Mostrando postagens com marcador atuamos na vida real?. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador atuamos na vida real?. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Festival de Gramado 2024 - Documentários: POEMARIA (2024, de Davi Kinski)


Que a inspiração nos filmes de Eduardo Coutinho [1933-2014] seja destacada na sinopse e no material de divulgação deste filme é algo que muito mais atrapalha do que ajuda, no sentido de que cria-se, a partir disso, uma expectativa insatisfatória: afinal, emula-se o dispositivo, mas não necessariamente o método. Registrar as falas emocionadas de várias pessoas - entre famosos e profissionais do dia a dia -, diante de uma tela negra, num palco vazio, não é o mesmo que "entender a razão do outro, sem lhe dar razão". Superada esta comparação auto-imposta, "Poemaria" (2024) cativa por aquilo que possui de tão particular: os relatos de poetas, assumidos ou não, que lidam com a beleza inequívoca de um ofício que salva vidas, como tantos concordam e ratificam, em suas lembranças. Vide o exemplo da tributarista Claire Feliz Regina que, aos oitenta anos de idade, começa a escrever poesias e compõe uma prodigiosa ode à vagina... 


Logo na abertura, o ator Gero Camilo chama a atenção para o fascínio engendrado pelos ruídos da claquete, enquanto disparo exordial da "poesia cinematográfica". Segue-se um depoimento prenhe de erotismo, em que ele destaca o processo poético como atravessado pelos mesmos mecanismos de uma trepada, em que o esperma e o óvulo a ser fecundado são as palavras, as frases e os sentimentos. Daí para a frente, todos os entrevistados trarão à tona emoções intensificadas, a partir do modo como eles lidam com definições muito pessoais que correspondem à poesia: seja quando a jornalista Marília Gabriela comenta as dificuldades inerentes à recepção artística; seja quando o estilista Fause Haten declara que qualquer ato pode ser poético, sendo expresso em palavras ou não. Ou quando Jean Wyllys relembra o verso maiakovskiano, musicado por Caetano Veloso, que ouviu enquanto comia uma macarronada, depois de uma longa privação de víveres: "gente é para brilhar, não para morrer de fome". Dá para compreender imediatamente o porquê de ele ter tatuado isto em seu peito! 


Num momento egrégio, a poetisa mineira Adélia Prado tem seu choro, manifesto enquanto lê um de seus poemas, interrompido pela montagem, a fim de se coadunar à recitação de um poema também dela, agora na voz de uma médica, que explica que a poesia a atinge "onde a ciência não alcança". Seu relato sobre uma paciente moribunda, que lacrimejava mesmo estando desidratada, é impressionante, tanto quanto a resposta da escritora Rosana Banharoli à pergunta "se a poesia fosse uma pessoa, o que tu dirias a ela?". Sem pestanejar, ela diz: "eu te amo. Obrigada por me salvar!". Isso ecoa nas contribuições de vários dos outros depoentes, como quando Alexandre Borges define o ato de ser pai como sumamente poético ou quando Ignácio de Loyola Brandão tece o máximo de elogios à capacidade sintetizadora de um 'haicai'. E é da comediante transexual Nany People que surge um dos apotegmas mais potentes, quando, ao recordar algo que a sua avó repetia, ela direciona ao espectador a seguinte lição: "não importa o prejuízo trazido pela tempestade; o que importa é a nossa capacidade de fazer a lavoura voltar a brotar". Eis a poesia em curso! 



Wesley Pereira de Castro. 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

PRESENÇA (2023, de Erly Vieira Jr.)


O diretor e professor universitário capixaba Erly Vieira Jr. já havia se debruçado sobre a arte performática de um dos objetos humanos deste longa-metragem em oportunidades anteriores: ele é o autor, por exemplo, do livro "Marcus Vinícius - A Presença do Mundo em Mim", lançado em 2016, em que documenta, através de vasto material imagético, as impressionantes intervenções do artista mencionado no título, que expunha o seu próprio corpo a situações extremas, como ficar despido num pasto onde há diversas vacas ou caminhando em espaços urbanos, coberto por fitas adesivas, onde se lê, à exaustão, a palavra "Frágil". Infelizmente, ele faleceu, em decorrência de um mal súbito, numa viagem à Turquia, em 2012. Seu trabalho ficou eternizado, graças à curadoria criteriosa deste realizador, entre outros. 


Retornando aos trabalhos deste artista singular, internacionalmente conhecido, Erly Vieira Jr. coteja as suas ações com as obras de mais duas artistas radicadas em Vitória, capital do Espírito Santo, que têm em comum a característica de utilizar os seus corpos - tal como Marcus Vinícius - como palco de experimentações. De um lado, Rubiane Maia, que parte de um apotegma nietzscheano (aquele que prediz que, antes de voarmos, precisamos "aprender a ficar de pé, caminhar, correr, escalar e dançar") para realizar equiparações com plantas que se ramificam espacialmente ou efetuar movimentos que requerem extrema preparação física, como uma coreografia no topo do Pico da Neblina, ponto mais alto do Brasil, que fica no Estado de Amazonas... 


Do outro lado, temos a travesti Castiel Vitorino Brasileiro, que costuma se definir como um peixe e dança para a família, num espaço recoberto de areia, ao som dos tambores de candomblé. Movimentando-se freneticamente, ela também compõe versos poéticos, que acompanham as suas obras, tanto quanto Rubiane. Evitando ser limitada às convenções de gênero, Castiel fala que suas obras são sobre resistência e sacrifício, e, com base em suas poderosas entregas artísticas, também conseguiu projeção internacional, da mesma maneira que os demais retratados.


O filme, deveras convencional em sua exposição documental, beneficia-se de um extraordinário rigor fotográfico e das colaborações próximas, ao longo de anos, entre o diretor e os artistas em pauta. Funciona como uma espécie de catálogo expandido das manifestações performáticas dos envolvidos, além, claro, de um contundente registro identitarista, que ousa expor a pujança de artistas negros num Estado do Sudeste do Brasil, conhecido por suas manifestações de extrema-direita. Neste sentido, o filme merece ser apresentado e debatido nas salas de aula e, quiçá, em galerias. Inova pouco formalmente, deixando que isso fique a cargo dos artistas, mas os divulga de maneira tão enfática quanto carinhosa. Aplaudamo-nos, portanto! 



Wesley Pereira de Castro. 

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: OS INVENTADOS (2021, de Leo Basilico, Nicolás Linginotti & Pablo Rodríguez Pandolfi)


A idéia é muito boa: um retiro/oficina de interpretação, no qual os inscritos ficam tão imersos nos personagens que inventam para si mesmos que chegam a esquecer de quem são e ignoram quem desaparece ao redor. É uma sinopse que pode desencadear excelentes reflexões sobre o processo artístico e trazer embutidas algumas análises psicológicas sobre o que ocorre com os participantes de 'reality shows'. Entretanto, os três diretores preferem flertar com as convenções do suspense dramático e, ao optarem por este caminho, desperdiçam o potencial do roteiro, enquanto indutor de autodescobertas... 


Logo no começo, o idealizador deste retiro cita uma série de teorias teatrais, nas quais a busca pela entrega interpretativa completa é acompanhada de questionamentos sobre a própria realidade. "Há um telefone fixo na casa, para o caso de algum de vocês ter um ataque de esquizofrenia", complementa. Ao parecer o mais sóbrio dentre o quinteto de confinados, é justamente o protagonista quem parece esquizofrênico. E isso se deve muito à composição "privilegiada" de seu personagem, no sentido de que ele é o único que possui um passado compartilhado com os espectadores: imbuído das características chavonadas de um fracassado, ele é um ex-ator infantil que, após uma briga familiar, trabalha como atendente de telemarketing. É o clichê do solitário, do babaca carinhoso porém atrapalhado. E seu tratamento é visivelmente assimétrico em relação aos demais!


Interpretado por Juan Grandinetti, este personagem finge que é um dermatologista, de nome Matías, e compartilha morada com quatro pessoas que obedecem ao mais óbvio dos esquemas narrativos: alguém sobremaneira discreto, que é o primeiro a desaparecer; um rapaz excessivamente espirituoso porém inconveniente; uma mulher bem intencionada e tendente às bebedeiras; e a jovem mui simpática (vivida por Verónica Gerez) por quem ele está apaixonado antes mesmo de matricular-se nesta oficina de atuação. Segue-se uma cadeia de eventos previsíveis, até que algo não necessariamente surpreendente, mas positivo, acontece antes do desfecho. No letreiro final, o corolário: "não é casual que os agradecimentos ocupem a maior parte dos créditos. Muito obrigado à universidade pública, que nos uniu e demonstrou que tudo isso era possível". Que bom que, havendo o estímulo adequado - e os financiamentos decorrentes -, projetos acadêmicos como este ainda possam ser executados com confiança e zelo!


Wesley Pereira de Castro.