sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Olhar de Cinema: O SONHO DO INÚTIL (2021, de José Marques de Carvalho Jr.)


"Essa é a coisa mais estúpida que vou fazer em minha vida estúpida", diz o diretor-personagem, num dos vídeos antigos que compartilha. Infelizmente, este laudo avaliativo aplica-se muito bem, enquanto metonímia, ao documentário atual, um compêndio de flertes ideologicamente hipócritas (sem que se perceba, muitas vezes) que talvez sirva enquanto contraexemplo moral, confirmando em via invertida a declaração messiânica que o diretor profere ao revisitar suas imagens de adolescência. Se este filme serve para mudar a vida de alguém, talvez o faça através do jargão "não façam isso em casa". Horrendo do início ao fim!


Há diversos momentos-chave que atestam o quão problemático - no pior dos sentidos - é este filme: o reencontro forçado entre Aluã e sua mãe, que é confrontada violentamente quando tenta eliminar rancores antigos, é um dos mais evidentes, mas faz-se mister destacar um pronunciamento pseudo-solene que hipertrofia o perigo oximoriano deste título. Com uma garrafa de uísque servindo como microfone, é perguntado a um dos integrantes da trupe Inútil qual o objetivo do grupo. O jovem Aluã responde: "acabar com toda ambição". Segundos depois, na atualidade, o mesmo Aluã afirma: "para realizar nossos sonhos, vale a pena fazer qualquer coisa". Pausa dramática, onde ri-se para não chorar de desespero.


Se o filme demonstra-se absolutamente execrável em todos os seus aspectos  (moral, discursivo, técnico, etc.), ao menos ele esforça-nos por apresentar-nos à trajetória de um grupo espirituoso de amigos, cujos destinos obedeceram às pré-determinações do Capitalismo: o carismático filho de um policial que morre num confronto com a Polícia; um pai de família que chora ao lembrar que, "no Dia dos Pais, embalava o presente mas não tinha para quem entregar"; alguns 'rappers' que esquecem os próprios versos enquanto cantam; e o diretor-narrador, que assume que esteve depressivo no auge de sua carreira. Ao menos, ele tentou?!



Wesley Pereira de Castro. 

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Olhar de Cinema: ZINDER (2021, de Aïcha Macky)


Nos letreiros iniciais, a diretora assume uma postura emotiva diante de seu tema fílmico: declara-se "filha de Zinder", de modo que seu olhar sobre a criminalidade ubíqua na região titular não pode ser acusado de condescendente, pois ela tenta compreender a instituição da violência por dentro. De maneira enciclopédica, estes letreiros explicam que esta cidade é habitada sobretudo por párias e leprosos, de modo que o desemprego e a decorrente marginalização das pessoas surge como inevitáveis, lastros de um determinismo social que não exclui o lucro para exploradores forâneos. E, ao invés de criar provas que possam prejudicar ainda mais seus convivas, a cineasta esforça-se para compreender como algumas mazelas são perpetuadas... 


Deparamo-nos, de imediato, com uma seqüência chocante: dois negros musculosos, numa motocicleta, carregando orgulhosamente pelas ruas uma bandeira branca com pinturas de vários símbolos nazistas. Na cena seguinte, um destes homens - proprietário da Academia Hitler - explica o seu fascínio por "um norte-americano muito valente", cuja bravura o inspira. O que ele sabe sobre o Führer é completamente deturpado, e adequado às suas conveniências sobrevivenciais: este homem gosta de ser fotografado exibindo seus músculos e de ser filmado erguendo uma motocicleta com as mãos, com dois homens montados nela. Podemos culpá-lo por isso? 


Através de uma hábil narrativa docudramática, a diretora apresenta-nos a três situações concomitantes daquela região: a academia supracitada, cujos membros são continuamente presos, por causa de agressões, roubos e outros delitos; as rondas noturnas de um segurança através de um bairro destinado ao meretrício, onde entristece-se bastante ao perceber que garotas cada vez mais jovens estão se prostituindo; e a saga da contrabandista de gasolina Ramsés, que define-se como "meio-mulher, meio-homem". Nos interstícios, as atividades cansativas de homens que quebram pedras nas usinas de urânio que mantêm a pobreza interna da nação nigerense - em detrimento do enriquecimento internacional com a exploração desse minério - e a banalização da violência cotidiana, seja quando crianças são ouvidas trocando murros nas cercanias de um salão de cabeleireiro ou quando os membros da Academia Hitler assistem a um vídeo em que pessoas são apedrejadas até a morte por causa de conflitos étnicos, numa aldeia vizinha. 


Em meio a tudo isso, a diretora evita julgar (seqüencias de julgamento, ao invés disso, aparecem - num tribunal): ela prefere agradecer aos seus professores e mentores por ter conseguido realizar este contundente longa-metragem, "dedicado à juventude de seu país". Nos testemunhos em primeira pessoa, os homens vangloriam-se de suas cicatrizes, enquanto as mulheres lamentam as feridas ainda abertas. O filme é muito exitoso em sua proximidade expositiva, portanto - vide o relato árduo em que um estupro coletivo é descrito, seguido do modo como um desses estupradores foi reeducado por uma ONG humanitarista, e a transmissão de um debate radiofônico sobre as causas abundantes do contrabando de combustível na região. Por mais violento que o filme seja, Aïcha Macky consegue registrar a beleza das reabilitações! 


Wesley Pereira de Castro. 

Olhar de Cinema: DEUS TEM AIDS (2021, de Fábio Leal & Gustavo Vinagre)


Ambos os diretores deste filme têm uma relação extensa e mui desenvolta com a sexualidade, geralmente mostrada de maneira transgressiva, em razão de a naturalidade do sexo ainda ser considerada um tabu. Como tal, esperava-se que este documentário possuísse uma similar intensidade na opção pelo escândalo, visto que o título evidencia a frontalidade na abordagem do assunto, ainda evitado ou insuficientemente tratado até mesmo por políticos e personalidades progressistas. O modo como o filme é organizado, entretanto, evita a abordagem explícita e objetivamente didática, ainda que seja inevitável a necessidade de compartilhar experiências sobre um tema tão incômodo - e este é o grande mérito do roteiro: a abordagem é pessoal, a partir das vivências (tão íntimas quanto públicas) de um grupo de entrevistados... 


Logo no começo, um enfrentamento midiático é requerido: enquanto vemos imagens televisivas mal sintonizadas, ouvimos narrações jornalísticas que apresentam a AIDS como doença associada à promiscuidade sexual, abordagem moralista que era comum nas décadas de 1980 e 1990 e que, ainda hoje, é indecorosamente perpetuada. O primeiro depoente confunde-se ao responder uma determinada pergunta, no afã por compartilhar com a equipe como contou para a sua família que havia descoberto que era soropositivo. O processo de identificação empática é imediatamente estabelecido: como não há legendas identificando imediatamente quem são aqueles depoentes - quase todos envolvidos com expressões artísticas - transferimos para eles a impressão de casualidade. São pessoas como nós que, de repente, perceberam-se julgados pela sociedade por estarem doentes. E isso é o que mais nos aflige após a sessão, quando letreiros cotejam tudo o que testemunhamos aos depoimentos e medidas genocidas do atual presidente Jair Bolsonaro. Cabe a nós, enquanto espectadores conscientes, despojar-nos dos preconceitos que ainda retroalimentamos - quiçá inconscientemente - sobre a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida... 


Como era de se esperar num trabalho que reúna os talentos erotógenos destes ótimos diretores, o clímax do documentário é uma performance impressionante, no qual um artista retira seu próprio sangue com uma seringa e depois o insere no orifício anal, antes de deixar-se ser penetrado pelo cabo de uma faca, envolto num preservativo. Em sua fala, a confirmação de algo que perpassa os trabalhos prévios dos realizadores: "gosto de encarar os olhares embaraçados de quem assiste". O choque é necessário enquanto comunicação afetiva, num viés completamente distinto do tipo de alarde contido em obras como "AIDS, Furor do Sexo Explícito" (1985, e Fauzi Mansur) ou "Estou com AIDS" (1986, de David Cardoso). De acordo com o que percebemos neste filme mais recente, ser soropositivo é uma mera circunstância, uma casualidade que, como chama a atenção um pediatra, geralmente é sabida através de terceiros, como se fosse uma fofoca (ainda que bem-intencionada). O diferencial do filme está no modo afirmativo com que os contaminados falam sobre suas próprias vidas, demonstrando que estas não precisam nem devem estar limitadas a questões referentes a tratamentos médicos ou restrições patológicas. Um aidético fode como qualquer outro!



Interessante ressaltar a maneira como alguns adjetivos aparecem no filme, visto que o respeito aos depoimentos permite que, eventualmente, eles se contradigam. Um dos entrevistados, por exemplo, rejeita os discursos excessivamente positivos, no sentido de que, enquanto pessoa deprimida, "não existe ninguém mais negativo do que ele". Não por acaso, é justamente ele o autor da poesia cujo título também batiza o filme, que aborda tematicamente questões como o racismo, a transfobia e outras chagas inorgânicas dos brados identitários. Um dos entrevistados dança sem roupa, na cobertura de um prédio, e uma delas anda pelas ruas, carregando um letreiro eletrônico onde lê-se "eu não vou morrer". São situações que poderiam ser feitas por qualquer um de nós, tanto quanto descobrirmo-nos doentes, de uma hora para outra, após um encontro sexual. Entre as suas competências acessórias, é como se este filme tivesse um viés missionário, mais uma vez aproveitando a urgência dogmática do título: é também positivo ser soropositivo!



Wesley Pereira de Castro. 

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Olhar de Cinema: O DIA DA POSSE (2021, de Allan Ribeiro)


 Logo no início, o protagonista (real) deste filme compartilha com o espectador uma sinopse que já ensaiara para esta obra, e serve-se de uma voz empostada para descrever a própria jornada de exibicionismo programado de que fará parte: estamos em 2020, quando as pessoas ainda estavam acostumando-se à atípica quarentena sugerida como estratégia de proteção contra a COVID-19. Sabemos que este protagonista, Brendo Washington, é baiano e é estudante de Direito. Aparentemente, é o parceiro romântico do próprio diretor, que o menciona orgulhosamente nas videochamadas com os pais. E é repleto de pantins geracionais!


Esse julgamento pessoal poderia ser gratuito e soar agressivo se este não fosse justamente o tema exordial do filme: antes da supracitada sinopse metalingüística, Brendo e Allan são mostrados filmando e conversando sobre os hábitos dos vizinhos. Ao ser questionado se estes também estariam imaginando o que eles fariam naquele instante, Brendo dispara: "claro que sim, as pessoas adoram falar da vida dos outros!". O personagem quase não possui nuanças: é uma caricatura assumida de nordestino instalado no Sudeste, cuja mãe queria que ele estudasse Medicina, que adora o programa de TV "Big Brother Brasil" e que tem a quase certeza de que, um dia, será presidente da República. Um documentário interessantíssimo poderia surgir deste ponto de partida, mas o modo como o filme é montado não permite que o cotidiano desenrole-se: tudo é ostensivamente ensaiado, posado, inatural. Em seus depoimentos senso-comunais, o personagem despeja cacoetes acusatórios e generalizantes, seja quando gaba-se de ser um exímio lavador de pratos seja quando critica a "elite que tem preconceito contra telenovelas". A construção do personagem parece o decalque apressado de um identitarista facebookiano, que zomba de si mesmo - e destas impressões destacadas - a fim de desautorizar previamente qualquer crítica em contrário. Estratégia advocatícia, talvez? 


Ao analisarmos depreciativamente os comportamentos externados por Brendo - que, necessário frisar, só estão sendo aqui mencionados enquanto componentes fílmicos - incorremos inevitavelmente em reações estruturais de preconceito que explicam a conjuntura polarizada do Brasil atual, tema transversal do filme. Neste sentido, o documentário possui serventia enquanto exposição espontânea de como surgem alguns chistes discursivos que pecam pelo imediatismo argumentativo (os chamados "memes"), mas mesmo este aspecto é obliterado por uma conformação factual que oscila entre o pleonástico e o tautológico. Não há qualquer sutileza no filme: Brendo insiste em categorizar o seu parceiro como "cineasta experimental", definindo rapidamente esta expressão adjetiva por causa do modo como ele não se preocupa com cenários, figurinos e afins (o que demonstra-se falso a posteriori); como Brendo é baiano, há uma locução que lista diversas personalidades que saíram de cidades interioranas para tentarem a vida na cidade grande, onde ouvimos nomes tão díspares quanto Belchior e Ana Moser; nos ensaios de cerimônias de posse governamental que tanto fascinam Brendo, a declaração de que ele é médico e advogado torna-se obrigatória. 


Não obstante o próprio personagem elucubrar sobre as pessoas "estarem sempre representando no dia-a-dia", seus gestos são balizados pelas aparências institucionalmente autorizadas, como infelizmente sói acontecer nas duas profissões que ele tanto repete. Não se duvida que o diretor e seu ator principal, amigo e amante, sejam encantadores e simpáticos na dita "vida real", mas, do modo como aparecem nestas gravações, o governo daquele que "percorreu um caminho lúdico até perceber que era pobre" chafurdará na inconsistência das fachadas. Quem sabe ele tenha mais êxito "sendo ele mesmo" ao ser selecionado - tomara! - para o "Big Brother Brasil"... 



Wesley Pereira de Castro. 


quarta-feira, 22 de setembro de 2021

DORA E GABRIEL (2020, de Ugo Giorgetti)


Mais de um crítico destacou, a propósito deste filme, que, mesmo tendo sido realizado antes da pandemia do CoronaVírus, ele sintetiza muito bem as conseqüências psicológicas (portanto, sociais) do confinamento - e isso ocorre sob um viés eminentemente político: dentro de um porta-malas, ao perceber que a desconhecida que foi seqüestrada ao seu lado passa mal, Gabriel (Ary França) tenta consolar-lhe da maneira mais imediatamente motivadora possível, "precisamos resistir". Ela, por sua vez, muito mais desconfiada, indaga o motivo de os bandidos não terem sido apreendidos pela polícia: "talvez eles pareçam gente boa, gente normal". Da maneira como estas sentenças são pronunciadas, elas dizem muito sobre o nosso desamparo nacional, mediante o seqüestro do Brasil pelo bolsonarismo. 


A despeito de esta profecia política ser bastante funcional, são múltiplas as abordagens metonímicas constantes em "Dora e Gabriel": ela, por exemplo (vivida por Natalia Gonsales), insiste em ver o rosto de seu companheiro de aprisionamento, tão logo compreende que fôra seqüestrada. Ao perceber que Gabriel fala com sotaque libanês, exclama que ele é muçulmano e, por extensão, terrorista. Ele, por sua vez, responsabiliza-a indiretamente por ter sido capturada: "o que uma mulher como tu estavas fazendo sozinha à noite?". As primeiras impressões entre ambos são permeadas pelos mesmos preconceitos diuturnos, que, em sociedade, involuntariamente permitimos que sejam retroalimentados... 


O fato de passar-se quase inteiramente num ambiente fechado e de ser conduzido pelos diálogos não confere ao filme uma atmosfera teatral. Pelo contrário, o esmero directivo de Ugo Giorgetti - verdadeiro analista dos interstícios paulistanos, em lógica amplamente humanista - converte o enredo numa potente metáfora cinematográfica, que nos faz pensar nas teorias de Jean-Louis Baudry [1930-2015] sobre os "efeitos ideológicos produzidos pelo aparelho de base". Afinal, enquanto hipertrofia metalingüística do papel espectatorial, os personagens encontram-se num estágio requerido pelas projeções fílmicas, onde manifestam-se a suspensão de motricidade e a predominância da função visual, segundo o autor. A diferença é que o homem "enxerga" um pouco mais que a mulher, tendo acesso a resquícios do espaço exterior através de um pequeno buraco no capô do veículo. Mais uma crítica sociológica contundente, portanto. 


Se a iluminação do porta-malas talvez pareça inverossímil, isso é bem justificado pelas convenções narrativas intrínsecas, de modo que a direção fotográfica de Walter Carvalho é mui assertiva na aplicação dos questionamentos hitchockianos: os personagens sabem que são observados por olhos alheios - que também são os nossos, espectadores - e interpretam os sons que ouvem como antigos 'benshis' narravam as tramas dos filmes mudos no Japão. No desfecho, um mistério que confirma a extrema autoralidade do diretor: ainda que possua elementos em comum com quase todos os seus filmes, é em relação ao média-metragem "A Cidade Imaginária" (2014) que esta produção recente mais se assemelha. As (des)esperanças do percurso superam as frustrações da chegada: mais uma vez, tudo a ver com o Brasil atual!


Wesley Pereira de Castro.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

A FAMÍLIA MITCHELL E A REVOLTA DAS MÁQUINAS (2021, de Michael Rianda & Jeff Rowe)


Em sentido geral, o roteiro deste filme é um entulhamento de clichês. Prevemos como as situações belicosas serão resolvidas e identificamo-nos tangencialmente com os dilemas enfrentados pelos personagens: quem nunca teve problemas para ser aceito por (e/ou aceitar) a própria família? A diversão, portanto, é garantida, ainda que o filme seja atravessado por inevitáveis contradições: para que as máquinas sejam derrotadas, é essencial que existam máquinas lutando contra elas. Para que a tecnologia não destrua a harmonia familiar e a pujança dos valores humanos, depende-se justamente das intervenções tecnológicas. "Fomos salvos por causa de nossas falhas", concluem dois robôs adotados pela família titular, depois que passam a apresentar defeitos de programação. A mensagem é clara, não é? 


Para além de sua linguagem rápida, do recurso aos 'memes' como complementos animados e das abundantes referências 'nerds', o filme é muito hábil no manuseio de suas convenções enredísticas - e até mesmo surpreendente ao ousar que a protagonista seja respeitada como lésbica. As intenções fílmicas são as mais intencionadas possíveis, não obstante a aparência maniqueísta de alguns embates. No desfecho, 'boomers' e "geração Z" aprendem a conviver harmonicamente, utilizando as suas diferenças em prol da resolução de conflitos domésticos e até mesmo mundiais. Não por acaso, os andróides incomodam-se com humanos que imitam o seu jeito robótico de andar: "estes estereótipos machucam"!


É quando a sessão termina que a elaboração discursiva do filme funciona melhor: numa animação demarcada pelos chavões - em que a terminologia cara a quem usa Instagram é requisitada -  o apelo à conciliação irrestrita entre personalidades opostas surge enquanto manifesto: nalgum momento de nossas vidas, todos nós somos obrigados a desistir de algo por amor a outrem. Extremismos passionais redundam em intolerância, quando não são cotejados ao bem estar comunal: fazendeiros, professores, fãs de dinossauros e cinéfilos podem relacionar-se em esplêndida harmonia, desde que saibam apoiar-se nos instantes em que a união é requisitada. Comparar-se com os demais é absolutamente não recomendado: aceitemo-nos e amemo-nos como somos!


Tudo isso aparece no filme de maneira consoante ao fluxo irrefreado de informações na contemporaneidade: a tecnologia não é boa nem má, mas depende de quem a controla. Idem quanto às regras de convivência local. O problema é quando ignora-se a lógica capitalista que, em sua hipertrofia sistêmica, a tudo assimila, a tudo cerceia. A adolescente Katie Mitchell, na urgência por ser admitida em sua "tribo" universitária, comporta-se como um alter-ego da "equipe de humanos" que realizou o longa-metragem, o que justifica o tom adesivo desta resenha. As fotos de infância mostradas nos créditos finais confirmam a efetividade desta opção crítica. Idem quanto à simpatia do cachorro Monchi e ao charme maléfico da voz de Olivia Colman como vilã digital. É um filme ideal para ser conferido em família: faz jus ao seu título! 



Wesley Pereira de Castro. 

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

DANÇAS NEGRAS (2020, de João Nascimento & Firmino Pitanga)


O grande problema deste documentário está em seu título: ao prometer algo com um escopo tão avantajado, o filme frustra espectadores que esperam encontrar um tratado histórico-geográfico sobre o assunto. Ao invés disso, deparamo-nos com uma pesquisa sobremaneira situada e com uma orientação ostensivamente acadêmica: a grande maioria dos depoimentos faz menção a situações ocorridas no âmbito da Universidade Federal da Bahia, acerca da consideração das danças afro-brasileiras como merecedoras de relevância científica e artística. Entretanto, mesmo quando assume a sua pertinência, a obra fica refém de uma linguagem audiovisual chavonada, muito aquém do que é abordado: as danças surgem na tela em relances intermitentes, numa montagem que não respeita a duração original das coreografias... 


Dentre os professores convidados a falar sobre o assunto, o próprio co-diretor Firmino Pitanga apresenta-se logo no início, o que realça o aspecto de projeto de extensão universitária, muito mais do que um filme em si. Por mais valiosas que sejam, as reflexões compartilhadas sobre as danças negras caracterizam-se por constatações genéricas, que, ao menos, beneficiam-se da impressão de plurivocalidade. E, neste sentido, a coleção de depoentes é riquíssima: desde o dançarino estadunidense Clyde Morgan ao etnólogo cubano Carlos Moore, passando por mestres capoeiristas e pela artista plástica e folclorista pernambucana Raquel Trindade [1936-2018], numa de suas últimas entrevistas gravadas. Cada um deles acrescenta muito, ao concatenar aquilo que é ensinado com a vivência pessoal, demonstrando que as experiências orgânicas são centrais na lida com algo que pressupõe a onipresença do gingado corporal como essencialmente humano. 


Trazendo à tona tanto questões antropológicas referentes à expressividade contida nas reações percussivas quanto as implicações do racismo colonizatório no que tange à apropriação cultural de ritos religiosos que são desprovidos de sacralidade ao serem reproduzidos em palcos, as falas dos entrevistados são muito pertinentes ao reforçarem a importância das políticas afirmativas e das cotas raciais. No cotejo com a conjuntura política repressiva da atualidade, o documentário é exitoso ao apresentar ganhos identitaristas, sobretudo no contexto baiano que abarca a maioria dos depoentes. Não se sustenta na exposição daquilo que é mais ansiado pelos espectadores, justamente o que está contido no título e nas imagens de divulgação: as seqüências de danças, apresentadas como breves ilustrações das falas dos especialistas. Mas é um documentário que questiona os fundamentos curriculares, os preconceitos contra o candomblé e as tradições culturais ideologizadas do país. Propõe um debate válido, portanto!


Wesley Pereira de Castro.