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sábado, 21 de outubro de 2023

ASSASSINOS DA LUA DAS FLORES (2023, de Martin Scorsese)


Em dado momento das três horas e vinte minutos de duração deste filme, os fãs das aceleradas narrativas scorseseanas tendem a estranhar a maneira comedida com que ele se dedica à linearidade do relato, quiçá obedecendo à estrutura capitular do romance original de David Grann. Diferentemente do que ele acostumou-nos em seus trabalhos mais célebres, aqui, a montagem de sua colaboradora fiel Thelma Schoonmaker evita as estripulias lingüísticas, não obstante servir-se de paralelismos situacionais e de 'flashbacks' explicativos/revisionistas. Até que a derradeira seqüência referenda a genialidade do realizador, no que tange à consciência de que, ao narrar a História de seu país, ele obrigatoriamente dedica-se a uma listagem de assassinatos. O que, porém, não o leva a estimular a descrença nas instituições democráticas, mesmo que fique evidente que isso advém de construtos discursivos embasados na repetição factual com intenções descadaramente ideológicas...  


Ao narrar a comunhão matrimonial oportunista (e ambígua) entre um jovem recém-chegado da I Guerra Mundial (Leonardo DiCaprio) e uma mulher indígena (Lily Gladstone, magnífica) com direito a grandes somas de dinheiro, relacionadas à exploração de petróleo em suas terras nativas, Martin Scorsese - que adaptou o roteiro do filme, junto ao premiado Eric Roth - chama a atenção exatamente para aquilo que a História é: uma narração! Neste sentido, o brilhantismo do desfecho também possui uma carga autocrítica, visto que, somando-se pincipalmente a John Ford [1894-1973], o diretor tem clareza de que contribuiu para uma apreensão deveras específica sobre as condições de estabelecimento da nação estadunidense. Ou seja, ele assume que oferece mitos nacionais ao espectador, malgrado preferir a faceta anti-heróica (ou até mesmo vilanesca) dos mesmos, fazendo com que este novo longa-metragem seja um complemento direto do igualmente magistral "Gangues de Nova York" (2002). 


Fotografado de maneira excelente por Rodrigo Pietro, "Assassinos da Lua das Flores" é musicado de forma inteligente por Robbie Robertson [1943-2023], cujas composições muitas vezes se estendem por longos minutos, reforçando o aspecto conseqüencial das atitudes dos personagens, em cenas distintas. Ainda que a perspectiva dominante seja a do protagonista Ernest Burkhart, em tom objetivo, o filme surpreende ao inserir duas alucinações moribundas da personagem Lizzie Q. (Tantoo Cardinal), em tom subjetivo, antecipando a reviravolta narratológica da seqüência final, uma das mais corajosas já filmadas (e protagonizadas) pelo cineasta, um dos mais talentosos em atividade em Hollywood! 


Em sua décima colaboração actancial com o diretor, Robert De Niro converte o vilão William King Hale num personagem que sintetiza as características hipócritas facilmente encontráveis nos líderes carismáticos de algumas regiões norte-americanas, sendo escancaradas as intenções político-denuncistas do enredo quanto a problemas da atualidade. Porém, o foco tramático é o pedido de desculpas a uma comunidade indígena que foi amplamente dizimada, num projeto malévolo desvendado pelo então recente FBI (Federal Bureau of Investigation), fundado em 1908. Quantos e quantos genocídios locais não receberam a mesma atenção midiática, conforme o diretor faz questão de emular, ao citar a influência da Ku Klux Klan nalguns atos violentos, mencionados pelos personagens. Servindo-se, portanto, de uma estrutura narrativa consolidada, Martin Scorsese obriga-nos a questionar os interesses por detrás da própria ficcionalização - e, assim, no auge de oitenta anos de idade, ele entregou-nos um trabalho de gênio! 


Wesley Pereira de Castro. 

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: REGRESSO A REIMS (FRAGMENTOS) (2021, de Jean-Gabriel Périot)


Para que este documentário seja devidamente assimilado e compreendido, algumas informações precisam ser conhecidas previamente pelo espectador: além de saber que o que está sendo analisado é o panorama político-partidário francês, há inúmeros atravessamentos reivindicativos em pauta, no afã pela conquista de "uma sociedade justa, ecológica e durável", conforme apregoa uma militante, próximo do final. Tanto o diretor quanto o autor do livro homônimo no qual esta obra é baseada são homossexuais assumidos e combativos, assim como a narradora Adèle Haenel - e isso é muito importante para que entendamos as imbricações fundamentais entre vida privada e vida pública que o texto lido traz à tona. Política, afinal, tem a ver com tudo o que fazemos, inclusive na intimidade! 


O filósofo que escreveu o livro-base é especializado nas abordagens foucaultianas, não sendo casual que as reflexões sobre "a dominação masculina" surjam de maneira tão pungente em seu relato autobiográfico: evadido de sua residência por causa da inaceitação paterna de sua homossexualidade, Didier Eribon esforça-se para compreender como sua mãe, apesar de oprimida pela lógica da dupla jornada de trabalho, cedeu à homofobia e ao racismo. Interpretado vocalmente pela atriz supracitada, Didier investiga o poder discursivo de penetração da extrema-direita a partir da manutenção dos temores proletários: sua família era muito pobre e, como ele mesmo destaca, enfrentou as agruras do pós-guerra, cujas cobranças foram muito mais violentas para as mulheres julgadas por seus comportamentos sexuais "colaborativos". Trata-se de uma análise nacional muito específica, mas que, obviamente, pode ser estendida para diversas sociedades. Ideologicamente, os recursos de soberania assimétrica são muito semelhantes... 


Dividido em dois grandes movimentos e um epílogo, este documentário serve-se de amplo material cinematográfico no primeiro caso e de vasta pesquisa telejornalística no segundo, concluindo com um segmento mais atuante, em que os posicionamentos políticos requerem que seus agentes deixem de ser apenas espectadores e tornem-se propriamente atores. Escritor, narradora e cineasta - simbioticamente conjugados - notam a penetração de contradições sexistas e racistas nos pronunciamentos de oradores de esquerda e lamentam que isso tenha desencadeado programas governamentais cada vez mais restritivos e menos conscientes da etimologia da palavra 'democracia'. Utilizando imagens de filmes produzidos por realizadores tão diversos como Dimitri Kirsanoff, Jean Vigo, Germaine Dulac, Maurice Pialat e Jean-Luc Godard, o diretor monta uma diacronia de eventos que desemboca no processo em curso da contemporaneidade. Trata-se de um manifesto fílmico que requer continuidade por parte da audiência, sob a forma de um prolongamento operacional com vieses sociológico, bibliográfico e cinefílico acerca do que é apresentado. Amar é um verbo que se conjuga na prática: eis o que o filme grita impetuosamente em seus interstícios autorais!


Wesley Pereira de Castro. 

terça-feira, 27 de outubro de 2020

* Mostra SP: SOBRADINHO (2020, de Cláudio Marques & Marília Hughes)


 

A filmografia dessa dupla de cineastas radicados na Bahia é demarcada pela juventude: seja enquanto tema direto de seus filmes, seja pelo arrojo estilístico que permeia as suas narrativas revoltosas. No quarto longa-metragem que realizam, com enfoque assumidamente documental, a perspectiva geracional é diferente: acompanhando-se as lembranças da espirituosa Dona Pequenita, idosa que vive sozinha na cidade parcialmente inundada de Pilão Arcado, é promovido um reencontro com três assistentes sociais que voltam ao local, a convite dos realizadores. Estas participaram do processo de remanejamento habitacional dos moradores que viviam nos municípios alagados durante a construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, no início da década de 1970…



Retomando um assunto que forma uma trilogia indireta com o curta-metragem "Desterro" (2012) e com o longa semificcional "A Cidade do Futuro" (2016), os diretores contrastam o que é narrado por Dona Pequenita aos cinejornais da CHESF – Companhia Hidrelétrica do São Francisco, aos documentários efusivos da Rede Globo de Televisão e a apropriação melodramática da situação sertaneja numa telenovela de Janete Clair, “Fogo Sobre Terra”, lançada em 1974. Nas imagens em preto e branco, Juca de Oliveira e Regina Duarte formam um casal afetado diretamente pelos planos de uma empresa hidrelétrica, que planeja alagar a cidade em que vivem. Durante a produção, a telenovela sofreu muita censura, por parte do Governo Militar, pois temia-se que ela incitasse os espectadores a posicionarem-se de maneira contrária à construção da represa de Itaipú, então em curso naquele período. Hoje, todos sabem que tipo de ideologia a atriz supracitada apregoa…



No documentário, as assistentes sociais confessam que não compreendiam adequadamente as conseqüências do que faziam. Insistem que agiram com as melhores intenções e que não sabiam muito sobre o jugo da ditadura militar, pois viviam “soltas na buraqueira”. Eram recém-concursadas, jovens e motivadas por ideais de edificação nacional, conforme veiculado pelas campanhas publicitárias governamentais do período, amplamente falaciosas. Ao reverem as fotografias e filmagens realizadas durante o período de transporte das famílias para cidades construídas às pressas para recebê-los, elas exibem uma conscientização temporã acerca das agruras para as quais contribuíram. Uma delas, chora. Dona Pequenita, por sua vez, prefere cantar as marchinhas de Carnaval de que ainda se lembra. “Quem veve na beira do rio é tranquio”, repete ela, mais de uma vez, sorrindo.



Neste filme mais recente, os diretores demonstram que a juventude a que tanto vinculam-se não tem a ver exatamente com faixa etária. Conforme dito pelo co-diretor, em depoimento pessoal sobre a sua parceria com Marília Hughes: “temos muita paixão, energia e desejo de nos comunicar. Estou envelhecendo, mas ainda não perdi isso. Quero fazer as coisas com mais calma”. Está explicada a mudança de ritmo em "Sobradinho", portanto. As imagens e sons captadas por ele são mui acolhedoras!



Wesley Pereira de Castro. 



sexta-feira, 25 de abril de 2014

LANÇAMENTO DO SEGUNDO LOTE DE CURTAS-METRAGENS PREMIADOS PELA SECRETARIA DO ESTADO DA CULTURA DE SERGIPE: “UMA GRANDE NOITE PARA O AUDIOVISUAL SERGIPANO”?

Quando se tem acesso aos bons projetos que originam produtos audiovisuais qualitativamente imprecisos, a responsabilidade pela avaliação crítica dos mesmos é intensificada. Saber-se (in)diretamente vinculado à aprovação e posterior financiamento destes curtas-metragens é algo que torna a dificuldade em julgá-los ainda mais delicada: o que deve ser priorizado numa análise? Os problemas formais? As limitações conteudísticas? As divergências entre projetos e produtos? As contribuições para o contexto local de visibilidade cinematográfica? A comparação entre os diferentes resultados a partir de um esquema idêntico de investimento? As frustrações pessoais das expectativas críticas? As contaminações ideológicas do “evento” de lançamento?

De uma forma ou de outra, todas essas questões interferem na apreciação dos cinco filmes sergipanos lançados na noite do dia 24 de abril de 2014, numa cerimônia prestigiada por centenas de pessoas, a maior parte delas ruidosamente entusiasmada com o que era exibido na tela improvisada do Teatro Atheneu. Os cinco filmes apresentados na ocasião foram:

 • “Conflitos e Abismos: A Expressão da Condição Humana” (2014, de Everlane Moraes): malgrado o talento inequívoco da diretora e a qualidade gráfica das obras de seu pai, o pintor José Everton Santos, além de novamente abordar questões que tem a ver com a existência pessoal da realizadora, o documentário não possui o mesmo vigor do inventivo “Caixa D’Água: Qui-Lombo É Esse?” (2012), deveras autoral em suas propostas estéticas muito particulares. No filme mais recente, o problema mais evidente é a narração ininterrupta e monocórdia do artista biografado, que soa discursivamente desengonçada [vide o momento em que ele explica o quanto os animais são oprimidos pela “(ir)racionalidade” do homem e, logo em seguida, atesta a suposta inevitabilidade do comportamento carnívoro do ser humano], o que não configura um problema em si (pois o biografado tem o direito de afirmar o que quiser, por mais contraditórias que suas declarações sejam), mas que incomoda pelas translações imagéticas quase omissas da diretora, que comenta estes descompassos por meio de animações óbvias de telas famosas do pintor. Nalguns momentos, máscaras animadas são sobrepostas aos rostos de transeuntes, o que configura ótimos momentos de expressão cinematográfica, mas, noutros, a contribuição actancial de Yuri Alves (por mais esforçada que tenha sido) não acrescenta muito ao que as imagens originais dos quadros já tinham de exorbitantes. Ou seja, até mesmo as benfazejas inserções de contrações faciais de desamparo ou nudez são desperdiçadas na condução pleonástica da narrativa documental, que se encerra abruptamente, como se a montagem definitiva do curta-metragem fosse balizada muito mais pelo prazo de entrega do trabalho que pelas necessidades expressivas da diretora;

 • “Morena dos Olhos Pretos” (2014, de Isaac Dourado): a informação posteriormente divulgada de que este título é apenas um preâmbulo para um bem-vindo e aguardado longa-metragem sobre a cantora Clemilda explica (mas não justifica) a precariedade informativa do curta-metragem. Numa primeira abordagem, o que salta aos olhos, negativamente, é a ausência de depoimentos recentes ou inéditos da própria biografada. Diversos cantores de forró (Genival Lacerda, Erivaldo de Carira, Alcymar Monteiro) prestam suas homenagens locucionais à artista alagoana radicada em Sergipe que lançou, em 1972, o álbum que intitula esta obra. Nas composições, é evidente a sua parceria com Gerson Filho, que participou intensamente da carreira da artista, além de ter se casado com ela, instituindo uma colaboração adicional de “cama e mesa”, como explica a própria cantora. O problema é que esses dados são mal-explicados pela tessitura narrativa do curta-metragem, cuja montagem é ruim, aparentemente fortuita em sua seleção de planos e/ou ordem de depoentes. Num sentido geral, o filme pode ser definido como uma “ode à ausência”, apelido poético que, infelizmente, soa pejorativo, visto que o diretor, apesar de sua proximidade com a extraordinária artista biografada, limita-se a mostrá-la em imagens de arquivo numa entrevista televisiva e nas imagens pessoais do último espetáculo da cantora, no Forró Caju de 2012. Um contra-exemplo documental, portanto;

 • Madona e a Cidade Paraíso (2014, de André Aragão): bastante aplaudido pelo público, este curta-metragem é largamente equivocado em suas opções estéticas. Alguns posicionamentos de câmera (vide o instante em que um diálogo entre as personagens é mostrado por detrás de uma pista de ‘skate’) deixam evidente a pretensão do diretor em se distanciar de uma fotografia tradicional, mas soçobram por causa de sua inorganicidade. Uma exceção deve ser destacada: o gracioso momento em que Madona (caracterização interessante de Ivo Adnil, mas que se desperdiça nas seqüências faladas) e Folosa (Zelda Leite) conversam carinhosamente nas proximidades da Ponte do bairro Santo Antônio, com algumas pedras da beira-mar sendo mostradas em primeiro plano. O contexto permite que a prostituta cantarole a canção de ninar que repete quando encontra o homossexual assassinado na seqüência final, numa rima dramática que só não é melhor por causa da dublagem um tanto canhestra do filme. Outro momento interessante é a participação ‘in loco’ da banda Asas Morenas, no interior de uma casa de meretrício, em que a canção “Eu Sou Virgem”, versão de “Like a Virgin”, de Madonna (o que rende outra valiosa rima formal, desta vez acústica) é executada enquanto o protagonista afetado se requebra e esfrega num palco. Pena que a montagem desta seqüência dissipe o potencial expressivo da mesma, ao esfacelar-se em excesso, tanto quanto acontece no momento em que Madona e Folosa caminham pelo Centro Comercial da cidade de Aracaju. O frenesi de pessoas ébrias no Pré-Caju (constantes de um acervo de imagens previamente filmadas pelo diretor, já indicando a sua intenção de levar a cabo este projeto) impressiona pelo seu realismo elementar, mas parece desconexo em relação ao restante da narrativa, que tenta incomodar duplamente o espectador em seu quartel final (tanto pela inegável violência do modo como Madona é espancada quanto pelos estampidos altissonantes na banda sonora), mas soa artificial, subaproveitada. Ao final da exibição, eram freqüentes os comentários sobre um melhor aproveitamento do filme caso ele fosse intencionalmente ‘trash’ – e não involuntariamente cômico, apesar de suas evidentes (e não de todo rejeitáveis) intenções denuncistas – o que vai de encontro aos arroubos aplaudíveis da platéia. Um dos participantes do filme declarou que haverá uma remontagem posterior do mesmo, com cenas adicionais, que talvez resolva melhor alguns dos conflitos narrativos, mas que ultrapassa o escopo avaliativo do que foi cobrado pelo Edital que o premiou e sob os auspícios do qual está sendo aqui avaliado;

 • “Para Leopoldina” (2014, de Diane Veloso & Moema Pascoini – vide foto): sem dúvidas, o melhor da noite, o mais elaborado em termos de linguagem cinematográfica, que respeita devidamente a duração dos planos e a importância constitutiva das seqüências, não obstante preocupar-se demoradamente com a contratação empregatícia de um personagem deveras irrelevante, por mais que exerça uma função pretensamente interruptiva numa dada seqüência. Salvo por um ou outro deslize de câmera ou enredo (vide o momento em que ambos os problemas confluem, no instante em que a personagem-título interroga uma interlocutora acerca do que ela faz com a própria vida), “Para Leopoldina” é primoroso em sua construção dos planos, chegando a emular uma obra neo-realista de Vittorio De Sica. A interpretação da ótima atriz Diane Veloso é contida e valiosamente taciturna, sobressaindo-se principalmente nas seqüências em que ela é mostrada durante a sua jornada tediosa de trabalho, numa loja de roupas. A melhor cena do filme, inclusive, acontece neste cenário, quando a personagem é focalizada em ‘close-up’, em visível demonstração de infelicidade, diante um pano vermelho, que logo se assume como a proteção têxtil de uma cabine onde as clientes da loja experimentam as roupas que pretendem comprar, num estratagema de reaproveitamento ambiental que tem a ver com consagradas produções orientais recentes. A coadjuvação de Walmir Sandes é também muito boa, visto que a atriz mostra-se muito mais introvertida que de costume, assumindo as dificuldades de sua idade de forma muitíssimo proveitosa para os intentos melodramáticos da trama, que se encerra com um momento de forte impacto (quando sabemos que as cartas que a personagem Lúcia lê para os idosos são desrespeitadas em sua integridade conteudística, a fim de não entristecerem ainda mais os macambúzios internos do asilo) e com um plano de pungente beleza, quando Lúcia caminha demoradamente ao longo de uma alameda e elegantemente abre um guarda-chuva, ao som da trilha sonora original de Leo Airplane e Alex Sant’Anna. Muito bom!;

 • “Operação Cajueiro – Um Carnaval de Torturas” (2014, de Fábio Rogério, Vaneide Dias & Werden Tavares): apesar de ter sido o mais cuidadoso e elaborado dos projetos apresentados para os jurados convocados pela Secult/SE, este curta-metragem foi convertido num documentário esquemático, em que as entrevistas quadriculares são simplesmente justapostas, exceto por uma abertura e por um epílogo jornalísticos. O tema é urgente, o conteúdo das entrevistas é valioso e o título do filme é genial, mas, infelizmente, o documentário falha em sua informatividade. Ou seja, para quem teve acesso ao projeto original ou conheça previamente os episódios concernentes às prisões políticas do Carnaval de 1976, no Estado de Sergipe, os depoimentos de Jackson Barreto, Goisinho, Milton Coelho e Wellington Mangueira  são perfeitamente compreensíveis. Para quem não atende a essas condições espectatoriais, é difícil concatenar as informações, eventos, chagas históricas, detalhes epocais, conformações político-contestatórias e configurações discursivo-sobrevivenciais dos torturados. Ainda assim, o depoimento inicial da mulher que confessa ter “a mania de sorrir até mesmo quando comenta sobre coisas tristes”, antes de cantar a marchinha sobre pó-de-mico que fora lançada nas festividades do ano em que fora presa, emociona e instaura o elogioso contexto de cumplicidade mnemônica com os depoentes, importantes personalidades da política partidária sergipana. Tangencialmente defeituoso no trajeto entre projeto e conformação audiovisual, mas importantíssimo em seu viés documental!

 Após a exibição dos filmes, houve um breve concerto com a Coutto Orchestra de Cabeça, a fim de assegurar que quem estivesse predominantemente interessado em espetáculo não seria agraciado apenas com a audiência aos produtos fílmicos. Entretanto, nem todos se dispuseram a conferir as benesses desta consagrada banda: a maratona de curtas-metragens os exauriu, em sua irregularidade de propostas e feituras. Apesar da intensa inclinação para o âmbito afirmativo do que foi perguntado no título desta publicação, a questão permanecerá astuciosamente em aberto. O desenvolvimento do cinema sergipano exige que as perguntas sejam ainda mais disseminadas que os arremedos entusiásticos (ou gritantes, como aconteceu nos intervalos entre um e outro curta-metragem) de respostas. Que venha o terceiro Edital de incentivo à produção audiovisual!

 Wesley Pereira de Castro.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA (Brasil, 2012). Direção: Luiz Bolognesi.

Viver sem conhecer o passado é como caminhar no escuro”: em mais de uma situação, o protagonista deste filme, interpretado vocalmente por Selton Mello, repete este lema, a fim de despertar o interesse na platéia pelo válido resgate histórico que o filme propõe.

Alegando ter mais de seiscentos anos de idade, este personagem destaca o quanto a sua paixão pela musa Janaína (Camila Pitanga), ao longo dos séculos, contribuiu para que ele se mantivesse vivo e ativo (não obstante apresentar-se como um jornalista fatigado num dado momento), mas quatro núcleos cronológicos serão de importância capital para o entendimento desta paixão tão encrudescida quanto constantemente interrompida: o primeiro deles remonta ao ano de 1565, quando o protagonista assumia a alcunha de Abeguar, índio da tribo dos tupinambás, que, no primeiro instante em cena, perseguia uma onça, animal cuja caçada propicia um rito iniciático de hombridade para o seu ceifador.

Apesar da discrição com que ele se locomove pela floresta, o índio é surpreendido pela apaixonada Janaína, despida sob o couro de um felino. Eles se abraçam, mas logo percebem que estão sendo seguidos por uma arisca pantera, até que pulam de um desfiladeiro e constatam que Abeguar consegue voar. Enfatizando que tal dom volante está atrelado a uma responsabilidade crescente em relação à segurança de sua tribo, ele tem uma previsão assustadora acerca de seu futuro, onde assiste ao assassinato de sua amada e à escravização de seu povo pelos portugueses e reencarna noutras épocas, sempre envolvido nalguma luta política de resistência que o afasta de Janaína. Se isto é um clichê espiritualista de superação romântica? Oficialmente sim, mas o diretor Luiz Bolognesi, estreando na condução de um enredo ficcional (depois de ter roteirizado quase todas as obras de sua esposa Laís Bodanzky) consegue sustentar o interesse tramático nas evoluções narrativas da saga de Abeguar.

 Por mais relevantes que sejam os eventos acontecidos durante o período colonial brasileiro e aqueles relacionados à revolta conhecida como Balaiada (em 1838), estes são tecnicamente prejudicados pelo estilo modernoso da direção, que imprime estratagemas semelhantes aos dos ‘animes’ japoneses nas cenas de derramamento de sangue e justapõe, de forma anacrônica, a eficiente trilha sonora de Rica Amabis, Tejo Damasceno e Pupillo à reconstituição desenhada dos eventos históricos supracitados. A incursão narrativa pelo período ditatorial militar brasileiro e a trama futurista embasada nas atividades guerrilheiras do Comando Água para Todos são superiores porque permitem maior fluidez elementar, além de acrescentarem aspectos pertinentes à composição atormentada do protagonista, como, por exemplo, a delação de seus companheiros revolucionários no final da década de 1960 e a conclusão desiludida de que “viver é travar uma luta a cada dia”, o que afasta o filme da previsibilidade de um final feliz namorativo incondizente com o seu substrato realista, malgrado o personagem ser diegeticamente merecedor da felicidade ao lado da mulher que ama...

 As contribuições de Lucas Santtana, Lenine, Nação Zumbi e 3 na Massa (cuja canção “Morada Boa” é oportunamente regravada por Camila Pitanga) na banda musical são proveitosas, bem como os elaborados traços gráficos do diretor de animação Bruno Celegão Monteiro, mas a montagem excessivamente picotada de Helena Maura na primeira estória e a curta duração do filme (apenas 75 minutos) não permitem que os elementos circundantes à trama romântica sejam internamente desenvolvidos e redundem em momentos discutíveis de afirmação enraivecida, como, por exemplo, quando o militante aprisionado Cao chuta violentamente um rato contra a parede de sua cela ou quando um presidiário apreende, a partir de uma leitura de “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel, que o referido livro é uma incitação à luta armada, o que justifica a sua configuração oitentista como “cangaceiro das favelas cariocas”. Apesar disso, a iniciativa ousada e intencionalmente contestatória do roteirista em relação a uma “História oficial” que suprime ideologicamente a importância dos mártires nacionais deve ser elogiada, tamanha a independência produtiva depositada sobre a feitura de um projeto tão pessoal, levando-se em consideração que são exíguas as experiências brasileiras em animação que não sejam de caráter infantil, principalmente no formato de longa-metragem.

 Se, por um lado, comemora-se que “Uma História de Amor e Fúria” não seja um filme ruim, por outro, deve-se também admitir que ele não consegue fazer jus aos sentimentos poderosos contidos em seu título: ainda que o amor seja emulado do início ao fim, a fúria é eventualmente forçada em suas manifestações conclamatórias (exceção louvável em reação ao estupro no episódio da Balaiada), e, por isso, nem sempre se mostra credível – principalmente no que tange ao viés anticonformista de seu entrecho, que leva o protagonista a concluir que, infelizmente, os seus heróis nunca foram eternizados em estátuas, não obstante os seus inimigos terem sido. Neste aspecto, a representação desmitificada do militar Luís Alves de Lima, futuro Duque de Caxias, enquanto personagem nefando que suprime fatalmente a revolta iniciada por Manoel Balaio foi certeira.

 As situações envolvendo o desvio de água pelo presidente da companhia corrupta Aquabrás na última estória também são muito boas, inclusive em sua crítica sutil e velada aos delírios desenvolvimentistas que podem se instalar a partir da sediação de importantes eventos esportivos no Brasil hodierno e no diálogo sarcástico que Janaína trava diante de um aquário cujo estoque de água (recurso mineral cuja dose é muito mais cara que uísque em 2096!) poderia saciar a sede de milhares de famílias.

Se a interpretação de Selton Mello está aquém do mérito demonstrado em outros filmes e Rodrigo Santoro está pouco perceptível em suas aparições vocais, as personagens dubladas por Camila Pitanga se destacam pela sensualidade decalcada a partir de sua figura humana, merecendo realce a seqüência novamente anacrônica (mas nem por isso menos formosa) em que, num futuro tecnocrático, Janaína aparece cantarolando uma suave cantiga de MPB. Tal como o personagem principal, o filme soçobra em suas práticas amantes, mas não em seu elã enfrentador. Oxalá o tempo lhe retribua a ousadia e o pioneirismo setorial num gênero cinematográfico bastante subestimado e/ou desacreditado no Brasil!

 Wesley Pereira de Castro.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

007 - OPERAÇÃO SKYFALL ('Skyfall') Inglaterra/EUA, 2012. Direção: Sam Mendes.

Num livro em que deslinda os processos constitutivos do que define como cinema hipermoderno – ou seja, o cinema “livre das normas passadas, dos freios e obstáculos, das convenções estéticas e morais de outrora” – o filósofo Gilles Lipovetsky menciona a imagem-distância como sendo aquela que identifica o filme como algo que recua referencialmente em relação a si mesmo e, como exemplo paradigmático desta tendência, cita a recente contratação de Daniel Craig como intérprete do famoso agente secreto britânico James Bond. Segundo o autor, o primeiro dos filmes com o espião protagonizados por este novo astro [“007 – Cassino Royale” (2006, de Martin Campbell)] “se apresenta como um distanciamento quase crítico da série, pela escolha de um intérprete fisicamente diferente, de uma violência seca e de uma melancolia desencantada no tom”, caracterizando o recuo iconoclasta e/ou referencial embutido na sua definição de hipermodernidade cinematográfica.

Polêmicas conceituais à parte, o diagnóstico sobre o personagem que Gilles Lipovetsky menciona em “A Tela Global” cabe perfeitamente na análise deste “007 – Operação Skyfall” como um dos melhores da franquia, visto que, dentre todos os filmes envolvendo o agente britânico nas últimas duas décadas, ele é o que mais avança neste recuo referencial e assume-se com uma homenagem legítima aos tempos áureos da cinessérie, quando ela era realmente cultuada pelo público e seus episódios não eram apenas despejados no mercado como meros ‘blockbusters’ entupidos de explosões e efeitos especiais deslocados.

 Nesse sentido, a inusitada opção pelo diretor dramático Sam Mendes na condução desta aventura diz muito sobre os variegados méritos deste filme, que, para além de suas bifurcações temporais – tão legitimadas pelas convenções da diegese quanto as distâncias impressionantemente ultrapassáveis de um continente a outro – fecha um ciclo em relação aos vinte e dois capítulos “oficiais” anteriores (sem contar três títulos não produzidos por Albert R. Broccoli, detentor dos direitos autorais dos romances com o personagem), de modo que, se houvesse uma lógica produtiva estrita na produção destes longas-metragens hodiernos, o próximo filme a ser lançado seria uma regravação do ótimo “007 Contra o Satânico Dr. No” (1962, de Terence Young).

 Conforme antecipado por Gilles Lipovetsky, um dos principais estranhamentos trazidos à tona com a vinculação de Daniel Craig ao personagem James Bond está em sua sisudez monogâmica, bastante distinta do caráter bonachão e perenemente lascivo das célebres vivificações de Sean Connery e Roger Moore. Se, no já citado “007 – Cassino Royale”, o que laureia a produção é justamente a falibilidade do personagem – bastante humanizado, afinal de contas – o filme seguinte [“007 – Quantum of Solace” (2008, de Marc Forster)] demonstra-se como um dos mais fracos da cinessérie por causa de sua linearização factual (o contato direto com o final da trama do filme imediatamente anterior rompe a liberdade narrativa dos filmes predecessores) e de sua adesão renitente aos clímaxes amorfos, que acrescentam muito pouco à evolução psicológica do personagem, que, nos filmes contemporâneos, protagoniza “preqüências” das ações levadas a cabo pelos demais intérpretes.

“007 – Operação Skyfall” supera o demérito disfuncional e revela-se como uma das melhores aventuras do personagem justamente por restituir a sua dignidade viril (em nível freudiano, inclusive, visto que o trauma da morte de seus pais durante a infância é assumida como a causa de sua conhecida rebeldia, segundo um diagnóstico intrafílmico) e dialogar com os aspectos minuciosos que tornam as produções das décadas de 1960 a 1980 absolutamente geniais em sua capacidade de fazer com que os ancestrais fílmicos do subgênero ‘ação’ sejam urdidos pela inteligência de seus enredos e aparições vilanescas.

Os diálogos recorrentes envolvendo um conflito entre a “velha guarda” da espionagem e as novas práticas profissionais – vide o primeiro encontro entre James Bond e o jovem Q (Ben Whishaw), em que canetas explosivas são descartadas do cardápio tecnológico do espião por serem consideradas antiquadas, e os embates entre M (Judi Dench, sempre majestosa) e o burocrata Gareth Mallory (Ralph Fiennes) sobre os ônus políticos e bélicos do final da Guerra Fria [“continuamos lutando nas sombras...”]– pontuam o roteiro de Neal Purvis, Robert Wade e John Logan com esperteza calculada, encontrando eco magistral na cena em que James Bond “seqüestra” M utilizando um modelo imponente de automóvel clássico (justamente utilizado pelos 007’s de outrora) e na assunção aguardada da personagem de Naomie Harris como sendo a espirituosa (e onipresente nos filmes primevos) senhorita Eve Moneypenny. Ou seja, o cuidado que Sam Mendes dedica em suas obras pessoais à valorização (não apenas nostálgica, mas historicizada) do passado foi definitiva para a genialidade detectada neste ótimo filme.

 Não obstante a obsessão por “entradas triunfais” do vilão afetado e muitíssimo bem-interpretado por Javier Bardem justificar um blague mui coerente de 007, o contraste irregular entre a imponência de seus primeiros momentos em cena e a sua derrocada súbita aparece como um dos poucos defeitos estruturais significativos desta obra. Ainda assim, a seqüência que o ex-agente Silva explica a 007 a razão de seu ódio vingativo por M a partir de uma anedota metafórica sobre as mudanças induzidas nos comportamentos de ratos insulares, que, a partir de um confinamento forçado, passariam a se alimentar de sua própria espécie (mais ou menos como os traidores nos filmes de espionagem) é exímia em toda a sua extensão, incluindo a inaudita suspeição de indícios homossexuais no histórico de James Bond, visto que, quando Silva alisa as suas coxas, com intuito assumido de deflorá-lo eroticamente, 007 retruca: “quem te disse que esta seria a minha primeira vez?”. 

O assassinato tragicamente estilizado da prostituta Sévérine (Bérénice Marlohe) e o modo sutilmente anunciado com que Silva é esfaqueado enquanto suplica para que M utilize uma mesma bala para dar fim à sua vida e à dela própria confirmam a grandiosidade compositiva deste personagem, obliterada momentamente durante o tiroteio ocorrido na residência em que James Bond morou quando criança e que explica o título do filme, visto que “Skyfall”, palavra que ele se recusa a comentar durante um teste psicotécnico, nada mais é que o nome da chácara onde ele vivia com seus pais falecidos. Mais: o retorno de James Bond ao território que valida a crença de M de que “os órfãos são os melhores recrutas” conecta-se brilhantemente à vinheta musical de abertura do filme, em que a cantora Adele interpreta uma belíssima canção homônima, enquanto signos inicialmente cifrados de um veado, de uma sala de espelhos e de túmulos desfilam para tela, para que, afinal, desemboquem e sejam desvendados com o animal que identifica a propriedade dos Bond, com o estratagema que James ensina a seu criado para que ele atire nos capangas de Silva sem ser atingido e com a descoberta da lápide onde lê-se os nomes de ambos os pais (Andrew e Monique Delacroix Bond) do agente, falecidos na infância do mesmo em condições misteriosas, porém traumáticas e determinantes no enrijecimento de sua personalidade aventureira.

 Emoldurando definitivamente a qualidade superior deste filme, temos: a já citada assunção da senhorita Moneypenny e a sua função acessória enquanto amante perpetuamente disponível do agente; a morte da feminina M e a sua substituição mandatária pelo personagem de Ralph Fiennes; a ótima trilha sonora de Thomas Newman, companheiro habitual do diretor, que se funde organicamente com os eventos e não apenas os acompanha pleonasticamente; a maravilhosa direção de fotografia de Roger Deakins, particularmente deslumbrante no último quartel do filme; a recorrente menção ao luto no roteiro, em contextos tramaticamente oportunos (o elíptico obituário de James Bond, a fatalidade do destino de Sévérine, o presente destacado por M em seu testamento, o funeral dos agentes da MI6 mortos num atentado a bomba, a malfadada tentativa de suicídio narrada por Silva); e a encarnação definitiva de Daniel Craig como um cínico mulherengo, emulando principalmente a subestimada e dramática encarnação unitária de George Lazenby como o personagem, no excepcional “007 a Serviço Secreto de Sua Majestade” (1969, de Peter R. Hunt).

Como acontecia no passado, o alinhamento de aventuras alucinantes não prejudica o estatuto artístico do filme: “007 – Operação Skyfall” é, portanto, o bem-sucedido coroamento de um ciclo, no qual Daniel Craig torna-se internamente merecedor do pronunciamento do jargão característico “Bond. James Bond”! Que ele faça bom uso de seu laurel verbal nas produções vindouras...

 Wesley Pereira de Castro.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

RAUL - O INÍCIO, O FIM E O MEIO (Brasil, 2011). Direção: Walter Carvalho, Evaldo Mocarzel & Leonardo Gudel.

A descrição da estereotipada entrada em cena do escritor Paulo Coelho, personalidade importantíssima na compreensão reconstitutiva de quem teria sido Raul Santos Seixas, é fundamental para se entender o que este documentário tem, ao mesmo tempo, de mais interessante e de mais problemático: acendendo lentamente um quarteto de velas, não obstante o espaço em que ele está sentado já estar bastante iluminado, o escritor antecipa-se em dizer que o seu antigo colaborador musical é uma lenda e, como tal, “não se conta a história de uma lenda, conta-se a lenda”.

Tal depoimento, tão risível quanto despropositado, é seguido por alguns planos metalingüísticos, em que o escritor perquire a equipe técnica do filme acerca dos locais onde as câmeras estarão posicionadas. O que se detecta com isso: 1 – que o documentário respeitará a liberdade dos entrevistados em falar o que quer que seja sobre o extraordinário personagem biografado; e 2 – apesar de Raul Seixas já ser um chamariz mais do que imponente, o filme quer chamar também a atenção para si, através de recursos pretensamente humorados de linguagem que perigam descambar a qualquer momento para um sensacionalismo dramático, o que, de fato, acontece nas supérfluas seqüências mostradas após a exibição regressiva de fotografias do cantor, desde a sua maturidade até a sua infância.

 Pesando-se ambos os indícios, entretanto, o filme foi bem-sucedido em seu retrato amplo de um dos mais originais artistas brasileiros, ainda que seja peculiar perceber que, em seus 130 minutos de duração, o roteiro do co-diretor Leonardo Gudel oblitera ou aborda superficialmente fases determinantes da carreira multifacetada do músico, como a sua inclusão tangencial na Jovem Guarda ou a composição da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, em 1971. Entretanto, no que diz respeito a uma inteligente correlação entre a vida pessoal [e, principalmente, (para)conjugal] do roqueiro e suas canções mais famosas, o filme revela-se bastante meritório.

 Iniciado coerentemente com algumas reminiscências de parentes e amigos de Raul Seixas sobre os seus primeiros contatos com as músicas e filmes do ídolo Elvis Presley, as bandas de que participou na adolescência e os conselhos masturbatórios que lhe seriam bastante úteis em noites de insônia, “Raul – O Início, o Fim e o Meio” logo revela um de seus primeiros clímaxes emotivos: a leitura de uma carta, através do Skype, em que a sua primeira esposa, Edith Wisner, expressa o seu desinteresse em participar do filme, visto que falar sobre seu ex-marido equivaleria a desenterrar muitas memórias tristes. O sub-enquadramento cibernético no interior da tela (repetido em diversas seqüências posteriores, como, por exemplo, no depoimento filmado de Marcelo Nova sobre a morte do protagonista) cria um incômodo proposital que reflete muito bem o próprio incômodo metonimizado pela mulher, que disfarça com eximiedade a afetação sentimental durante a leitura – em inglês – de sua carta. Em seguida, a bióloga Simone Wisner relata objetivamente o pouco que se lembra do seu pai biológico, já que fora reculturalizada nos EUA quando sua mãe se casou com outro homem. E, sintomaticamente, o distanciamento emocional de ambas as mulheres acerca da personalidade muito passional de Raul Seixas adiciona um elemento conflituoso muito bem-vindo ao documentário, que, até então, nos seduzia com as divertidas historietas de seu amigo de infância Waldir Serrão, inclusive no que diz respeito às condições chistosas da cerimônia de casamento entre Raul e Edith.

 À medida que a narrativa do filme avança no deslindamento das diversas fases de sua carreira e de sua vida pessoal, minimamente entrelaçadas, conforme já dito, somos apresentados às outras esposas e/ou companheiras do cantor, cada uma delas expondo com muita percuciência detalhes cabais de seus relacionamentos. Há um destaque temporal muito justificado para a norte-americana Gloria Vaquer, que o acompanhou no apogeu da fase em que o cantor se filiara, com Paulo Coelho, aos ditames da Sociedade Alternativa inspirada no bruxo Aleister Crowley, que inspira algumas das mais divertidas passagens do filme, a cargo da entrevista com o escritor que vive em Genebra e, numa cena hilária, é perseguido por uma mosca justamente quando comentava sobre algumas das mais inspiradas composições conjuntas com o amigo baiano.

A transição narrativa entre a rememoração da convivência com Gloria, com quem Raul Seixas teve uma filha – Scarlet, batizada em homenagem a uma obra de seu bruxo inspirador, e bastante emocionada quando surge em cena – para a mancebia com Tania Menna Barreto tem como elemento positivo a comparação entre as personalidades do introvertido Paulo Coelho e do expansivo Cláudio Roberto, transmutada numa análise qualitativa de ambas as parcerias que é reproduzida pelo filme através de uma briga de galos que, num momento seguinte, é brilhantemente diegetizada, visto que estes galináceos faziam parte de uma criação pessoal na fazenda do segundo compositor. Tal recurso lingüístico, aliás, reaparece de forma ainda mais genial no depoimento de Lena Coutinho, mulher por quem se apaixona depois que se separa de Kika Seixas – com quem também teve uma filha, Vivian – e que justifica os comentários sobre o odor supostamente doce (ou floral) do cantor através da explanação de que isso já poderia ser uma característica externa de seu diabete. Proceder esta fala plena de realismo poético com as espalhafatosas intervenções da produtora Maria Juçá Guimarães – que aparece numa gravação em vídeo esbravejando contra uma platéia insatisfeita e, na entrevista para o filme, mergulha numa piscina com água suja após o seu depoimento – foi um recurso muitíssimo acertado por parte dos diretores do filme, bem como a pitoresca situação em que o guitarrista Jay Vaquer interrompe um relato para demonstrar que carregava uma arma consigo.

Por fim, diante da impregnação positiva de informações historicizadas (ao contrário do que sugerira o afetado Paulo Coelho) sobre quem teria sido o lendário Raul Seixas, o filme demonstra-se equivocado quando inclui participações pouco relevantes de fãs comentando sobre particularidades e conseqüências onomásticas do artista (vide a inexplicável aparição do ator Daniel de Oliveira), quando convoca o pernóstico jornalista Pedro Bial para estabelecer julgamentos imprecisos sobre a trajetória do cantor ou quando desdenha os aspectos pouquíssimo debatidos sobre as já comentadas vinculações do roqueiro com a Jovem Guarda, por exemplo.

Porém, os momentos laudatórios do filme são mais numerosos: a breve porém fundamental aparição de Edy Star rechaçando a propalada (e, afinal, infundada) homofobia do cantor; a análise reverencial de Caetano Veloso acerca da belíssima canção “Ouro de Tolo”; a magnífica interpretação do genial Tom Zé (que demora a surgir num enquadramento que o espera por detrás de uma porta) para sua composição “A Chegada de Raul Seixas e Lampião no FMI”; a rememoração da mãe do biografado, Maria Eugênia Santos Seixas, sobre o dia em que fora torturado pelo Exército e deportado do País; o reencontro de Raul Seixas e Paulo Coelho, em pleno palco, depois de anos sem se verem; e, principalmente, a relevância concedida à empregada do artista, Dalva Borges, que hesita e não responde duas perguntas cruciais sobre o relacionamento do cantor com o ex-vocalista da banda Camisa de Vênus, Marcelo Nova, na última e mais delicada fase de sua carreira. Infelizmente, Dalva também protagoniza a pior cena do filme, uma constrangedora reconstituição do dia em que ela encontrou o cantor morto em sua cama, num registro apelativo que trai sobremaneira a fidedignidade depoimental de todos os participantes do filme, até mesmo do paraibano Zé Ramalho, que aparece apenas alguns segundos em cena. Com certeza, este é um documentário-chave para qualquer um que declame (ou teime em aceitar) que, de fato, como muitos alegaram durante a projeção, Raul Seixas foi um dos mais extremos artistas contraculturais do Brasil. Impossível não se tornar ainda mais seu fã depois desta apaixonada declaração de amor a sua vida e ao seu legado!

 Wesley Pereira de Castro.