue com uma seringa e depois o insere no orifício anal, antes de deixar-se ser penetrado pelo cabo de uma faca, envolto num preservativo. Em sua fala, a confirmação de algo que perpassa os trabalhos prévios dos realizadores: "gosto de encarar os olhares embaraçados de quem assiste". O choque é necessário enquanto comunicação afetiva, num viés completamente distinto do tipo de alarde contido em obras como "AIDS, Furor do Sexo Explícito" (1985, e Fauzi Mansur) ou "Estou com AIDS" (1986, de David Cardoso). De acordo com o que percebemos neste filme mais recente, ser soropositivo é uma mera circunstância, uma casualidade que, como chama a atenção um pediatra, geralmente é sabida através de terceiros, como se fosse uma fofoca (ainda que bem-intencionada). O diferencial do filme está no modo afirmativo com que os contaminados falam sobre suas próprias vidas, demonstrando que estas não precisam nem devem estar limitadas a questões referentes a tratamentos médicos ou restrições patológicas. Um aidético fode como qualquer outro!



Interessante ressaltar a maneira como alguns adjetivos aparecem no filme, visto que o respeito aos depoimentos permite que, eventualmente, eles se contradigam. Um dos entrevistados, por exemplo, rejeita os discursos excessivamente positivos, no sentido de que, enquanto pessoa deprimida, "não existe ninguém mais negativo do que ele". Não por acaso, é justamente ele o autor da poesia cujo título também batiza o filme, que aborda tematicamente questões como o racismo, a transfobia e outras chagas inorgânicas dos brados identitários. Um dos entrevistados dança sem roupa, na cobertura de um prédio, e uma delas anda pelas ruas, carregando um letreiro eletrônico onde lê-se "eu não vou morrer". São situações que poderiam ser feitas por qualquer um de nós, tanto quanto descobrirmo-nos doentes, de uma hora para outra, após um encontro sexual. Entre as suas competências acessórias, é como se este filme tivesse um viés missionário, mais uma vez aproveitando a urgência dogmática do título: é também positivo ser soropositivo!



Wesley Pereira de Castro. 

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

DANÇAS NEGRAS (2020, de João Nascimento & Firmino Pitanga)


O grande problema deste documentário está em seu título: ao prometer algo com um escopo tão avantajado, o filme frustra espectadores que esperam encontrar um tratado histórico-geográfico sobre o assunto. Ao invés disso, deparamo-nos com uma pesquisa sobremaneira situada e com uma orientação ostensivamente acadêmica: a grande maioria dos depoimentos faz menção a situações ocorridas no âmbito da Universidade Federal da Bahia, acerca da consideração das danças afro-brasileiras como merecedoras de relevância científica e artística. Entretanto, mesmo quando assume a sua pertinência, a obra fica refém de uma linguagem audiovisual chavonada, muito aquém do que é abordado: as danças surgem na tela em relances intermitentes, numa montagem que não respeita a duração original das coreografias... 


Dentre os professores convidados a falar sobre o assunto, o próprio co-diretor Firmino Pitanga apresenta-se logo no início, o que realça o aspecto de projeto de extensão universitária, muito mais do que um filme em si. Por mais valiosas que sejam, as reflexões compartilhadas sobre as danças negras caracterizam-se por constatações genéricas, que, ao menos, beneficiam-se da impressão de plurivocalidade. E, neste sentido, a coleção de depoentes é riquíssima: desde o dançarino estadunidense Clyde Morgan ao etnólogo cubano Carlos Moore, passando por mestres capoeiristas e pela artista plástica e folclorista pernambucana Raquel Trindade [1936-2018], numa de suas últimas entrevistas gravadas. Cada um deles acrescenta muito, ao concatenar aquilo que é ensinado com a vivência pessoal, demonstrando que as experiências orgânicas são centrais na lida com algo que pressupõe a onipresença do gingado corporal como essencialmente humano. 


Trazendo à tona tanto questões antropológicas referentes à expressividade contida nas reações percussivas quanto as implicações do racismo colonizatório no que tange à apropriação cultural de ritos religiosos que são desprovidos de sacralidade ao serem reproduzidos em palcos, as falas dos entrevistados são muito pertinentes ao reforçarem a importância das políticas afirmativas e das cotas raciais. No cotejo com a conjuntura política repressiva da atualidade, o documentário é exitoso ao apresentar ganhos identitaristas, sobretudo no contexto baiano que abarca a maioria dos depoentes. Não se sustenta na exposição daquilo que é mais ansiado pelos espectadores, justamente o que está contido no título e nas imagens de divulgação: as seqüências de danças, apresentadas como breves ilustrações das falas dos especialistas. Mas é um documentário que questiona os fundamentos curriculares, os preconceitos contra o candomblé e as tradições culturais ideologizadas do país. Propõe um debate válido, portanto!


Wesley Pereira de Castro. 

domingo, 18 de outubro de 2020

* Mostra SP 2020: KUBRICK POR KUBRICK (2020, de Gregory Monro)


 No prefácio do livro "Conversas com Kubrick", do crítico francês Michel Ciment - lançado no Brasil numa edição deslumbrante (e muito cara) da editora Cosac Naify - o cineasta Martin Scorsese escreve: "assistir a um filme de Kubrick é como ver o cume de uma montanha a partir do vale. Nós nos perguntamos como alguém pôde subir tão alto". Procede! E o livro é exemplar ao desvendar este deslumbramento a partir da transcrição de várias conversas entre o crítico e o diretor, além de entrevistas com alguns de seus colaboradores... 


Como se sabe, o norte-americano exilado na Inglaterra Stanley Kubrick [1928-1999] faleceu antes do lançamento de seu derradeiro filme, "De Olhos Bem Fechados" (1999), que foi recebido de maneira pouco elogiosa por muitos críticos. E, conforme Michel Ciment faz questão de frisar, a incompreensão imediata era a tônica de vários dos contatos com as obras-primas realizadas pelo diretor, que realizou pouco mais de uma dezena de longa-metragens em seus anos de atividade. Seria interessante conferir tudo isso num documentário televisivo? 


Felizmente, a resposta é sim. Apresentando o material audiográfico cedido pelo próprio Michel Ciment, que é consultor técnico do filme, ouvimos as conversas entre crítico e cineasta, sendo que esta último demonstra-se bem distante do perfil irascível que costumam atribuir a ele. "Não dá para ser amigo íntimo de Stanley Kubrick", comenta o crítico, num comentário ao seu grau de proximidade com o diretor, mas o que ele consegue é brilhante: depoimentos valiosos!



Num dos melhores momentos, Stanley Kubrick explica que não gosta muito de conceder entrevistas porque isso lhe obrigaria a proferir resumos espirituosos de seus filmes, o que lhe desagrada. Ao mencionar quais seriam os temas genéricos das obras mais famosas, Michel Ciment dispara sobre "Laranja Mecânica" (1971): "é sobre violência", ao que o diretor corrige: "é sobre as estruturas sociais do futuro". Procede, mais uma vez! Quem discordaria do gênio?



O documentário, portanto, é despretensioso: em sua curta duração, ele apresenta a fase inicial da carreira do cineasta, ainda como fotógrafo, na revista "Look"; comenta as cenas de alguns filmes famosos, mediante a audição das lembranças de filmagem e pré-produção do próprio Stanley Kubrick [com destaque para o que sabemos sobre o controverso "Barry Lyndon" (1975)]; dispõe vários objetos icônicos dos filmes do realizador num cenário assaz reconhecível; e emociona-nos ao mostrar gravações familiares do cineasta, bastante sorridente, desde a infância. É um ótimo complemento a um livro já bastante completo. Definitivo, aliás! 



Em "Conversas com Kubrick", Michael Ciment escreve: "Quando tantos artistas contemporâneos têm regularmente uma recepção favorável e conveniente, por se repetirem, Stanley Kubrick não conseguiu sequer a unanimidade 'post mortem'. É a prova, com certeza, de que ele continua mais vivo do que nunca". Por motivos óbvios, nas entrevistas gravadas pelo crítico, "De Olhos Bem Fechados" era ainda um projeto vindouro. Mas o diretor já antecipava e explicava o seu interesse em adaptar o livro do austríaco Arthur Schnitzler, "Breve Romance de Sonho", escolhido dentre as inúmeras obras literárias com que teve contato. Para quem é (ou não, se é que é possível) fã do cineasta, este documentário é um precioso memento! 



Wesley Pereira de Castro.