sexta-feira, 4 de setembro de 2026

PORTO PRÍNCIPE (2023, de Maria Emília de Azevedo)


 

Antes dos créditos de abertura, há um letreiro sobre as conseqüências do enorme terremoto que atingiu o Haiti em 2010. É a deixa para que saibamos da necessidade emergencial de fuga, por parte de alguns moradores desse país – inclusive, alguns personagens do filme. Porém, esta não é a única tragédia a assolar a população, pois a colonização secular francesa causou terríveis danos aos habitantes, mesmo após a independência nacional, em 1804. Tudo isso voltará, nos diálogos…


O protagonista do filme é o imigrante Bastide, interpretado por Diderot Senat, mas a contribuição da veterana Selma Egrei, como Bertha, é imprescindível: ela vive sozinha numa chácara no interior de Santa Catarina, depois que seu marido morreu. Leitora fluente de alemão, ela passa os seus dias lendo e ouvindo os discos deixados por seu esposo, obcecado pelas composições de Georg Friedrich Händel [1685-1759]. Às vezes, ela é visitada por alguém contratado por seu filho Henrique (Léo Franco), mas ela prefere não ser incomodada. Até que presta atenção numa notícia transmitida pela TV…


Quando descobre que um grupo de imigrantes haitianos foi transferido para o Estado em que ela vive, decide contratar um deles como empreiteiro, a fim de ajudá-la nas reformas domésticas e outras atividades rurais. Visita o abrigo numa determinada noite e conhece Bastide, que se oferece como tendo experiência nos trabalhos por ela requisitados. Alguns dias depois, ela descobrirá que, na verdade, ele era um professor do Ensino Fundamental. “Por que mentiste para mim?”, pergunta ela. A resposta: “porque, no abrigo, eu era apenas um refugiado. Quando saí de lá, pude ser um indivíduo novamente”.


Apesar de a relação entre eles ser balizada por interesses contratuais, Bastide e Bertha tornam-se amigos, conversam bastante sobre as experiências de vida de ambos. Mas isso não é aceito por Henrique, que trata Bastide com bastante hostilidade. A filha de Henrique, entretanto, simpatiza com o haitiano: graças a esta moça, de nome Clara (Mônica Siedler), Bastide consegue regularizar os seus documentos brasileiros e, com isso, ficar apto para o seu primeiro registro de emprego no país. Circunstâncias imprevistas o obrigarão a reiniciar o percurso, mais uma vez...


Roteirizado por Marcelo Esteves, essa estréia em longa-metragem da catarinense Maria Emília Azevedo destaca-se pela sensibilidade na abordagem da premissa de que “amigos, a gente não escolhe. Nós os encontramos”. É assim que progride o afeto entre Bertha e Bastide, não obstante as inúmeras diferenças (geracionais, culturais, raciais), entre eles. Sem perceber, a viúva incorre em subestimações estruturais do sofrimento do haitiano, enquanto ele reconhece que, por ser constantemente ferido/ofendido, tende a “fugir das pessoas que gosta”. Seria possível um reencontro feliz para ambos?


Demonstrando suma consciência política em relação às circunstâncias atuais do Brasil, onde houve um crescimento avassalador dos discursos de ódio e das filiações à extrema-direita, desde 2018, a diretora insere um marcante apêndice discursivo nos créditos de encerramento, que serve como comentário extrafílmico às suas boas intenções enquanto cidadã: por mais essencial que seja fazer a nossa parte, no respeito às condições de alteridade entre as pessoas, o contexto circundante é marcado por variegados preconceitos. Não por acaso, Bertha não tergiversa quando avisa a Bastide que os seus vizinhos não o aceitarão. E temos certeza de que o haitiano será agredido, quando surge um automóvel em que se lê uma mensagem religiosa, num adesivo. Em sua exortação afetiva, o filme é também percucientemente discursivo!


Merecedor de elogios em diversas instâncias, sendo mui competente em suas atribuições técnicas, algo na aplicação da trilha cancional parece um tanto deslocada neste filme: as músicas que Bastide ouve, em seu fone de ouvido, são sobrepostas a imagens telejornalísticas de destruição, no Haiti, que, infelizmente, soam espetaculosas na maneira videoclipesca como aparecem. Mas as composições originais do músico gaúcho Antônio Villeroy são graciosas e acalentadoras – como todo o filme, aliás. Recomendamos esta obra com o coração tão aberto quanto os personagens o fazem, em seus abraços sinceros. Demonstra-se, na prática, que o afeto é, sim, transformador!

Wesley Pereira de Castro.


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