sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Mostra Tiradentes/Festival de Brasília 2026: SABES DE MIM, AGORA ESQUEÇA (2026, de Denise Vieira)


Um dos grandes méritos deste filme, em relação a várias produções recentes que tematizam distopias, é não querer explicar em excesso: ele permite que - ou melhor, convida - o espectador a preencher as lacunas tramáticas, a partir das referências ampliadas de violência de gênero que as personagens compartilham, em seus diálogos marcados por lembranças de precariedade e sobrevivência em meio à prostituição. Esta última palavra é ressignificada no roteiro, aliás: as mulheres realizam "atendimentos", concatenando as necessidades eróticas dos clientes às suas próprias, de modo que ambos satisfaçam-se mutuamente. O espaço do bordel é mostrado, sobretudo, como um lugar de acolhimento e aceitação. 



Nos primeiros dois terços dos noventa e seis minutos de duração, Rúbia (Pietra Sousa) instala-se como protagonista: após um acidente no comboio em que viajava, ela conhece Margô (Cida Souza), uma cafetina que alega ter mais de duzentos e cinqüenta e oito anos de idade e já ter morrido mais de cinqüenta vezes. Dotada de poderes de levitação, esta cafetina apresenta Rúbia a outras mulheres que, como ela, enfrentaram algum problema de trajeto, no afã por libertarem-se de situações persecutórias anteriores. No contexto em que elas vivem, as mulheres são maltratadas por homens violentíssimos, conhecidos como Lanternas. Mas elas encontrarão uma maneira de desintegrá-los, ao mesmo tempo em que aproveitam-se positivamente da energia sexual de quem visita o bordel para compensar as frustrações do cotidiano. 



Rúbia é filha de uma prostituta célebre, que ensinou-lhe tudo o que ela sabe, quando ainda freqüentava a "Feira do Priquito", e, junto às suas companheiras de estadia e profissão, ela compara as suas preferências erotógenas: há quem aprecie cheirar axilas, há quem compare lambidas anais a experimentar um bolo de aniversário e há quem desgoste de chupar ouvido, por causa do gosto desagradável de cêra. É quando todas estas mulheres tornam-se igualmente protagonistas, em cenas entrecortadas de sexo, que apregoam a possibilidade de restauração de alguma liberdade através do prazer... 



Por ser uma diretora de arte premiada, Denise Vieira é bastante exitosa na construção do ambiente em que aquelas mulheres vivem, cercado por espaços desertificados, atravessados pelos trens que transportam quem foge da perseguição dos Lanternas. Trilha musical e fotografia conferem ao filme uma atmosfera lynchiana, em combinação com o registro quase documental das conversas femininas, como o instante em que Rúbia interpela uma costureira idosa acerca da idade e peculiaridades comportamentais de Margô. Sobremaneira criativo em sua exposição distópica, este filme traz em seu título uma menção ao esquecimento, que surge enquanto lamento na seqüência das fodas concatenadas. Que possamos voltar, enquanto nação, ao privilégio combinatório entre gozo e memória! 




Wesley Pereira de Castro. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

PORTO PRÍNCIPE (2023, de Maria Emília de Azevedo)


 

Antes dos créditos de abertura, há um letreiro sobre as conseqüências do enorme terremoto que atingiu o Haiti em 2010. É a deixa para que saibamos da necessidade emergencial de fuga, por parte de alguns moradores desse país – inclusive, alguns personagens do filme. Porém, esta não é a única tragédia a assolar a população, pois a colonização secular francesa causou terríveis danos aos habitantes, mesmo após a independência nacional, em 1804. Tudo isso voltará, nos diálogos…


O protagonista do filme é o imigrante Bastide, interpretado por Diderot Senat, mas a contribuição da veterana Selma Egrei, como Bertha, é imprescindível: ela vive sozinha numa chácara no interior de Santa Catarina, depois que seu marido morreu. Leitora fluente de alemão, ela passa os seus dias lendo e ouvindo os discos deixados por seu esposo, obcecado pelas composições de Georg Friedrich Händel [1685-1759]. Às vezes, ela é visitada por alguém contratado por seu filho Henrique (Léo Franco), mas ela prefere não ser incomodada. Até que presta atenção numa notícia transmitida pela TV…


Quando descobre que um grupo de imigrantes haitianos foi transferido para o Estado em que ela vive, decide contratar um deles como empreiteiro, a fim de ajudá-la nas reformas domésticas e outras atividades rurais. Visita o abrigo numa determinada noite e conhece Bastide, que se oferece como tendo experiência nos trabalhos por ela requisitados. Alguns dias depois, ela descobrirá que, na verdade, ele era um professor do Ensino Fundamental. “Por que mentiste para mim?”, pergunta ela. A resposta: “porque, no abrigo, eu era apenas um refugiado. Quando saí de lá, pude ser um indivíduo novamente”.


Apesar de a relação entre eles ser balizada por interesses contratuais, Bastide e Bertha tornam-se amigos, conversam bastante sobre as experiências de vida de ambos. Mas isso não é aceito por Henrique, que trata Bastide com bastante hostilidade. A filha de Henrique, entretanto, simpatiza com o haitiano: graças a esta moça, de nome Clara (Mônica Siedler), Bastide consegue regularizar os seus documentos brasileiros e, com isso, ficar apto para o seu primeiro registro de emprego no país. Circunstâncias imprevistas o obrigarão a reiniciar o percurso, mais uma vez...


Roteirizado por Marcelo Esteves, essa estréia em longa-metragem da catarinense Maria Emília Azevedo destaca-se pela sensibilidade na abordagem da premissa de que “amigos, a gente não escolhe. Nós os encontramos”. É assim que progride o afeto entre Bertha e Bastide, não obstante as inúmeras diferenças (geracionais, culturais, raciais), entre eles. Sem perceber, a viúva incorre em subestimações estruturais do sofrimento do haitiano, enquanto ele reconhece que, por ser constantemente ferido/ofendido, tende a “fugir das pessoas que gosta”. Seria possível um reencontro feliz para ambos?


Demonstrando suma consciência política em relação às circunstâncias atuais do Brasil, onde houve um crescimento avassalador dos discursos de ódio e das filiações à extrema-direita, desde 2018, a diretora insere um marcante apêndice discursivo nos créditos de encerramento, que serve como comentário extrafílmico às suas boas intenções enquanto cidadã: por mais essencial que seja fazer a nossa parte, no respeito às condições de alteridade entre as pessoas, o contexto circundante é marcado por variegados preconceitos. Não por acaso, Bertha não tergiversa quando avisa a Bastide que os seus vizinhos não o aceitarão. E temos certeza de que o haitiano será agredido, quando surge um automóvel em que se lê uma mensagem religiosa, num adesivo. Em sua exortação afetiva, o filme é também percucientemente discursivo!


Merecedor de elogios em diversas instâncias, sendo mui competente em suas atribuições técnicas, algo na aplicação da trilha cancional parece um tanto deslocada neste filme: as músicas que Bastide ouve, em seu fone de ouvido, são sobrepostas a imagens telejornalísticas de destruição, no Haiti, que, infelizmente, soam espetaculosas na maneira videoclipesca como aparecem. Mas as composições originais do músico gaúcho Antônio Villeroy são graciosas e acalentadoras – como todo o filme, aliás. Recomendamos esta obra com o coração tão aberto quanto os personagens o fazem, em seus abraços sinceros. Demonstra-se, na prática, que o afeto é, sim, transformador!

Wesley Pereira de Castro.