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sábado, 2 de julho de 2022

Mostra SP 2022: O FILME DA ESCRITORA (2022, de Hong Sang-Soo)


 Ainda que sejam comuns na filmografia deste cineasta, em que as coincidências e os encontros casuais são elementos importantíssimos, as manifestações epifânicas foram explicitadas com maior efetividade em "In Front of Your Face" (2021), em que a temática da conversão religiosa é central. Nesse sentido, é natural encontrar a abundância deste mesmo aspecto em seu filme mais recente. Todas as suas marcas temáticas estão lá (os profissionais renomados que se encontram após algum tempo, comida e bebidas em primeiro plano), mas o que chama a atenção em seu novo trabalho é a convocação para que imaginemos algo que ocorre fora dos planos, para além daqueles diálogos tão demorados quanto interessantes...


Um dos momentos mais fascinantes, no que tange ao anúncio dessa estratégia, é quando a romancista Jun-Hee (Lee Hye-Young) e a atriz Gil-Soo (Kim Min-Hee) estão comendo vastas porções de lámen num restaurante e notamos que algumas pessoas caminham, fora daquele ambiente, mas vistas através da parede de vidro do local. De repente, uma garotinha pára repentinamente e fica encarando as duas mulheres que conversam. Para qual das duas será que ela está olhando? O que se segue é um instante de pura beleza, em que o diretor aproveita ao máximo as potencialidades do enquadramento. 


Como de praxe em várias de suas obras, a metalinguagem é recorrente, o que já é anunciado desde o título: se, por um lado, os momentos em que Jun-Hee comunica as suas intenções de realizar um curta-metragem com Gil-Soo soam um tanto redundantes, no que tange ao próprio esclarecimento da metodologia fílmica do realizador, por outro, isso culmina em mais um rompante de epifania, quando Kim Min-Hee é enquadrada sozinha num cinema, tal qual acontecera em diversos de seus filmes. Com isso, um magnânimo questionamento é direcionado à própria obra, quando a atriz convertida em personagem, no filme dentro do filme, lamenta que, por ser realizado em preto-e-branco, não possamos contemplar a beleza das cores que a circundam naquela situação. A seqüência que ocorre após os créditos finais concede-nos uma responsabilidade adicional: o filme continuará acontecendo, inclusive após a sessão!



Nos diálogos, em que os sorrisos e a troca de elogios são predominantes, acontecem algumas sobreposições dramáticas, cabendo à protagonista Jun-Hee a tarefa de "se desculpar por ter gritado". Em verdade, o que ocorreu foi uma atípica mudança de tom, na qual ela reprime um personagem por tachar uma decisão alheia de "desperdício". É quando percebemos que o diretor transfere para os seus filmes conflitos que vivencia em seu cotidiano pessoal, o que é também refletido na cena em que Gil-Soo afirma que um argumento tramático recém-descrito tem tudo a ver com algo que vivenciara recentemente com seu marido. A sucessão de pretextos metalingüísticos é tão freqüente quanto a importância da livreira (esplendidamente interpretada pela veterana Seo Young-Hwa) na concatenação daquelas trocas de experiências. Além de filmar, roteirizar, produzir, fotografar e editar este filme, Hong Sang-Soo é também responsável pela composição dos delicados acordes musicais que irrompem em uma seqüência florida (tão bela que chegamos a sentir o cheiro das flores, numa conexão com o olfato bastante desenvolvido de Gil-Soo). Um trabalho sublime, pura e simplesmente! 



Wesley Pereira de Castro. 

sábado, 25 de dezembro de 2021

Netflix: A MÃO DE DEUS (2021, de Paolo Sorrentino)


À primeira vista, salta aos olhos as comparações com o estilo felliniano, afinal intencionais, conforme percebemos nas diversas emulações de filmes famosos do diretor ou na seqüência em que Marchino (Marlon Joubert), irmão do protagonista, resolve fazer um teste de elenco e é rejeitado por ter "um rosto demasiado convencional". Segue-se um momento idílico, em que Fabietto (Filippo Scotti) ouve a voz do cineasta selecionar as fotografias de diversas mulheres, a maioria delas opulenta, o que desperta a libido já iridescente do rapazola. Em meio a personagens mui pitorescos, identificamos o que parece ser a obsessão estilística de Paolo Sorrentino: demonstrar que a beleza é cercada de vazio!


Se, num primeiro momento, isso surge de maneira cômica (vários homens espremidos num dos lados de um barco, enquanto uma mulher toma banho de sol, completamente nua, no outro), logo intuímos a dimensão trágica do mesmo recurso, quando esta mesma mulher, Patrizia (Luisa Ranieri), fica à beira de um penhasco, como se quisesse saltar. Trata-se da esposa do tio de Fabietto, sua primeira musa, em quem ele pensará quando for desvirginado pela baronesa Focale (Betty Pedrazzi), numa bela cena, em que ela confessa que está cumprindo uma importante missão: "te ensinar a olhar para o futuro". Junto a um encontro com o realizador niilista Antonio Capuano (Ciro Capano) - que diz-lhe que "sem conflito, tudo é sexo, inútil" -, o intento é acertado: Fabietto consegue chorar e, após uma viagem para Roma, é redesenhado enquanto alter-ego do próprio Paolo Sorrentino, nesta terna evocação autobiográfica...


Muitíssimo bem-interpretado e repleto de seqüências que confirmam a equação imagética supracitada (alguém geralmente é destacado num espaço amplo e vão), este filme possui um ritmo mais lento que as demais obras do diretor: a jornada de descobertas e aceitação interior do protagonista - que precisa excluir o diminutivo de seu prenome para seguir em frente - é permeada por instantes antológicos e por recorrências burlescas, como a irmã que nunca sai do banheiro. A reconstituição do encontro inicial entre Patrizia e um monge infantil demonstra que o personagem principal foi sobremaneira exitoso em seu anseio de devolver alguma fantasia à sua vida. Reencenar a perda dos pais (magistralmente encarnados por Toni Servillo e Teresa Saponangelo) demonstra o quão merecedor de encômios é este cineasta, dotado de idiossincrasias plenamente reconhecíveis! 



Wesley Pereira de Castro. 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

MOSTRA SP 2021: MADEIRA E ÁGUA (2021, de Jonas Bak)


Tentar descobrir o que seria documental e o que seria ficcional num trabalho tão sensível como este seria uma tarefa vã - ou pior: implicaria em ignorar a grandiosidade sensorial do que o cineasta nos oferta, utilizando a sua própria família como moldura. Não se sabe qual o parentesco da protagonista com ele, visto que seu prenome não é pronunciado durante os diálogos, mas Anke Bak demonstra-se uma excelente atriz. Enquanto personagem, ela está com sessenta anos de idade e acaba de se aposentar. Vive na pacata Floresta Negra, na Alemanha, e costuma rezar diariamente, mas "nunca para que as coisas não aconteçam". Numa reunião familiar, ela sente falta do filho Maximilian, que vive em Hong Kong, e não pôde viajar por causa dos protestos políticos na região administrativa. Mesmo "não sendo um bom momento para viajar", ela dirige-se até lá, em busca dele. Hospeda-se no mesmo quarto, e espera... 


No processo de descoberta da cidade - muito diferente do lugar onde vive - Anke logo constata ser verdade o que os transeuntes lhe disseram: "as pessoas por aqui são muito gentis". Além de conseguir hospedar-se com facilidade (um quarto compartilhado, inicialmente, não é um problema), ela também encontra companhia para conversar enquanto almoça. Num dado momento, passa diante de uma manifestação de estudantes. A câmera prefere mostrar o seu olhar, o modo como ela depara-se com uma realidade completamente distinta da sua. Logo, ela estará experimentando uma máscara facial, a fim de proteger-se das contaminações viróticas em curso. Ainda que ela vá embora, não será mais a mesma: trata-se de um filme sobre o reencontro com si mesma, a partir de algo até então inaudito!


Musicado por Brian Eno e fotografado de maneira muito sensível por Alex Grigoras, as imagens e sons acentuam a impressão de solidão que pode ocorrer tanto em ambientes rurais quanto nas grandes metrópoles. Estamos diante de um testemunho do quão possível é encontrar beleza no mundo, através da interação com os seres humanos. Três momentos confirmam isso muito bem: a consulta médica na qual Anke descobre que sofre de depressão advinda da ansiedade; a conversa com o ativista social também aposentado que conhece quando resolve fazer uma consulta esotérica (e descobrimos, por extensão, o magnífico significado do título do filme); e a prática de Tai Chi Chuan, no desfecho. Um convite à meditação que não exclui o fervor participativo. Puro compartilhamento de aprendizados extrafamiliares!


Wesley Pereira de Castro. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

* Mostra SP 2020: MOSQUITO (2020, de João Nunes Pinto)


     A cartela que, nos créditos finais, anuncia que este filme foi livremente inspirado numa história verdadeira, é quase redundante: são amplamente conhecidas as versões similares de brutalização associada à guerra, que trazem à tona o que os homens têm de pior diante daqueles que deveriam ser reconhecidos como os seus semelhantes. E, não obstante ter como referência a I Guerra Mundial, as imagens de batalha que aparecem neste filme explicitam sobretudo as conseqüências de conflitos interiores... 


    Iniciado em 1917, o roteiro apresenta-nos ao jovem Zacarias, que chega em Moçambique, a fim de defender a nação portuguesa. Enquanto soldados matavam-se na Europa, este garoto, com apenas 17 anos de idade, testemunhará mazelas traumatizantes. Do mesmo modo que o protagonista de "Vá e Veja" (1985, de Elem Klimov), ele envelhecerá mui precocemente, sendo vital para a transposição fílmica deste efeito a completa entrega do jovem João Nunes Monteiro à sua interpretação. Sendo quase dez anos mais velho que ele, traduz em olhares aflitos e abandonados todo o estupor de seu personagem, que tem qualquer vestígio de inocência dilacerado pelas múltiplas guerras que enfrenta. Desde a guerra inicial contra a autoridade paterna, relatada numa carta, que o levou a alistar-se no Exército, até a guerra vilanaz de colonização na África, que maltrata de maneira inclemente pessoas completamente alheias à disputa das grandes potências nacionais. A submissão dos moçambicanos, que carregam os soldados portugueses nas costas durante um desembarque, escandaliza-nos desde o começo: é um filme sobre o Mal, naturalizado por seres humanos que apregoam a equivocada superioridade de uma raça sobre outras. 


    Inicialmente absorto, Zacarias esforça-se para compreender as regras de respeito hierárquico que balizam o relacionamento entre os soldados. É ensinado a tratar os seus servos africanos como inferiores a animais de carga, meras coisas que se movem em benefício do homem branco. Tem a sua virgindade sexual questionada, e é orientado a logo "enfiar a minhoca na terra preta", numa piada de alto teor machista, que revela a falta de caráter dos seus comandantes. Até que ele vê-se abandonado em meio à selva...



     Daí para a frente, o filme obedece a um percurso deveras assemelhado ao de "Aguirre, a Cólera dos Deuses" (1972, de Werner Herzog): Zacarias age com bazófia quanto a tudo com o que se depara, mas logo sucumbirá ao desespero de rezas culpadas, em que pede perdão "por ter pecado em pensamentos, palavras, atos e omissões", conforme foi ensinado, sem necessariamente acreditar. Seus monólogos de autodescoberta contagiam a banda sonora, bem como as frases de efeito proferidas por um ermitão que o resgata: "devemos andar na Música, e não na Matemática. A primeira foi concedida por Deus aos homens, enquanto a segunda foi criada pelos homens para tentar explicar Deus". A convivência forçada que mantém com alguns africanos, após ser capturado por uma tribo composta apenas por mulheres, o obrigará a amadurecer.  Zacarias sobrevive, foge... Até que um novo encontro o induz, mais uma vez, a gabar-se de uma autoridade que não possui. E que não se sustentará nem mesmo com o exercício da força, do poder de matar via empunhamento de uma metralhadora!



    Muitos dos efeitos alucinantes deste filme devem-se à perfeita confluência entre seus elementos técnicos: a magnífica fotografia de Adolpho Veloso, eventualmente embaçada nas laterais, e o esplêndido desenho de som tornam-nos cúmplices dos sentimentos atordoados de Zacarias, que vaga entre o embasbacamento ecológico e o ódio imputado por seu treinamento bélico. A trilha musical utiliza sons eletrônicos que reforçam o caráter transeúnico da imersão do personagem num ambiente sobremaneira inaudito. Até que ele constata, escandalizado, que a guerra para a qual foi convocado acabou...



     No desfecho, o filme é quase tautológico na exposição desumanizadora, que, conforme percebemos, poupou Zacarias, em comparação com outrem. Seu comandante diz que ele não viu o suficiente da brutalidade da guerra e que, por causa disso, seria incapaz de compreender o que os demais soldados enfrentaram, tentando explicar assim a malevolência de seus atos cotidianos, já em contexto "oficial" de paz. Fotografias reais da colonização de Moçambique por Portugal aparecem na tela, situando historicamente os eventos e forçando-nos a admitir que aquilo ainda continua a acontecer... As guerras não acabam: são apenas narrativamente transferidas! 



Wesley Pereira de Castro.