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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

MARGEADO (2025, de Diego Zon)


A despeito de o Estado de Espírito Santo ter uma tradição cinematográfica apenas tangencial e de o diretor Diego Zon ser estreante em longas-metragens, este filme possui um forte caráter metonímico, no que tange à descrição dos movimentos migratórios oriundos de tragédias anunciadas, porque induzidas pela ação destrutiva do Capitalismo: num momento inicial, Yara (Veronica Gomes) e Dingue (Danilo Andrade) se despedem. Ele resolve errar pelas regiões circunvizinhas daquela em que cresceu, antes de tudo ser inundado pela lama tóxica, enquanto ela insiste em permanecer e tentar sobreviver na poluição. Será difícil, entretanto: num lugar onde a água sempre foi abundante, tanto quanto as atividades pesqueiras, a variação potável deste recurso natural terá o seu preço hipertrofiado, convertendo-se em mercadoria de luxo.


Por mais intencionalmente dificultada que seja a identificação dos laços de parentesco ou vicinalidade entre os personagens, os motes denuncistas são francamente ostensivos. Graças à excelente fotografia de Renato Ogata, constatamos, numa magnífica tomada aérea, a extensão poluente que aflige o ambiente fluvial, enquanto, ao longo da projeção, diversas paisagens "choram": ouvimos sons de baleias ecoando nos cânions, por exemplo, enquanto pessoas desorientadas buscam algum refúgio para o auto-reconhecimento. Dingue, por exemplo, deparar-se-á, num funeral, com alguém que enfrentou as mesmas condições de seu pai, cujas características empregatícias são priorizadas em relação àquilo que o definia enquanto ser humano. Não por acaso, Silvério, o falecido em questão (interpretado por Antônio Pitanga), diz, numa lembrança: "o barulho de fechar é diferente do barulho de abrir". No caixão, ele é reduzido à constatação de uma mera despesa, para o seu insensível contratador... 



Os diálogos são tão intensivamente literários, que chega a ser surpreendente quando, nos créditos, percebemos que o roteiro é de autoria do próprio diretor, que utiliza imagens de um curta-metragem seu ["Das Águas que Passam" (2016)] como se fosse um 'flashback' do personagem masculino, numa das várias emulações de pesadelo que ele protagoniza. Permeado pela lógica do realismo mágico, este filme confirma o que um turista diz no começo: "o que é real parece ficção, e a ficção parece realidade". A atmosfera dominante é a de uma distopia, em que as pessoas zanzam como sobreviventes. A seqüência sobre a exigüidade de vacinas é determinante, sobretudo quando uma enfermeira um tanto ríspida insiste que o material carregado por Dingue é inadequado para aquele ambiente. É quando percebemos que ele deambula com uma sacola rústica nas costas, que, somente no encontro definitivo com a sua irmã Alana (Eliane Correia), saberemos que se tratam das roupas do pai de ambos - morto, mas onipresente em seu legado de sofrimento, tal qual ocorreu com Silvério. 



Repleto de momentos misteriosos e fascinantes - vide a situação em que, numa oficina eletrônica, uma canção executada num aparelho de som antigo enche de vida aquele cômodo ou quando, num ônibus, uma idosa assovia uma melodia assemelhada ao clássico "Born Free", composto por John Barry, antes de encetar um monólogo lamentoso -, "Margeado" (2025) possui citações imagéticas de obras de Abbas Kiarostami, Jia Zhang-Ke e Lav Diaz. O rigor discursivo é deveras similar ao dos artistas citados, numa produção ambiciosa e não concessiva que vai na contramão dos cacoetes narrativos do cinema brasileiro. O interior capixaba é registrado em sua imponência um tanto assombrosa, o que se sobressai a partir das intervenções do personagem Naim (Etien Khouri), que chama a atenção para as ações históricas da Natureza. Num determinado momento, ele explica para Dingue os efeitos de uma erosão milenar, deveras distinta da inundação que expulsa as pessoas de seu ambiente-natal. No desfecho, a esposa libanesa de Naim (Souraia Jurdi) nota que, no Brasil, as estações do ano obedecem a uma cadência diferente daquela percebida em seu país de origem: aqui, é como se tudo ocorresse ao mesmo tempo, sem demarcação, mais ou menos como os eventos deste filme, cuja potência está na lentidão. Se isso causa algum desconforto a espectadores despreparados, um diálogo do filme justificará a empreitada, ao dizer que o gosto amargo de uma erva é irrelevante, para quem deseja livrar-se de uma pneumonia. Estamos diante de um filme sumamente político, em que a progressão bolsonarista (e de seus congêneres partidários) é rejeitada pelo viés da organicidade, numa alegoria centrípeta e fadada a alguns fracassos relacionais. Para ser aplaudido de pé pela coragem! 




Wesley Pereira de Castro. 

sexta-feira, 12 de abril de 2024

UMA FAMÍLIA FELIZ (2023, de José Eduardo Belmonte)


Demonstrando-se um diretor tão prolífico quanto versátil, o paulista radicado em Brasília José Eduardo Belmonte chamou a atenção da crítica especializada quando lançou o corajoso “A Concepção” (2005), premiado em alguns festivais e mui corajoso em seu discurso anárquico. Se ele não obteve o mesmo sucesso com o pretensioso e tedioso “Meu Mundo em Perigo” (2007), acertou novamente em cheio no ótimo “Se Nada Mais Der Certo” (2008). Daí para a frente, revezou-se entre produções esquecíveis [“Billi Pig” (2011)], trabalhos pessoais e irregulares [“O Gorila” (2012) e “O Pastor e o Guerrilheiro” (2022), entre eles], mergulhos eficientes no cinema de gênero [“Alemão” (2014) e “Entre Idas e Vindas” (2016)] e diversas produções televisivas. É alguém cujo currículo merece ser analisado, portanto.


Em “Uma Família Feliz” (2023) – adaptado de um argumento que deu origem ao romance homônimo do carioca Raphael Montes, também roteirista do filme –, o diretor amalgama características de vários de seus filmes, sem que possamos tachá-lo efetivamente de uma obra autoral: ele volta a escalar Grazi Massafera como protagonista, insere alguns elementos discursivos de caráter pessoal (vide a revelação imagética na metade dos créditos finais, quando uma bandeira nacional deixa patente a orientação política do realizador) e manipula com habilidade as convenções do gênero suspense. Em muitos sentidos, este filme é uma eficiente adaptação brasileira de títulos noventistas como “Dormindo com o Inimigo” (1991, de Joseph Ruben) e “A Mão que Balança o Berço” (1992, de Curtis Hanson). Por isso mesmo, pode perturbar alguns espectadores.


O título do filme deixa evidente a desconfiança do realizador quanto à instituição familiar, o que já foi demonstrado em mais de um de seus filmes. Por detrás da perfeição daquele casal bem-sucedido, escondem-se segredos devastadores, que serão apresentados através de reviravoltas impressionantes. Que, por sua vez, perdem um pouco do impacto por conta da opção do diretor em iniciar a sua obra com o cllímax fatalista: na sequência inicial, a personagem Eva enterra uma de suas filhas gêmeas e provoca um acidente com a outra, num carro em altíssima velocidade. O porquê? É o que descobriremos após o unitário crédito titular.


Eva é casada com Vicente (Reynaldo Gianecchini), um advogado que anseia por uma promoção em seu trabalho, a fim de poder proporcionar mais luxo e conforto à sua esposa e às suas filhas. A família está prestes a aumentar, em verdade: Eva está grávida e, em pouco tempo, um garotinho será trazido para a casa luxuosa onde ela vive, na qual possui um ateliê de bonecos assemelhados a bebês humanos. O choro contínuo do recém-nascido incomodará a mulher, que não consegue dedicar-se ao seu ofício, em razão de estar sobrecarregada de trabalhos domésticos. Para piorar, Vicente descobre hematomas em uma de suas filhas...


Se, por causa do que é mostrado na seqüência de abertura, a condução narrativa faz com que o espectador pense que Eva está atormentada por crises de esquizofrenia, o que é reiterado pelo desenho de som marcado por uma constante e perturbadora cacofonia, na segunda metade da trama, acontece o inverso: fica-se ao lado de Eva, que desconfia que Vicente está abusando sexualmente das garotas. Quem estaria realmente machucando os filhos do casal? É algo que descobriremos apenas próximo ao desfecho, que permanece em aberto, exceto por um acréscimo nos créditos de encerramento. É quando aparece a bandeira supracitada, e o filme assume o seu franco aspecto antibolsonarista, associado à descrição de um modelo idealizado de família, composta pelos autodeclarados “cidadãos de bem”. O filme, inclusive, foi gravado em Curitiba, reduto de muitos partidários da extrema-direita brasileira.


As interpretações dos dois atores principais, deveras criticados em papéis anteriores, não são memoráveis, mas também não atrapalham a verossimilhança daquela conjuntura aburguesada: como sói acontecer entre pessoas que valorizam excessivamente as aparências, eles fingem ter um casamento ideal, até que eclode uma situação de “cancelamento”, e Eva passa a ser rejeitada pelos vizinhos e por aquelas que, até então, considerava como suas amigas. Por extensão, ela surta psiquiatricamente, o que faz com que suspeitemos, mais uma vez, que ela é a legítima culpada pelo que acontece às suas filhas. Até que, em determinado momento, o roteiro passa a defendê-la. Quando já é tarde demais, infelizmente!


Em sua adesão às fórmulas e reviravoltas de suspense, o filme merece ser divulgado e recomendado. Comete alguns deslizes em detalhes secundários (a cronologia dos dias registrados através de câmeras de vigilância, por exemplo, e a concordância textual numa pesquisa jornalística efetuada pela protagonista), mas isso não subestima por completo a inteligência e a sensibilidade de quem conferir o filme nos cinemas. É uma metonímia interessante dos valores destorcidos de membros privilegiados da elite aquisitiva do país. E mais uma confirmação de que, entre erros e acertos, José Eduardo Belmonte constrói uma filmografia tão numerosa quanto digna de análise, enquanto artesão capacitado do cinema brasileiro contemporâneo. Isso, definitivamente, não é pouco!



Wesley Pereira de Castro. 

 

domingo, 12 de março de 2023

MATO SECO EM CHAMAS (2022, de Joana Pimenta & Adirley Queirós)

Conjugando aspectos discursivos e elementais de suas obras anteriores e aderindo a uma parceria directiva mui vigorosa com a responsável pela excelente fotografia, Joana Pimenta, o goiano radicado em Brasília Adirley Querós realiza não apenas a sua obra mais autoral como um dos petardos mais revolucionários do cinema contemporâneo. Aqui, ele encara de frente, novamente, a falência política de um país que aceita provisoriamente o discurso de ódio advindo de um representante ignóbil da extrema-direita, optando por uma narrativa que, além de estraçalhar as fronteiras tênues entre ficção e documentário, apresenta-nos a um relato sobre meios-irmãos que amam-se incondicionalmente, a despeito dos sofrimentos enfrentados por suas respectivas mães, no que tange à promiscuidade e a tendência renitente à criminalidade do pai deles. Do elã partidário que advém de "A Cidade é uma Só?" (2011) às emulações distópicas que marcam "Branco Sai, Preto Fica" (2014) e "Era uma Vez Brasília" (2017), lidamos com uma potente alegoria cinematográfica, direcionada contra as mazelas do bolsonarismo... 


De um lado, Léa (Léa Alves da Silva) e Chitara (Joana Darc Furtado) assumem-se como gasolineiras na favela de Sol Nascente, na Ceilândia, na mesma localidade em que Andréia Vieira tenta eleger-se como deputada distrital; do outro, as forças repressivas, que, no fanatismo servil por um presidente que flerta com o neofascismo, instauram um toque de recolher na favela em que acontecem as ações. Um grupo organizado de motoqueiros surge como organismo intersticial, prestando assistência às mulheres, ao perceberem que as taxas que elas cobram pelos derivados de petróleo são muito mais acessíveis que aquelas ofertadas pelos distribuidores institucionais. Entretanto, os efeitos colaterais do crime circundam as personagens, que relatam com nostalgia ressignificada a vivência na cadeia, ao passo em que são recapturadas por práticas ilícitas reincidentes. Notamos que as personagens utilizam os seus nomes verdadeiros, o que é confirmado de maneira surpreendente quando Chitara, no meio de uma cena, comenta que sua irmã fora presa novamente, enquanto estava empolgada por participar de um filme. Onde começa uma distopia e onde termina a outra? Na magnífica direção de arte deste filme, tudo é Brasil! 


A alinearidade da montagem não prejudica o entendimento do espectador, no que diz respeito à compreensão da trama, visto que os diretores prezam pela completa imersão na narrativa periférica, em que a seleção cancional revela-se instrumentalmente brilhante: seja quando a banda Muleka 100 Calcinha executa o tema titular numa festa de boteco, seja quando uma música célebre de Odair José ilustra o desejo de Léa de, algum dia, gerenciar um puteiro. Os enquadramentos antológicos são variegados, com destaque para a comunhão erótica entre mulheres que divertem-se, ao som de uma letra de funk, num ônibus e o instante posterior em que algumas delas são conduzidas à prisão. Idem para a longa duração da seqüência em que Chitara participa de um culto evangélico ou os instantes em que as mulheres trabalham numa olaria ou na companhia petrolífera improvisada, de cariz ostensivamente feminista.  Tudo nesse filme evoca revolução, a fim de enfrentar o treinamento de evocações nazistas, ensaiado no interior de um camburão bélico. Obra-prima em estado ígneo absoluto!



Wesley Pereira de Castro. 
 

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Festival de Gramado 2021: CARRO REI (2021, de Renata Pinheiro)


Neste filme, a direção fotográfica de Fernando Lockett tem importante função semiológica: quando percebemos que o céu é verde e que as cores da bandeira brasileira contaminam (quase) todos os ambientes, admitimos que estamos no terreno fabular. Os jargões libertários e tecnocráticos que opõem-se nos diálogos acrescentam um aspecto alegórico à trama, que é ostensivamente atravessada por firulas. O que importa no roteiro é a moral da estória, adivinhada desde o início da invasão dos carros, tal qual ocorre em qualquer enredo infantil. A cineasta obtém êxito em seu interesse primário: ela comunica, ela faz com que os espectadores torçam pela sobrevivência do protagonista, o que desemboca na associada conscientização marxista, em viés tão didático quanto simplório. Trata-se de uma fábula, insistimos!


No início, a impressão de realismo apresenta-nos ao garoto Uno (Luciano Pedro Jr.), que nasce dentro de um carro de marca homônima, depois que uma manada de vacas obstrui a estrada. Tem-se aí o primeiro dentre vários embates entre condições rurais e potencialidades urbanas, que encontrarão no tio do protagonista, Zé Macaco (Matheus Nachtergaele), um porta-voz tautológico. Espécie de caricatura engelsiana, este personagem trabalha como mecânico e vocifera declarações muito inspiradas, sobre os instrumentos e ferramentas como extensões do corpo humano. Pouco a pouco, entretanto, ele converte-se num títere robótico e, quanto mais integrado às tecnologias ele se demonstra, mais simiescos tornam-se os seus comportamentos. Eis um paradoxo basilar da contemporaneidade!


Analisando-se o filme de maneira sintagmática, são abundantes os defeitos: as interpretações são pouco expressivas (quase artificiais), a dublagem dos carros é pouco convincente, o roteiro é lacunar e as situações são desenvolvidas de maneira apressada. Mas talvez esses sejam justamente os grandes trunfos do filme, no sentido de que conferem-lhe uma aura quase brechtiana: afinal, parece apregoar que a genialidade advém da idiotia e que, à medida que ela arregimenta-se, os pólos ideológicos contrários se equanimizam...


Múltiplas referências fílmicas são identificadas, bem como menções satíricas a pronunciamentos políticos de extrema-direita. É um filme que assume a celeridade, visto que esta característica tem tudo a ver com o objeto mais recorrente no enredo, os automóveis. A denúncia central diz respeito à linha tênue que detectamos entre as proclamações de justiça social e o marketing assimilacionista. Para tal, a sensualidade surge como grito de alerta, desde a trilha musical dançante de DJ Dolores à calcinha neon da ativista Mercedes (Jules Elting), que carimba um epíteto hebraico de mortandade sobre as estruturas laudatórias do patriarcado. Para além de toda a sua esculhambação intencional, que este filme semeie e frutifique: é urgente, inventivo e muito divertido! 



Wesley Pereira de Castro. 

sábado, 17 de outubro de 2020

* Mostra SP 2020: BEM-VINDO À CHECHÊNIA (2020, de David France)


     O título provocativamente acolhedor deste documentário infelizmente não corresponde ao que é apresentado: ele aparece sobreposto a um vídeo de espancamento, onde conhecemos o tratamento atroz concedido aos homossexuais perseguidos na região russa da Chechênia. Esta tornou-se internacionalmente noticiada no início da década de 1990, quando requereu emancipação política, ainda não devidamente reconhecida. De maioria muçulmana, este autodeclarado país possui uma região territorial inferior ao do Estado de Sergipe. É governada por um militar extremamente preconceituoso, de nome Ramzan Kadyrov. Tal qual o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, ele costuma exibir-se de maneira nojosa nas mídias sociais: comumente publica gravações pessoais em seu perfil no Instagram, onde exercita-se numa academia de ginástica e exibe metralhadoras. E declara que não deve haver homossexuais sob o seu Governo: segundo ele, estas pessoas são pecadoras, deveriam ser extraditadas. Ele repete isso, com escárnio, numa entrevista televisiva. É um dos momentos mais impactantes do documentário!



Os vídeos apreendidos pelos ativistas LGBT+ mostrados no filme chocam pela crueldade: feridos nas nádegas, cobertos de hematomas e espancados de todas as formas, os sobreviventes homossexuais das prisões chechenas conservam também cicatrizes internas. O medo de serem sequestrados e mortos, como aconteceu com diversas pessoas, faz com que eles tentem fugir desesperadamente da Rússia, e precisam disfarçar-se por conta disso. Num eficiente estratagema protetoral, a equipe do documentário serve-se de efeitos especiais para dublar os rostos e as vozes dos depoentes, com uma extraordinária exceção: o momento em que a "maquiagem" imagética desaparece, visto que um dos homossexuais perseguidos resolve denunciar, num processo judicial, as torturas que sofreu... 



Urgente em seu pressuposto denuncista, o documentário chama a atenção pelo fervor com que adere à luta por sobrevivência de pessoas que são odiadas apenas por amarem alguém do mesmo sexo, sendo eventualmente violentadas pelos próprios familiares. Que o diga o caso da moça chantageada pelo tio por ser lésbica: se ela não cedesse aos seus desejos sexuais, ele a denunciaria aos pais, que provavelmente a espancaria. Ela foge. E é acolhida... 



É a partir desse momento que o documentário exibe as suas maiores fraquezas: produzido sob a chancela da HBO, ele é conduzido como se fosse um filme de ação! Em mais de um momento, acompanhamos as atividades da organização enfocada, que negocia com vários países o asilo humanístico aos homossexuais perseguidos. Os EUA evitam este acolhimento, obviamente. A trilha musical do filme assume um tom triunfalista e/ou melancólico, induzindo uma pretensa tensão quando a mãe de um dos homossexuais não consegue fechar o cinto de segurança no avião, quando um rapaz tenta suicídio, ao cortar os pulsos, ou quando Anya, a moça ameaçada pelo tio, requer um novo apartamento para refugiar-se, pois "precisa caminhar um pouco". Não ilegitimando a denúncia dos terríveis atos repressivos da república chechena, o documentário soçobra ao não conseguir desvencilhar-se de eventuais cacoetes classistas e de convenções tramáticas que transitam entre o jornalismo investigativo e o 'thriller' hollywoodiano.



É um filme que deve ser visto. Muito mais por aquilo que expõe que por suas qualidades cinematográficas intrínsecas. Até hoje, o artista 'pop' checheno Zelim Bakaev - que é mostrado no documentário e tem uma de suas canções executada nos créditos finais - permanece desparecido: que a difusão do filme ajude a esclarecer as condições de seu sumiço, presumivelmente por motivos homofóbicos, em 2017. Ao menos, isso! 



Wesley Pereira de Castro. 



ATRAVESSA A VIDA (2020, de João Jardim)


 A abordagem do sistema educacional brasileiro não é novidade para o diretor João Jardim: o celebrado "Pro Dia Nascer Feliz" (2005) compara as realidades de diferentes escolas, em Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Nos intertítulos, o interesse cotejador fica evidente, ao contrário do que ocorre em "Atravessa a Vida", onde sequer é explicado o porquê da escolha de uma escola em Simão Dias como objeto de enfoque…

 

No ano em que as filmagens foram realizadas, o Colégio Milton Dortas ganhou visibilidade nacional, em razão da formatura de um médico quilombola proveniente do mesmo, denotando o sucesso de ferramentas governamentais concernentes à Educação, como a implementação das cotas raciais. E, por tratar-se de um ano eleitoral, o documentário insiste na associação entre Educação e Política: além do conteúdo de muitas das aulas apresentadas no filme serem sobre o período ditatorial do Brasil, há uma seqüência em que mostra-se a apuração dos votos para presidente da República, em 2018. Jair Bolsonaro venceu – mas não no Nordeste!



Neste projeto recente de João Jardim, o assunto é assaz demarcado: uma série específica (o terceiro ano do Ensino Médio) e um objetivo pretensamente geral (as expectativas de aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM). Mas, naquela cidade do agreste sergipano, os aspectos da realidade invadem abruptamente a sala de aula: seja pelo contínuo barulho advindo das atividades de pedreiros e eletricistas, que trabalham durante o horário letivo, seja pelas estórias trágicas de vida que os alunos narram. Há o rapaz que se sente abandonado pelo pai, a garota que fere a si mesma nas crises de depressão, o chiste recorrente de que estudar na Universidade não é tudo: quem não ganha na loteria, pode encontrar trabalho nas esquinas. O que é mostrado no filme não é exclusividade daquela região, afinal.


No documentário, a câmera não é escondida: ela está presente, e é inconveniente. O diretor evita a exposição de uma tese determinista, ainda que preconceitos eventuais sejam detectados, no modo como a precariedade infraestrutural da escola é exibida. Ao término, os exemplos de superação (em termos estatísticos) são destacados. Durante as aulas, o sofrimento é compreendido como algo edificante, mas, fora delas, a tela fica preta. As reflexões marxianas e aristotélicas, a insurgência de Canudos e os problemas trigonométricos são ensinados localmente. O que enfrentamos hoje, em termos nacionais, é o que foi efetivamente apre(e)ndido!


Wesley Pereira de Castro.