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sábado, 27 de junho de 2026

A PAIXÃO SEGUNDO G.H.B. (2026, de Gustavo Vinagre & Vinícius Couto)

Importante iniciar este texto explicando que G.H.B. - para quem não está familiarizado com a sigla - refere-se ao Ácido Gama-Hidroxibutírico, um depressor do sistema nervoso central consumido recreativamente como "droga G" em encontros eróticos, sobretudo homossexuais, inclusive no Brasil. Como duas destas letras correspondem ao acrônimo da instância narrativa, em primeira pessoa, do romance "A Paixão Segundo G.H.", de Clarice Lispector, lançado em 1964, os diretores aproveitaram esta simetria para compartilhar uma terapia autoficcional, que possui um ponto de vista assaz fundamentado acerca do que narra, mas sem incorrer em julgamentos de cunho moralista. 


O co-diretor Vinícius Couto interpreta Matias (que prefere ser chamado de Metias), recém-chegado de Portugal e em busca de parceiros sexuais de caráter imediatista, não obstante ele se declarar afetivamente para eles, quando sob efeito de substâncias químicas. O primeiro a chegar em sua residência é Ricardo (Igor Mo), um ator de 35 anos que evita consumir metanfetaminas, por conta de lembranças traumáticas associadas ao pior final de semana que viveu. Juntos, os dois amantes conversam, falam sobre poesia e observam a chuva, até que decidem convidar mais um homem - e depois outro - para esta suruba improvisada... 


A entrada em cena de Free Wolf (Rodrigo Campos) e Lucas (Luciano Falcão) incrementa o componente tóxico - em mais de um sentido - das relações espontâneas entre estes homens, que dependem progressivamente de mais substâncias químicas - algumas delas injetáveis. Tanto que Matias chega a ficar surpreso quando acontece uma ejaculação, aparentemente mui dificultosa naquilo que os personagens, todos soropositivos, definem como 'chemsex'. Nas entrevistas que antecedem as aparições dos amantes de Matias, imagens vindouras da suruba são projetadas por detrás deles, até que o depoimento de Jessé (Jessé Jorge) exibe tudo o que vimos como uma retrospectiva autocrítica, em que o próprio filme é analisado como sendo "leve" na descrição do que aconteceria na "noite 'gay' paulistana". Houve quem classificasse a obra como profilática, por conta disso, o que causa estranhamento para quem analisa superficialmente a lascívia contida - de maneira tão recorrente, intensa e orgânica - na filmografia de Gustavo Vinagre. 



Sem julgar ou condenar os seus personagens, obviamente, os diretores expõem os seus intérpretes em variações actanciais de si mesmos, como se estivessem a refletir, de maneira reconstitutiva, experiências pessoais, em meio ao que é encenado, com destaque para os tiques involuntários que acometem Ricardo, que, minutos antes, lera o belíssimo poema de autoria do ator que o interpreta, "eu gosto do coração batendo forte". A trilha musical eletrônica de João Marcos de Almeida intensifica os movimentos de entrega pornográfica, até que Christiane Tricerri surge como a própria GH, ouvindo Matias como se ele estivesse numa consulta psiquiátrica. As intenções aconselhadoras do filme são explícitas, principalmente quando o ator/co-diretor/personagem menciona as seqüelas do que sofreu durante a pandemia da COVID-19 e do que enfrentou, no Brasil, sob o (des)governo de Jair Bolsonaro. Fica a metáfora literária: "comer barata é ir para o chão"!



Sóbrio e mui respeitoso acerca do que expõe, o filme é também cuidadoso na maneira com que "mostra" as drogas, fazendo com que os espectadores as imagine, enquanto os personagens inalam o vazio, tanto simbólica quanto literalmente. Num instante de respiro entre as transas, Matias e Ricardo contemplam a chuva que cai fora do apartamento, observando as pessoas e filmando a si mesmos, trocando declarações de amor prestes a serem publicadas na Internet. Mais à frente, noutro interstício sexual, cada um dos amantes externa alguma paranóia intensificada pelas substâncias consumidas, de modo que a beatitude observacional de outrora (imagens de pessoas passeando com seus guarda-chuvas, por exemplo) torna-se uma ameaça ("e se os vizinhos ouviram tudo o que dissemos?"). O roteiro funciona em chave invertida, convertendo até mesmo os nossos receios em abertura para o entendimento, tanto íntimo quanto naquilo que provém da relação com as outras pessoas, tal qual magistralmente sintetizado por Jessé Jorge. Gustavo Vinagre, certeiro em suas colaborações, segue dedicado a investigar em quais sentidos os nossos fetiches e tabus advêm de interdições capitalistas, conforme evidenciado no momento em que Matias confessa que tem vontade de "namorar no portão", porque isto sempre lhe fôra proibido. Sendo assim, há algo de eminentemente profilático em "A Paixão Segundo G.H.B.", mas não proibitivo. Afinal, a excitação sexual pode ser, também, admoestativa - e isso é muito bem demonstrado no filme!



Wesley Pereira de Castro. 
 

quarta-feira, 4 de março de 2026

SALOMÉ (2024, de André Antônio)

Protagonizado por um elenco predominantemente transexual, este filme conjuga duas obsessões temáticas constantes em obras anteriores do diretor: o aspecto litúrgico de membros deambulatórios de uma seita e o caráter fetichizado dos encontros sexuais, em que o recurso aos caracteres olfativos dos pés masculinos é recorrente. O diferencial discursivo está na comparação entre aspectos viciosos de reações a elementos tão distintos quanto a religiosidade, o consumo de substâncias alucinógenas e o tesão enquanto percurso. 
 


Narrativamente, o filme acompanha o retorno de uma jovem à casa de sua mãe, onde repensa os seus erros de adolescência: famosa internacionalmente enquanto modelo fotográfica, Cecília dos Anjos (Aura do Nascimento) reencontra casualmente o filho de uma vizinha, chamado João (Fellipy Sizernando), de quem sua mãe Helena (Renata Carvalho) não gosta muito. Bastante religiosa, Helena considera João uma má influência, pois sabe que ele está relacionado ao tráfico de alucinógenos. Ocorre que, ao experimentar um tipo inusual de loló entregue pelo rapaz, Cecília fica apaixonada em âmbito transeúnico: a primeira transa de ambos é fascinante! 


À medida que consegue fazer as pazes com a mãe e com uma prima, com quem brigara numa situação já esquecida, Cecília queda obcecada por João, que some constantemente, justamente para conseguir novos lotes do loló que tanto impressionou a jovem, que decide tornar-se sóbria repentinamente. Isto acontece pois ela constata que aquilo que percebera quando estivera sob a alucinação induzida pela substância em pauta, na verdade, está na própria realidade, ressignificada pela constatação de que "o poder do amor é maior que o poder da morte". Porém, este argumento não é suficiente para convencer João, que confessa um estranho relacionamento com alienígenas (liderados por Everaldo Pontes) que buscam uma descendente da figura bíblica de Salomé, através da disponibilização cibernética de vídeos pornográficos. 



Como se percebe, o roteiro deste filme, a cargo do próprio diretor, possui diversas camadas de significação, advindas de seu fascínio pelo Simbolismo e de rememorações familiares íntimas: a cor verde domina os ambientes, enquanto representação de algo que pode preencher o tédio que ronda aqueles personagens. É quando Cecília, apesar de admitir as belezas recifenses, volta a se sentir deslocada nesta cidade, sentindo-se tentada a participar de uma seleção publicitária que, se bem sucedida, possibilitará que ela viaje até Paris. Como fazer isto sem que ocorra um novo rompimento com sua mãe? 


Ostensivamente maneirista, opulento em intenções e épico em seu registro agregador da estética 'queer' (vide a diversidade LGBTQIAPN+ entre os membros da equipe e as referências culturais dos personagens), este filme surpreende pela crença sincera na reconciliação entre pessoas que divergiram anteriormente e pela abordagem não julgamental do que é generalizado através do rótulo de "drogas". Inebriante em mais de um sentido, "Salomé" (2024) é merecedor de todos os prêmios que recebeu e deixa-nos ansiosos pelos trabalhos vindouros do autoral realizador André Antônio. Que venham!



Wesley Pereira de Castro. 

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

ESTRANHA FORMA DE VIDA (2023, de Pedro Almdodóvar)


Não obstante sermos capazes de identificar, neste curta-metragem, traços característicos do cinema almodovariano, ele parece estar bem menos à vontade com o idioma inglês que na experiência anterior [o ótimo "A Voz Humana" (2020)]: ao apropriar-se de elementos caros ao gênero 'western', mas sob a corruptela do romance homossexual interditado, o realizador incorre numa autocensura estilística, de modo que este filme chama mais a atenção pelos rumos sinópticos, deixados em aberto, que pela relevância dos partícipes técnicos envolvidos... 


Trabalhando novamente com o fotógrafo José Luis Alcaine e, principalmente, com o músico Alberto Iglesias, o diretor e roteirista espanhol, infelizmente, parece sabotar a si mesmo, dotando a trama de uma pudicícia vetusta, ao menos compensada pela entrega de seu elenco: Pedro Pascal, lamentavelmente, não dispõe de tempo suficiente para complexificar a sua participação actancial, no sentido de que o propalado reencontro amoroso possui um interesse escuso, mas Ethan Hawke aproveita com galhardia seus traços fisionômicos (e vocais) rudes, a fim de delinear um personagem que sufoca os seus desejos incompreendidos através da diligência profissional; e, na única seqüência em que comparece, George Steane demostra-se como um reencarnação encrudescida dos arquétipos que povoaram as obras exordiais do realizador. O desfecho do filme, por sua vez, é embasado numa temática que ronda toda a filmografia de Pedro Almodóvar: a dedicação de um algoz em cuidar, mui zelosamente, da pessoa que feriu, justamente por amar demais. Na imagem final, em que os créditos são exibidos enquanto cavalos descansam num rancho, o curta-metragem justifica a sua existência discursiva, ainda que seja um trabalho não tão memorável de seu autor. 


Dentre os indicativos de debilidade formal deste filme, podemos enfatizar: a montagem de Teresa Font (colaboradora recorrente do diretor, em suas últimas produções), que deixa a má impressão de compacto de episódio-piloto de uma série de TV ou de um 'trailer' estendido; a artificialidade da aparição de Manu Ríos, que dubla de maneira pouco imersiva a canção titular de Caetano Veloso; e o refinamento posado com que as situações eróticas são filmadas, todas sob o jugo publicitário do principal patrocinador, a grife Saint Laurent. Ainda que o desfecho seja reconhecível, enquanto abordagem continuada das questões que interessam ao realizador - tal qual susomencionado -, o curta-metragem é quase inautêntico na introdução da permissividade lasciva que culminou em roteiros outrora polêmicos, como os de "A Lei do Desejo" (1987) e "Fale com Ela" (2002), para ficar em dois exemplos da excelência de um cineasta que sucumbiu ao cansaço das concessões parahollywoodianas. Um sintoma preocupante de seu desgaste criativo! 



Wesley Pereira de Castro. 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

OS PRIMEIROS SOLDADOS (2021, de Rodrigo de Oliveira)


Da mesma maneira que, num rompante inspirado do enredo, os personagens esforçam-se para encontrar algo positivo a partir da experiência com a AIDS, o maior problema deste filme está num aspecto que, isoladamente, seria um grande trunfo: a sua excessiva teatralidade. A primeira aparição de Rose Moreau (Renata Carvalho) que o diga: encolerizada após uma situação de preconceito vivida dentro de um ônibus, ela aproveita um encontro casual com Maura (Clara Choveaux) para declamar um monólogo deveras expressivo, acerca de seus sofrimentos pessoais. Ao enfatizar, em sua fala, que "travesti não é bagunça", fica evidente o interesse conscientizador - em âmbito contemporâneo - do roteiro, que possui diálogos bastante contundentes, mas instaura certa artificialidade na composição empática dos personagens, insuficientemente definidos, em muitos casos... 


Apesar de não ser a protagonista, é Rose quem detém a centralidade ativa, ao surgir numa espécie de documentário sobre a sua própria vida, que será fundamental para a ressignificação pública (e militante) de um 'flashback' gravado em VHS. Num palco, ela dubla "Um Homem Também Chora (Guerreiro Menino)", de Gonzaguinha, com voz masculina. Emocionada por causa da pungente letra, ela esquece que estava interpretando, e expõe-se como o ser humano que é - o que, segundo ela, "quebra o clima da festa". A teatralidade, neste caso, surge como componente essencial de sobrevivência para os homossexuais retratados, em termos de redefinição discursiva das próprias angústias. Mais tarde, o protagonista Suzano (Johnny Massaro) pergunta, num surto de infelicidade e constatação de que está moribundo: "de que adianta tudo isso?". A resposta surge politicamente, através da voz de Ney Matogrosso, em "Fala", da banda Secos & Molhados, executada durante os créditos finais: "se eu não entender/ não vou responder/ Então, eu escuto"... 


O modo como as canções surgem no filme é sobremaneira poderoso: além da trilha original de Giovani Cidreira e das músicas supracitadas, deve ser destacado também o momento epifânico em que "Seja o Meu Céu", de Robertinho de Recife, sintetiza o que estava sendo buscado por aquelas pessoas, incompreendidas pela sociedade, no réveillon de 1983. Neste sentido, o personagem principal - ainda que dotado de existência dramática - usurpa um pouco da potência do filme, ao trazer à tona alguns comentários familiares que frustram-nos por causa dos caprichos classistas, também evidenciados em seu sobrinho Muriel (Alex Bonini), que, ao saber que seu tio não aparecerá numa determinadas festa, reclama, em tom de pantim: "e a gente, vai se divertir como?". Não obstante ser mimado, caberá a ele a definitiva ação do filme, confirmando um ímpeto de amadurecimento moral anunciado em diversos momentos. Afinal, "as pessoas vão embora", conforme faz questão de dizer enfaticamente Suzano à sua irmã, como se trouxesse à tona uma boa notícia que nem todos compreendem.


Há algo de muito estranho nas interpretações: é como se, ao representarem quem também precisa representar na vida pessoal, os atores mantivessem seus personagens um tanto eclipsados, o que dificulta a identificação subjetiva. Isso é compensado pela reconstituição eficiente do desamparo na fase inicial de contágios pelo HIV no Brasil. Ao narrar um filme fictício que o obseda desde a infância, Suzano serve-se de uma frase do curta-metragem "A Pista" (1962, de Chris Marker) para justificar o título desta obra: a imagem pela qual ele é obcecado é a de um soldado que, num momento de desespero e fome intensificada, decide comer um pedaço de sua própria perna, a fim de sobreviver. Vomita bastante ao fazer isso, mas obtém êxito, permanece vivo. O espectador Suzano não lembra bem o que ocorre depois, pois "assistiu aos momentos de heroísmo com os olhos fechados". Adiantou muito o que ele fez, entretanto: a despeito das irregularidades e inconsistências fílmicas, algo muito importante é convertido em assunto. Falemos mais sobre isso! 



Wesley Pereira de Castro. 

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Mostra SP 2021: REGRESSO A REIMS (FRAGMENTOS) (2021, de Jean-Gabriel Périot)


Para que este documentário seja devidamente assimilado e compreendido, algumas informações precisam ser conhecidas previamente pelo espectador: além de saber que o que está sendo analisado é o panorama político-partidário francês, há inúmeros atravessamentos reivindicativos em pauta, no afã pela conquista de "uma sociedade justa, ecológica e durável", conforme apregoa uma militante, próximo do final. Tanto o diretor quanto o autor do livro homônimo no qual esta obra é baseada são homossexuais assumidos e combativos, assim como a narradora Adèle Haenel - e isso é muito importante para que entendamos as imbricações fundamentais entre vida privada e vida pública que o texto lido traz à tona. Política, afinal, tem a ver com tudo o que fazemos, inclusive na intimidade! 


O filósofo que escreveu o livro-base é especializado nas abordagens foucaultianas, não sendo casual que as reflexões sobre "a dominação masculina" surjam de maneira tão pungente em seu relato autobiográfico: evadido de sua residência por causa da inaceitação paterna de sua homossexualidade, Didier Eribon esforça-se para compreender como sua mãe, apesar de oprimida pela lógica da dupla jornada de trabalho, cedeu à homofobia e ao racismo. Interpretado vocalmente pela atriz supracitada, Didier investiga o poder discursivo de penetração da extrema-direita a partir da manutenção dos temores proletários: sua família era muito pobre e, como ele mesmo destaca, enfrentou as agruras do pós-guerra, cujas cobranças foram muito mais violentas para as mulheres julgadas por seus comportamentos sexuais "colaborativos". Trata-se de uma análise nacional muito específica, mas que, obviamente, pode ser estendida para diversas sociedades. Ideologicamente, os recursos de soberania assimétrica são muito semelhantes... 


Dividido em dois grandes movimentos e um epílogo, este documentário serve-se de amplo material cinematográfico no primeiro caso e de vasta pesquisa telejornalística no segundo, concluindo com um segmento mais atuante, em que os posicionamentos políticos requerem que seus agentes deixem de ser apenas espectadores e tornem-se propriamente atores. Escritor, narradora e cineasta - simbioticamente conjugados - notam a penetração de contradições sexistas e racistas nos pronunciamentos de oradores de esquerda e lamentam que isso tenha desencadeado programas governamentais cada vez mais restritivos e menos conscientes da etimologia da palavra 'democracia'. Utilizando imagens de filmes produzidos por realizadores tão diversos como Dimitri Kirsanoff, Jean Vigo, Germaine Dulac, Maurice Pialat e Jean-Luc Godard, o diretor monta uma diacronia de eventos que desemboca no processo em curso da contemporaneidade. Trata-se de um manifesto fílmico que requer continuidade por parte da audiência, sob a forma de um prolongamento operacional com vieses sociológico, bibliográfico e cinefílico acerca do que é apresentado. Amar é um verbo que se conjuga na prática: eis o que o filme grita impetuosamente em seus interstícios autorais!


Wesley Pereira de Castro. 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

A ROSA AZUL DE NOVALIS (2019, de Rodrigo Carneiro & Gustavo Vinagre)



Apesar das vicissitudes, quando tu morres, triunfas enquanto idéia”: na situação em que pronuncia o veredicto acima, o ator Marcelo Diorio – entrevistado ao longo de cabalísticos 69 minutos – narra alguns percalços da cantora Nina Simone (1933-2003), que, ao falecer, foi dotada de um halo positivo que encobriu as incongruências inevitáveis de seu percurso na Terra. A morte tem este poder hagiografizante. Por isso, “sou um necrófilo”, confessa o ator, eternizado depoimentalmente num dos filmes brasileiros mais radicais do século XXI…


Extremamente bem-resolvido com a sua própria sexualidade, o protagonista rememora situações opressivas em seu núcleo familiar mais tenro: relata que a sua consolidação enquanto “bichona” corresponde exatamente àquilo que sua avó temia que ele se tornasse e compartilha que o maior desgosto de seu pai era que o filho apreciasse o ato de “dar o cu”. Obviamente, os integrantes masculinos de sua família eram adúlteros, e ele encontra em seu irmão mais novo um inusitado conforto: obteve transas incestuosas prolongada por vários meses, até que este faleceu precocemente, num acidente automobilístico. No porta-luvas do carro, dois exames de gravidez efetuados por diferentes namoradas do falecido...


Ao narrar estas anedotas familiares, Marcelo não utiliza um tom acusatório, mas de compreensão aberta das hipocrisias legitimadas por uma sociedade machista e classista. Não por acaso, logo em seguida, ele apresenta-nos aos seus parceiros em aplicativos eletrônicos para obtenção de sexo fugaz: um dos rapazes é podólatra; outro urina sobre ele; um terceiro ejacula em seu rosto, numa alusão litúrgica ao poeta alemão Novalis [1772-1801], obcecado pela rosa azul do título.


As utopias perderam o sentido na contemporaneidade? Essa talvez seja a questão mais elementar deste filme-ensaio primoroso, que defende a sexualização como traço elementar do cotidiano saudável. Mesmo para quem tem AIDS, inclusive. A saúde defendida pelo filme é de outra esfera: transcendental e holística!



Wesley Pereira de Castro.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

PRAIA DO FUTURO (Brasil/Alemanha, 2014). Direção: Karim Aïnouz.

Por mais desengonçado que seja este filme (principalmente em seu caricato terço final), é inegável que Karim Aïnouz realizou um trabalho autoral: as obsessões narrativas e formais de suas obras anteriores ressurgem transmutadas sob a atmosfera teutônica da cidade em que o diretor atualmente habita.

Protagonizado por um Wagner Moura cujo maior mérito é suplantar as encarnações elogiosas doutros filmes [o propalado heroísmo de Donato nada tem a ver com as façanhas dúbias do Capitão Nascimento de “Tropa de Elite” (2007, de José Padilha), por exemplo], “Praia do Futuro” escancara em seu título uma preciosa chave interpretativa, ostensivamente divulgada durante os créditos finais, quando o logotipo de abertura aparece invertido.

Ou seja, se no início do filme, Praia do Futuro designa um substantivo próprio, o local no qual Donato trabalha como salva-vidas, em seu segmento final, este título é revestido de uma forte envergadura conotativa, metonimizado no instante em que Donato mostra a seu irmão Ayrton a praia alemã que ainda não é assim percebida, visto que, naquele instante, o mar fora deslocado para outro lugar. Num trecho bastante conciso, o diretor (e co-roteirista) sintetiza brilhantemente os seus intentos fílmicos, embora estes sejam prejudicados justamente pela má concepção do personagem Ayrton, mal-interpretado na infância pelo garoto Sávio Ygor Ramos e vivificado sem intensidade na idade adulta por Jesuíta Barbosa.

Felipe Bragança é creditado como autor do roteiro, ao lado do próprio diretor, mas os nomes de Anna Muylaert, Marco Dutra e Marcelo Gomes também são citados como colaboradores. Diante disso, não se sabe precisamente de quem é a responsabilidade pelas soluções equivocadas do terceiro segmento do filme, “Um Fantasma que Fala Alemão”, que, apesar de ser deveras elucidativo, é também o menos interessante.

Nesta terceira parte do filme, a trilha musical originalmente composta por Volker Bertelmann (que aparece como Hauschka) destaca-se com mais vigor, pontuando momentos encantatórios, como aquele em que Ayrton observa o trabalho de um mergulhador que limpa as paredes vítreas de um imenso aquário (antes de sabermos que este é Donato) ou o longo plano móvel que antecede os créditos de encerramento, no qual os veículos em que estão o trio de personagens deslocam-se numa passagem enevoada, enquanto o protagonista vivido por Wagner Moura recita uma carta imaginariamente escrita por ele (apelidado de Aquaman, como seu irmão o chamava) para Ayrton (cognominado Speed Racer), em que se chega à conclusão de que “existem dois tipos de medo: o de quem finge que nada é perigoso, e o de quem sabe que tudo é perigoso”. A distinção é evidente entre ambos os irmãos, por mais que a forçação dramática de cunho familiar quase desperdice a pujança emotiva desta declaração.

No segundo segmento do filme, o esplêndido “Um Herói Partido ao Meio”, a fotografia magistral de Ali Olay Gözkaya é utilizada no auge de sua beatitude: o instante em que Donato é mostrado ébrio numa boate, ao som de uma linda canção turca, pouco depois de comunicar ao seu amante que planeja voltar para o Brasil, é maravilhoso, pontuado por uma tonalidade avermelhada embriagante. O insigne momento em que Konrad (Clemens Schick) cantarola “Aline”, famosa canção do francês Christophe, num karaokê doméstico para Donato faz com que tenhamos a impressão de que este segmento é uma espécie de versão gélida do mesmo estado de espírito que preenchia o árido e passional “O Céu de Suely” (2006).

Não obstante o título deste segundo capítulo fazer menção ao caráter de Donato – que, apesar de reclamar que o seu coração e o seu cérebro não estão integralmente devotados a Konrad, desiste de retornar para o seu país-natal, para a sua família e para o seu antigo emprego – é o personagem alemão quem se sobressai dramaturgicamente, sendo bastante convincente em suas omissões íntimas (quem é a garotinha que aparece num quadro pendurado na parede de sua sala, por exemplo?), mancomunando-se brilhantemente ao estilo elíptico da trama. A cena em que, numa brincadeira de namorados, Konrad impede que Donato, recém-chegado à Alemanha, mergulhe num rio e o diálogo que eles travam num parque – quando começa a nevar exatamente após Donato reclamar que “não suporta viver num lugar sem praia” – são duas comprovações adicionais da maestria romântica deste segmento intermediário.

 Se, ao término do filme, a execução da icônica canção de David Bowie “Heroes” (convertida subitamente na versão alemã da mesma, “Helden”), parece uma escolha demasiado óbvia – mas compensada pela efetividade beatífica do fundo exageradamente vermelho dos créditos finais [que realça a significação idealizada do título da realização prévia do cineasta, o malfadado “O Abismo Prateado” (2011)] –, em sua maravilhosa seqüência inicial, Konrad e um amigo (que morrerá afogado) são mostrados dirigindo suas motocicletas em altíssima velocidade pelas paisagens fascinantes da capital cearense, Fortaleza.

 Com o falecimento do amigo do protagonista – cujo corpo não será encontrado – Konrad aproxima-se eroticamente de Donato, de um modo tão brusco quanto foi a morte do outro, que ele conhecera durante uma operação bélica no Afeganistão: Konrad e Donato transam no interior de um automóvel poucas horas após este último informar ao primeiro sobre o fato que intitula o segmento em pauta, “O Abraço do Afogado”. “Praia do Futuro”, destarte, é um filme que traz em sua própria moldura [a ótima montagem de Isabel Monteiro de Castro, parceira habitual do diretor] o esfacelamento afetivo que advinha do cotidiano profissionalmente opressivo do protagonista do genial “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (2009, co-dirigido por Marcelo Gomes). Não é feliz em todos os seus propósitos pois o que parece ser mais proposital nos envolvimentos amorosos focalizados pelo diretor é justamente a constância da infelicidade, que, por sua vez, não prescinde de píncaros epifânicos de beleza. O olhar desolado de Sophie Charlotte Conrad como a abandonada Dakota, jovem loira com quem Ayrton tenciona fazer sexo anal, é uma vigorosa demonstração deste pressuposto, fazendo com que a viagem afoita de Donato seja permeada por anseios muito mais urgentes que “dar o cu escondido no Pólo Norte”, conforme seu irmão insinua, numa manifestação de rancor acumulado.

É um filme autoral, que afeta até mesmo quem ousa desvencilhar-se das identificações pessoais com os personagens marcados pelas emoções sub-reptícias, inclusive quando estas parecem explodir em agressões imitativas e aparentemente inofensivas de estórias de super-heróis lutando contra vilões, em que o suicídio aparece como solução válida após o extermínio do derradeiro inimigo...

Wesley Pereira de Castro.

domingo, 20 de outubro de 2013

SERRA PELADA (Brasil, 2013). Direção: Heitor Dhalia.

O interrogatório em ‘close-up’ a que o personagem Juliano (Juliano Cazarré) é submetido no plano que antecede o crédito de abertura deste filme promete interessantíssimas reviravoltas no roteiro escrito pelo próprio diretor, em colaboração com Vera Egito: quando perguntado acerca de sua filiação, Juliano declara que é filho de pai desconhecido; insiste para o interrogador que a sua profissão é a de garimpeiro; e, quando lhe questionam se ele já assassinou alguém ou se está envolvido com tráfico de drogas, ele silencia, somente voltando a se expressar verbalmente quando defende energicamente a honra de um amigo hospitalizado, acusado de também estar envolvido em esquemas criminosos. Surge, então, o título do filme, entremeado por recortes telejornalísticos sobre a febre do ouro na região de Serra Pelada, situada no município paraense atualmente batizado como Curionópolis. Daí por diante, o vigoroso potencial sociológico, dramático e eminentemente cinematográfico que poderia emergir a partir desta premissa inicial é, infelizmente, acometido por uma vacuidade atroz...

Narrado pelo personagem Joaquim – chamado apenas de Professor ao longo do filme – da mesma forma jargonada e onisciente que caracteriza “Cidade de Deus” (2002, de Fernando Meirelles & Kátia Lund) e “Tropa de Elite” (2007, de José Padilha), “Serra Pelada” (2013) tem na composição deste protagonista um de seus defeitos mais evidentes, no sentido de que, para além dos esforços actanciais de Júlio Andrade, sua vivência é completamente inorgânica num cotejo com os demais elementos contextuais do filme: não apenas sua amizade de infância com o turrão Juliano é inverossímil como as suas reações desenxabidas tornam praticamente nula a sua presença em cena, sendo desprovidas de veemência emotiva as agruras em que ele se envolve, como ser traído por causa de dinheiro pelo melhor amigo e ter corpo e alma vilipendiados por uma jornada de trabalho inglória.

O que justifica a incoerente perspectiva deste personagem, já que tudo o que acontece recebe o seu crivo analítico, é precisamente a competência dos atores que o circundam, destacando-se a breve e desperdiçada aparição de Matheus Nachtergaele como o ambicioso Carvalho, o sutil cerceamento do vilanaz Lindo Rico (numa surpreendente e espetacular atuação de Wagner Moura), e a consistência compositiva do personagem Juliano, cujo intérprete homônimo dota-o da rudeza imediatista associada ao apelido Grandão desde a supracitada seqüência do interrogatório, que, quando reinserida linearmente na narrativa, não possui o mesmo ímpeto. O motivo: a cadência de eventos enredisticamente atrelados aos efeitos psicologicamente destrutivos da “febre do ouro” é frouxa, o que desencadeia um desfecho absolutamente anticlimático, em que, depois de enviar ao atabalhoado Joaquim um cheque e uma fotografia do momento feliz em que “bamburraram” (ou seja, encontraram uma larga quantidade de ouro, segundo a gíria local), Juliano invade a sede das atividades de Lindo Rico com a intenção de assassiná-lo vingativamente. No auge do que seria mais uma pretensa seqüência de ação, o filme acaba!

A conformação gangsterista das atividades criminais que balizam o roteiro de “Serra Pelada” distancia-no até mesmo do impactante viés telejornalístico apresentado no início e faz com que ele se assemelhe – guardadas as devidas proporções imitativas – a filmes policiais hollywoodianos, como as sagas mafiosas conduzidas por Francis Ford Coppola ou Martin Scorsese, sendo evidente o quanto Heitor Dhalia tentou estresir alguns dos cacoetes desses diretores, ignorando os próprios traços estilísticos que concatenam obras tão variegadas quanto o genial curta-metragem “Conceição” (2000), o equivocado “Nina” (2004), o pitoresco “O Cheiro do Ralo” (2006) e o ótimo “À Deriva” (2009).

 Se, em suas realizações anteriores, Heitor Dhalia destacava-se por parecer (e, eventualmente, conseguir ser) um diretor modernoso, em “Serra Pelada”, as exigências produtivas tornaram-se imperativas e a obra oferece-se de maneira incompleta, amorfa e esvaziada em mais de um aspecto, principalmente no que diz respeito à intragável combinação entre a montagem de Márcio Hashimoto Soares [também responsável pela disritmia do execrável “Faroeste Caboclo” (2013, de René Sampaio)] e a direção fotográfica de Lito Mendes da Rocha, que deixam o filme negativamente evanescente: raramente consegue se perceber algo em foco durante a projeção, tamanha a constância de cortes bruscos e da câmera em perene movimento epiléptico, sendo difícil averiguar os demais elementos cênicos sob tal tremelique, o que afeta sobremaneira a interpretação de Sophie Charlotte como a prostituta Tereza, deveras caricatural em suas pretendidas nuanças emocionais. A cena em que ela tenta fugir dos perseguidores enviados por Juliano, ao som de “Eu Te Amo, Meu Amor”, de Frankito Lopes (um dos artistas que compõem a ótima seleção de canções que assessora a partitura eficiente de Antonio Pinto), é horrível em sua vacuidade efetiva: ouvimos a canção, percebemos que há pessoas correndo na tela e entendemos o contexto sarcástico da circunstância – em comunhão direta com o cinismo enumerativo da narração de Joaquim – mas, visualmente, a seqüência é pífia, um subaproveitamento dos diversos talentos envolvidos.

 Para que não se diga que o filme é de todo ruim, algumas imagens fugidias de Juliano sobre um terreno arenoso plano e avermelhado e as reconstituições de fotografias antigas de Serra Pelada em pleno apogeu aurífero, misturadas a trechos de registros documentais da época, demonstram que, se não fosse por causa da montagem aceleradíssima e inconveniente, o trabalho do fotógrafo Lito Mendes da Rocha não seria tão destituído de validade estilística. O mesmo pode ser dito sobre a inculcação tramática das atividades de garimpeiros homossexuais, reduzidos a uma inimizade quase espectral com Juliano, principalmente na figura do agressivo Marcelo (Liu Arisson). As observações pontuais sobre a aceitação tangencial dos comportamentos pederásticos pelos trabalhadores desprovidos de álcool e mulheres, pelo menos até que as notícias de contaminação pela AIDS se espalhem enquanto mais um indício de periculosidade paranóica, é um detalhe bastante relevante e que poderia render uma portentosa subtrama, caso o roteiro fosse dotado de sustentáculos sociológicos consistentes, mas, infelizmente, as intervenções dos personagens homossexuais no filme reduzem-se a pendengas tão gratuitamente provocadas quanto rapidamente resolvidas (ou interrompidas).

 O que sobra de realmente válido em “Serra Pelada”, em sua demonstração superficial de como milhares de homens, seduzidos pelos delírios de riqueza, “cavaram uma pirâmide ao contrário, mudando literalmente um morro de lugar”, é o vigor do elenco, formado por atores mui competentes que foram sufocados por condições técnicas que extraíram a humanidade de suas vivificações, fazendo com que o filme seja lancinantemente contaminado pela estrutura geograficamente corrosiva de sua trama. Ao final, as diluições de caráter que são mencionadas enfaticamente na narração de Joaquim impregnam o próprio filme, que é inconcluso, desalinhado, dramaturgicamente inane e contributivamente parco na filmografia dotada de personalidade de Heitor Dhalia. Por mais que seja intentada uma correlação situacional entre o que acontecia no garimpo e eventos históricos mais gerais da História do Brasil, como as lutas estudantis pelas eleições diretas, o roteiro ignora situações-chave, como, por exemplo, as intromissões diretas do governo militar sobre a exploração dos recursos minerais da região Norte da nação.

As imagens televisivas que aparecem vez por outra são desprovidas de criticidade, tanto quanto o são as tentativas insistentes dos filmes produzidos sobre a égide da Globo Filmes em demonstrar que a emissora televisiva correspondente observou de forma emergente as intensas transformações sociais brasileiras da década de 1980. Por estes e outros motivos, “Serra Pelada” é uma verdadeira ode ao desperdício!

 Wesley Pereira de Castro.

domingo, 30 de junho de 2013

OS AMANTES PASSAGEIROS ('Los Amantes Pasajeros') Espanha, 2013. Direção: Pedro Almodóvar.

A demarcação publicitária deste filme enquanto comédia fugaz fez com que muitos dos admiradores contumazes do cineasta Pedro Almodóvar encarassem previamente o mesmo como uma obra menor, como uma produção escapista que ameaçava não ostentar as diversas marcas registradas do genial diretor. De fato, tal pré-julgamento é provido de sentido, visto que este filme é bastante estranho na configuração atual da obra do artista espanhol, que, já tendo se estabelecido como um dos grandes autores cinematográficos da atualidade, realiza um filme que pretende mesclar o refinamento impudico de suas produções recentes com a amoralidade desenfreada de seus primeiros longas-metragens.

O resultado é deveras irregular, mas condizente com o título, pois o adjetivo contido no mesmo – polissêmico em sua utilização, dado que o cenário predominante do filme é o interior de um avião – sintetiza muito bem o efeito que se instala após a sessão, uma tendência ao esquecimento que vai radicalmente contra o que se convencionou esperar de uma obra almodovariana, comumente permeada pela subversão de tabus (principalmente, sexuais) que ainda incomodam bastante a sociedade espanhola – e mundial, como um todo.

 Por mais que a animada seqüência de abertura, musicada por um pasticho da “Für Elise” beethoveniana (interpretada por uma banda de nome Los Destellos), e a presença de vários colaboradores habituais do diretor em pequenos papéis (Antonio Banderas e Penélope Cruz, por exemplo, que aparecem em apenas uma seqüência) dêem a entender que “Os Amantes Passageiros” é uma homenagem ao pendor cômico e histriônico que exalava das obras primevas do cineasta, a quebra (positiva) de ritmo narrativo que se instala quando acompanhamos os dilemas românticos de uma ex-aeromoça (vivida pela belíssima Blanca Suárez) apaixonada por um ator mulherengo (Guillermo Toledo) envolvido com uma pintora com tendências suicidas (Paz Vega) denota a debilidade estrutural do roteiro, particularmente desinteressante quando focado no envolvimento passional que se estabelece entre o matador de aluguel vivido por José María Yazpik e a cafetina sadomasoquista de luxo interpretada por Cecilia Roth (caricata ao extremo).

A atuação de Lola Dueñas, como uma vidente virgem que emula tanto o olhar concomitantemente abobado e mordaz de Carmen Maura nos filmes iniciais do diretor quanto as diatribes femininas que pululam em “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” (1988), também é afligida por este desinteresse, no sentido de que as situações em que ela se envolve são forçadas e inespontâneas, não obstante as pulsões humorísticas sinceras advindas do momento em que ela segura os pênis de dois homens para prever o futuro ou quando ela, numa crise lúbrica, pensa em utilizar uma lanterna como vibrador improvisado. Tanto os diálogos proferidos pelos três últimos personagens citados quanto a presença em cena de José Luis Torrijo como um banqueiro falido, prestes a ser preso por corrupção, assumem-se como defeitos prolongados deste filme, sem dúvida o menos elaborado de toda a rica produção almodovariana.

 A trinca de atores afetados que vivificam os comissários de bordo é excelente e, por causa deles, as risadas, objetivo central da película, são alcançadas: Javier Cámara destaca-se como o sinceríssimo Joserra, que, além de ter um caso com o piloto bissexual bem interpretado por Antonio de la Torre, envolve-se em diversas confusões por causa de sua inabilidade de mentir; Raúl Arévalo [Ulloa] surge como um contraponto mais cínico, dotado de uma sensualidade dúbia, que desemboca na satisfação felacional com o formoso co-piloto até então heterossexual vivido por Hugo Silva, com quem se entrega a uma demorada transa sob a espuma no desembarque emergencial do final; e Carlos Areces transforma o religioso Fajas num hilário personagem moralista e solitário, repleto de cacoetes femininos e bastante funcional enquanto instância equilibradora das (re)ações determinadas e audaciosas dos outros dois funcionários. Entretanto, a divertida cena em que eles dançam freneticamente ao som de “I’m So Excited” (na versão de The Pointer Sisters) não é tão efusiva quanto se pretendia, e soou tão deslocada quanto o próprio Fajas alega, quando assevera para uma passageira intransigente que eles talvez tenham escolhido mal a canção apresentada enquanto alívio cômico. É uma cena hilária, mas muito aquém do que o próprio Pedro Almodóvar obteve em filmes anteriores, o que é sobremaneira prejudicado pelo abandono, neste filme, da intertextualidade cara ao estilo do diretor, justificada diegeticamente pelo fato de que os passageiros não podem assistir a nenhum filme a bordo por conta do problema técnico que os comissários tentavam manter em sigilo.

 Felizmente, há uma compensação formal nas seqüências em que os personagens falam ao telefone e as vozes de seus interlocutores são reproduzidas num alto-falante, permitindo uma comicidade paradigmática (no que tange à interligação progressiva das subtramas) que tem muito a ver não apenas com o estilo do diretor como com a sua preocupação (antecipada desde a cartela de abertura, que destaca que “este filme é uma fantasia e, por causa disso, não tem nada a ver com eventos reais”) em afastar a comicidade do ‘nonsense’ típico de produções do gênero, visto que, salvo pelos excessos etílico-comportamentais dos tripulantes da aeronave, esta é exibida de um modo que preserva a lisura profissional dos personagens, afinal bastante sérios no desempenho geral de suas funções.

 Tecnicamente, os colaboradores habituais do diretor oferecem ótimos aportes, ainda que destoados do simplismo do enredo: a montagem eficiente de José Salcedo e as variações musicais do compositor Alberto Iglesias são merecedoras de elogios, porém o aspecto mais laudatório deste filme, além das interpretações anteriormente citadas, é a deslumbrante direção fotográfica de José Luis Alcaine, exuberante tanto nos momentos em câmera lenta [quando o telefone celular de uma potencial suicida cai na cesta da bicicleta de uma transeunte ou quando um sensual passageiro de ascendência árabe (Nasser Saleh) é estuprado durante o sono por uma mulher excitada e abre os olhos enquanto ela é penetrada de costas por ele] quanto na providencial utilização excessiva de elementos vermelhos, mesmo quando o cenário praticamente único é permeado pelos tons azulados da empresa aérea retratada no filme (a fictícia Península), sem mencionar o genial enquadramento da tela de celular gotejada de sangue que é segurada por um funcionário desastrado (Coté Soler) quando este publica no Twitter que está justamente a sangrar, depois de ter sofrido um leve acidente.

As piadas envolvendo as pílulas de mescalina que estavam escondidas no ânus de um passageiro recém-casado (Miguel Ángel Silvestre) e a desenvoltura com que se apresentam as ocorrências de homossexualidade são aspectos roteirísticos que confirmam o entusiasmo do pesquisador Denilson Lopes no que diz respeito a uma manifestação afirmativa da experiência ‘gay’, aqui bastante diversa da conotação ‘queer’ que abundava na obra do diretor. Segundo o pesquisador, “o encontro de dois homens pode ser apenas um encontro, mas também pode ser uma possibilidade de diálogo e abertura para o mundo, desafio maior de todo discurso minoritário, alguma vez discriminado”, o que salvaguarda a condição passageira dos tais encontros no filme, que, no discurso sub-reptício à alegria mostrada no filme, encara a sexualidade com uma destreza bastante peculiar, antenada com a militância homossexual hodierna, subsumida pela lógica do consumo, mas, ainda assim, marcada pela necessidade de discussão dos novos papéis ocupados pelos ‘gays’ na sociedade.

Nesse sentido, o que parece mais prejudicial neste filme é dotado de uma função política minoritária que pode ser hermeneuticamente resgatada em meio à confirmação da decepção estilística antevista pelos empedernidos fãs almodovarianos. Conclui-se que o cineasta não deixou de ser um excelente “autor de cinema” ao resolver privilegiar a diversão em detrimento da reflexão em seu filme menos inspirado, enfim!

 Wesley Pereira de Castro.

domingo, 5 de maio de 2013

SOMOS TÃO JOVENS (Brasil, 2013). Direção: Antônio Carlos da Fontoura.

Afastado do cinema há alguns anos [seu último filme fora o premiado e ainda não-visto “No Meio da Rua” (2006)], muito se especulou acerca deste retorno de Antônio Carlos da Fontoura à direção. Consagrado por conta de seu retrato cru da marginalidade carioca em “A Rainha Diaba” (1974) e pelo erotismo ousado de “Espelho de Carne” (1984, a ser conferido em sua integralidade), muito se indagava acerca de uma injunção moralmente asséptica na biografia do cantor e compositor Renato Manfredini Júnior (1960-1996), conhecido nacionalmente como Renato Russo.

A primeira aparição de Thiago Mendonça como o personagem deixa patente o cuidado do ator em reproduzir com a maior similaridade possível os tiques e afetações do célebre vocalista da banda Legião Urbana. Se não se pode atribuir ao seu desempenho um adjetivo inferior a “ótimo” (e é evidente que o ator estava ciente de toda a responsabilidade de sua personificação e dos julgamentos que enfrentaria numa comparação com o artista representado), a recriação do contexto em que seus dotes musicais são evidenciados peca pelo didatismo comercial, no pior sentido da expressão: em mais de um momento, os diálogos assemelham-se a “caça-frases” de passagens famosas de letras posteriores do cantor, misturando versos de canções como “Eduardo e Mônica” e “Tédio (com um T Bem Grande Pra Você)” às divagações existenciais classistas do personagem principal, criando um efeito desconfortável para o espectador que conhece a fundo a trajetória do artista.

Ou seja, por mais interessante que seja o deslindamento dos fatos da juventude de um dos compositores mais importantes do País, as contradições produtivas inevitáveis à concepção deste enredo (vigiado de perto pelas pessoas que conheceram Renato Russo nesta idade e que ainda estão vivas – sua mãe Carminha à frente) explicam o tom enviesado de algumas cenas que se pretendiam emocionantes, boa parte delas relacionada às pulsões homossexuais “não fisiológicas” do biografado.

 A personagem Aninha (vivida pela iridescente Laila Zaid), melhor amiga do protagonista, era um dos fatores que mais perturbavam a crítica antes do lançamento do filme, por conta da assumida conciliação biográfica de várias garotas que circundaram o cantor na adolescência, mas ela engendra motivacionalmente os instantes mais singelos do filme, como, por exemplo, quando Renato lhe dedica a letra de “Ainda é Cedo” num concerto organizado para apresentar a sua nova banda, a Legião Urbana, ao jornalista cultural Hermano Vianna (vivido por Leonardo Villas Braga).

A informação contida nos créditos de que “este filme é uma adaptação livre de eventos e personagens reais” talvez proteja o roteiro de Marcos Bernstein de ataques mais inveterados, afinal justificados pelo chamariz publicitário embasado numa fidedignidade composicional, a ponto de fazer com que Thiago Mendonça (de fato, muito parecido com o personagem real) cantasse – muito bem, aliás – quase todas as canções do Renato Russo que aparecem no filme. Neste sentido, vale acrescentar que o roteiro é eficiente em sua apresentação factual, mas, obviamente, se deslumbra nalguns aspectos (a composição do personagem sul-africano Petrus, vivido por Sérgio Dalcin, por exemplo) e exagera e/ou se equivoca noutros (com destaque para a reação depressiva de Renato à notícia da morte de John Lennon e para a sua errância melancólica depois que rompe com os companheiros do Aborto Elétrico pela primeira vez). A temida assepsia comportamental que irrompia no ‘trailer’ não é tão incômoda (o protagonista quase enceta um romance com outro rapaz, aliás), mas as dificuldades atreladas aos questionamentos morais, sociais e políticos que Renato Russo apregoava em Brasília foram mal exploradas.

 Não obstante a eficiente pesquisa sobre a cena musical brasiliense do período – bastante interconectada, conforme o personagem de Renato Russo enfatiza na ótima cena em que oferece ao repórter Hermano um “mapa da promiscuidade dos músicos locais” – as intervenções dos familiares do protagonista eram xaroposas ao extremo, seja as cobranças automáticas de seu pai (horrivelmente interpretado por Marcos Breda) seja a assistência titubeante de sua mãe (apaticamente vivificada por Sandra Corveloni), passando pela ingenuidade irritante de sua irmã Carmem Teresa (Bianca Comparato).

No elenco, portanto, as contribuições mais interessantes aos ótimos desempenhos de Thiago Mendonça e Lara Zaid estão nas figuras de Bruno Torres (Fê Lemos) e Daniel Passi (Flávio, paixão platônica do protagonista), que interpretam os irmãos que eram membros da banda Aborto Elétrico e que, futuramente, integrarão o grupo Capital Inicial, cujo líder, o cantor Dinho Outro Preto, é brevemente mostrado no filme através de um ator jovem (Ibsen Perucci) com muita semelhança física em relação a ele, ainda que, enquanto cantor, a versão intrafílmica para “Música Urbana” fique bastante aquém do original.

 Por mais delicado que seja admitir isso, dada a conjugação desagradável de fatores que torna “Somos Tão Jovens” um filme muito mais oportunista em sua exploração da figura do ídolo do ‘rock’ biografado que um tributo respeitoso à sua importância inquestionável no panorama musical brasileiro (visto que a Legião Urbana ainda é uma influência quase onipresente nos cursos que visam ao ensino do violão, além de ser uma banda bastante ouvida por adolescentes que nasceram após a morte do seu vocalista), este filme não é ruim.

 O recorte temporal adotado no roteiro foi bastante bem-sucedido em sua reconstituição de aspectos menos conhecidos da vida pessoal de Renato Russo (que, felizmente, é retratado como um rapaz rico presunçoso e desarranjado, como parecia ser), por mais que soe novelesco em seus momentos mais pretensamente ‘punks’, como aquele em que o personagem principal troca a trilha sonora ‘disco’ de uma festa por uma fita cassete com suas músicas barulhentas londrinas favoritas do período.

 A direção de Antônio Carlos da Fontoura se conforma à subserviência narrativa típica das cinebiografias [mais ou menos como fez no chistoso “Uma Aventura do Zico” (1998)] e, no máximo, opta por desgastados movimentos de câmera frenética nas cenas musicais, distanciando-se bastante do frescor demonstrado em suas obras anteriores.

Soando deveras anódino para os fãs longevos de Renato Russo e oferecendo uma empolgação comedida para as gerações que ainda estão descobrindo as consistentes variações temático-emocionais ao longo de sua carreira, o filme ao menos é funcional em seu detalhamento elementar ficcional, como, por exemplo, ao relacionar o pendor intelectual do cantor às leituras forçadas que fez quando se recuperava, confinado em sua cama, da cirurgia de quadril a que teve que se submeter depois que descobre que padece de epifisiólise quando sofre uma queda de bicicleta. Oficialmente, este é um aspecto negativo do roteiro em sua demarcação ideológica (Renato declara-se entediado de tanto ler e, apesar de se confessar um cinéfilo admirador de Jean-Luc Godard e Joseph Losey, não fala sobre cinema quando está fora de sua banheira), mas involuntariamente sincero em sua exposição dos interesses produtivos aos quais a história do filme (com H minúsculo, malgrado as pertinentes citações à ditadura militar) se subordina. A relação publicitária com o vindouro lançamento de “Faroeste Caboclo” (2013, de René Sampaio) que o diga!

 Wesley Pereira de Castro.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O GOLPISTA DO ANO ('I Love You, Phillip Morris') EUA, 2009. Direção: Glenn Ficarra & John Requa

“Papai Noel às Avessas” (2003, de Terry Zwigoff), filme anteriormente roteirizado pelos diretores-roteiristas do filme ora analisado, apresenta o mesmo problema dominante que este em relação à sua apreciação receptiva/distributiva: a indefinição do tom moral que se sobrepõe à narrativa. Ou seja, se naquele filme havia um personagem voluntariamente marginalizado que, obrigado a enfrentar situações humanitariamente dignificantes, é privado pelo roteiro de sua propensão à regenerabilidade, o mesmo acontece neste filme mais recente, em que o personagem real biografado é anunciado como terminantemente confinado numa prisão durante os letreiros que antecedem os créditos finais. Entretanto, em relação ao filme dirigido por Terry Zwigoff, a estréia como diretores de Glenn Ficarra & John Requa beneficia-se de um detalhe qualitativo basilar, maravilhosamente destacado no título original do filme: a coerência emocional que permeia toda a trajetória de erros do protagonista.

Ou seja, por mais que as várias facetas de Steven Russell fossem pautadas pela execução progressiva de mentiras, conforme reclama o remetente Philip Morris, ele realmente amava este personagem e, como tal, o filme se sobressai como uma das mais inusitadas e irreverentes declarações de amor do cinema atual. O fato de esta declaração de amor ser correspondente a um romance homossexual é um detalhe brilhantemente normalizado pelo roteiro, que se beneficia de três estratégias geniais: primeiro, fazer questão de frisar que, não obstante haver uma radical mudança de comportamentos por parte do protagonista em relação à sua transmutação de marido heterossexual para golpista “bicha”, esta mudança comportamental é motivada bem mais pela assunção de uma tendência sexualista demonstrada desde a infância do que necessariamente por um pantim retratador; segundo, construir as práticas sexuais do protagonista e seus eventuais parceiros como sendo deveras naturalizadas, até mesmo em situações consideradas ofensivas para o público comum, como associar a ingestão de esperma depois de uma felação a uma declaração de afeto; e, terceiro, dissociar a estereotipia crível de alguns personagens da tendenciosa legitimação de preconceitos que pode ocorrer através do humor, visto que os roteiristas eram não somente plenamente cônscios de que isso poderia acontecer, como são plenamente fiéis à representação dos personagens, no sentido de que é plenamente sabido que a afetação exacerbada é, de fato, a característica mais perceptível na postura de alguns ‘gays’.


A inteligência sobressalente da seqüência que deixa explícito este terceiro estratagema merece uma descrição pormenorizada, em virtude não somente de seus potenciais narrativos básicos, mas também porque é a maior ferramenta discursiva contra espectadores precipitadamente acríticos que tendem a tachar o filme de “homofóbico”, quando ele opera justamente pela lógica inversa: a normalização impressionante dos comportamentos sexuais supostamente pervertidos dos personagens. Se eles são julgados como desviantes, isso se deve a rupturas legislativas bem mais amplas, que trazem novamente à tona a indefinição de tom moral destacada no início deste texto e que voltará na conclusão do mesmo.

Mas, antes, regressemos à descrição da cena que se configura como a mais importante para a interpretação discursivamente laudatória deste filme: num dado momento, o protagonista Steven Russell, já trabalhando como consultor financeiro de uma grande empresa, conta a uma secretária um chiste anedótico envolvendo um advogado qualquer que cobra uma grande quantia para que seu cliente possa-lhe fazer três perguntas, sendo este último lesado até mesmo neste direito numérico básico. Em seguida, vemos a mesma piada ser recontada por diversos outros personagens figurantes, até que, após várias versões levemente modificadas da mesma piada, vemos Steven Russell ouvir a mesma estrutura cômica que difundira ser-lhe devolvida pelo patrão com uma diferença crucial: os dois interlocutores da piada eram agora um negro e um judeu, ambos tipos humanos caracteristicamente vitimados por preconceitos humorísticos alheios. Detalhe: depois que acompanhamos este longo processo de demonstração de como o humor aparentemente inofensivo serve para ofender determinadas configurações humanas, descobrimos que a transmissão inicial desta blague tinha uma função deveras pragmática: distrair a secretária que a ouvia para que, assim, Steven Russell pudesse usurpar um carimbo que lhe seria bastante útil em suas futuras tramóias. Perfeito! Só esta cena preciosa justificaria todo o bem-estar intelectivo que o filme causa, mas ele é bem mais (e também menos) do que isso...


Como intérprete do protagonista real e inicialmente incredível em sua concepção, Jim Carrey não oferece uma atuação necessariamente ruim ou careteira (como estão a reclamar em alguns artigos). O maior problema de sua interpretação é um desgaste natural da figura do ator, que parece mais velho do que o personagem em diversos momentos, mas, mesmo assim, ele é bastante elogiável tanto nas cenas que amontoam inúmeros de seus golpes surpreendentes quanto naquelas em que ele evidencia o amor que sente por seu antigo companheiro de prisão. Rodrigo Santoro (que vive o antigo namorado aidético do protagonista, Jimmy) e Leslie Mann (que interpreta sua ex-esposa histericamente religiosa Debbie) têm desempenhos exagerados, mas também condizentes com o clima concomitantemente esquizofrênico e verossímil que permeia o filme, onde Ewan McGregor destaca-se pela construção detalhada, minuciosa e louvável do objeto frasal titular, Phillip Morris, numa atuação não somente ótima como também contrastante, no melhor sentido do termo, com a euforia reinante no enredo. A timidez de seu personagem, portanto, funciona como um bálsamo bem-vindo ao frenesi típico da presença em cena do dinâmico Jim Carrey, chegando ao píncaro da eficiência compositiva no empertigado percurso que ele enfrenta a fim de se despedir de seu namorado ao som de “To Love Somebody” (cantada na voz sofrida de Nina Simone), numa cena que emociona qualquer um que tenha se deixado levar pela sinceridade redentora do envolvimento romântico entre os dois.


Np plano técnico, portanto, direção, roteiro, trilha sonora, fotografia e montagem coligam-se muito bem no afã por divertir o público, ao mesmo tempo em que apresenta uma fábula amoral tipicamente contemporânea, realmente impressionante para ser verídica, conforme os letreiros de abertura fazem questão de frisar. Entretanto, conforme já foi anunciado, há um problema de tom geral sobre os juízos de valor destinados ao protagonista, que prejudica a sua apreensão relaxada enquanto um mero filme.

Se, por um lado, o decisivo julgamento do protagonista, aquele que o manteve peremptoriamente preso por pelos menos 23 horas diárias a uma cela, é criticado como sendo dominando por interesses vergonhosos pessoais de membros do júri, a separação física definitiva dos dois apaixonados ganha ares socialmente preventivos demasiado oportunistas, o que impede que, mais do que classificar este filme num dado gênero distributivo específico, não saibamos se ele serve mais aos ímpetos libertinos do cinema independente ou ao conservadorismo pseudo-embaçado por breves concessões temáticas que impera no dominante cinema de estúdios. Este pode parecer um problema menor – e é até interessante que assim pareça – mas limita os vôos ideológicos mais arrojados que este filme poderia alçar, mas deve-se ficar bem claro que isto não é um empecilho para o inusitado bem-estar que ele causa, tanto no plano do entretimento quanto da dignidade personalística: por mais estranho que pareça, as pessoas aqui retratadas são mostradas como reais, até mesmo em situações absurdas ou socialmente proibitivas. E, num contexto em que qualquer simples ato cômico pode retroalimentar um preconceito, isto é digno de menção elogiosa extra-filmica!

Wesley Pereira de Castro.

domingo, 23 de agosto de 2009

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN" (2005). Direção: Ang Lee


Rastrear tematicamente a trajetória fílmica de Ang Lee, mesmo que seja de maneira superficial, é uma atividade que permite ao espectador perceber que seus trabalhos versam sempre sobre o mesmo assunto: o questionamento da autoridade patriarcal como condição indispensável para a realização emocional dos indivíduos. Tanto em suas obras mais apuradas [“Comer, Beber, Viver” (1994), “Razão e Sensibilidade” (1995), “O Tigre e o Dragão” (2000)] quanto em suas produções carentes de maior inspiração [“Tempestade de Gelo” (1997), “Hulk” (2003)], o que se detecta é um mesmo conflito existente entre as posturas socialmente externas de um pai de família e a emancipação individual (seja criminal ou filantrópica) de seus filhos. Em sua mais recente produção, o enfoque é o mesmo – o impacto de admoestações familiares, transmitidas por vieses masculinos de geração em geração, na vida de determinados indivíduos –, com o diferencial particularmente relevante de que os dois protagonistas envolvem-se num insuspeito e cativante romance homossexual. Sendo assim, é importante averiguar o quanto a descrição realizada por Ennis Del Mar (Heath Ledger) acerca da homofobia ativa de seu pai interferiu drasticamente na sua recorrentíssima taciturnidade comportamental e o quanto o silêncio opressivo do pai de Jack Twist (Peter McRobbie) acerca das posturas homoeróticas do filho (Jake Gyllenhaal) perturbou terminantemente a personalidade sexual deste último, de maneira que ele ostenta uma perene e característica insatisfação erotógena nos contatos que trava com diversas pessoas ao longo de sua trajetória de vida. Interessantemente, tal perturbação sexual descamba na poderosa competição de influências educativas que ele manifesta em relação a seu sogro (Graham Beckel) frente ao filho desobediente e afetado, competição esta que equivale a um dos poucos momentos em que Jack abandona a passividade ferrenha que estigmatiza os seus relacionamentos diferenciados com Ennis Del Mar e com sua esposa Lureen (Anne Hathaway), que, não à toa, comemora a súbita explosão de raiva de seu marido.

Admiravelmente fotografado e musicado pelos talentos respectivos de Rodrigo Prieto e Gustavo Santaolalla, “O Segredo de Brokeback Mountain” filia-se com destreza a um padrão academicista de cinema, que, por incrível e lamentável que possa parecer, estava em falta em Hollywood nos anos recentes, não obstante tal academicismo ser justamente um dos componentes basilares do clássico cinema hollywoodiano. No que diz respeito ao tipo de organização fílmica elemental adotada por Ang Lee, tal opção pelo academicismo exacerbado está diretamente vinculada à ambição demonstrada em filmes anteriores pela investigação minuciosa de traços peculiares da configuração familiar norte-americana, sede do tipo de [decadência tácita da] autoridade paterna que o cineasta tanto anseia por criticar (ou legitimar, segundo alguns de seus detratores mais sensatos). Sendo assim, o extraordinário bucolismo que emula dos lindíssimos cenários naturais fotografados por Rodrigo Prieto pode assumir, na ótima estrutura enredística de Larry McMurtry e Diana Ossana (por sua vez, adaptada de uma estória escrita por Annie Proulx), uma função de retorno utópico ao ambiente em que os protagonistas mais se sentiam amparados um pelo outro, ainda que eventualmente tal amparo fosse gerado pela proximidade extenuante de situações de perigo físico ou de pauperismo monetário. Inclusive, seguindo essa mesma linha de análise, a fetichização geográfica contida no desejo póstumo de Jack Twist – ter suas cinzas espalhadas no local onde vivera belos momentos de amor com Ennis Del Mar – serve como uma oportunidade bem-aproveitada para que o rústico fazendeiro John Twist possa sobrepor sua autoridade paterna sobre a prestimosidade namoratória de Ennis, não permitindo a realização do desejo explicitado em vida por seu filho através da conveniente (e também verídica) reclamação de que ele se achava muito especial para ser enterrado no túmulo da família. Não seria esta reclamação um corolário tardio do desconforto existencial que motivava Jack a assumir posicionamentos passivos em suas experiências sexuais, bem como enxergar na disputa pela atenção do filho com o sogro um instante fugidio de superioridade legisladora?


Mesmo que o grande chamariz publicitário desta obra esteja na espontaneidade do relacionamento homossexual que se desenvolve entre dois vaqueiros troncudos, pode-se argüir que esse tipo de sentimento não passa de uma evolução natural do tipo forçoso de companheirismo que cinge os habitantes das inóspitas localidades do Oeste americano. Hipertrofiando o grau de respeito mútuo que alguns tendenciosos psicanalíticos prognosticaram como homossexualismo recalcado em filmes consagradamente viris como “Rio Vermelho” (1948, de Howard Hawks) e “Rastros de Ódio” (1956, de John Ford), “O Segredo de Brokeback Mountain” na verdade filia-se a uma tradição recente de emotividade no proletariado rural que já fora anteriormente engendrada em filmes muito bons como “Terra de Paixões” (1998, de Stephen Frears) e “Espírito Selvagem” (2000, de Billy Bob Thornton). Ou seja, é perfeitamente natural que, mais cedo ou mais tarde, um roteiro tradicionalista detivesse suas preocupações sentimentais no envolvimento romântico entre dois homens, não sendo tampouco surpreendente que, num futuro próximo, algum diretor mais habilidoso e ousado se disponha a abordar o relacionamento de dependência sobressalente que pode se estabelecer entre um vaqueiro e uma égua, por exemplo. Entretanto, o que mais chama atenção na abordagem sincera do filme em relação ao assunto é o modo como os protagonistas mantêm-se alheios às radicais mudanças comportamentais que estavam se efetivando pelo restante dos Estados Unidos da América na época em que se inicia a trama do filme (década de 1960), alheamento justificado este que dota de ainda mais crueza o relato amedrontado que Ennis Del Mar faz acerca do momento traumático infantil em que presenciara a castração fatal de um rancheiro por causa da vivência paramarital que este compartilhava em relação a alguém do mesmo sexo. Dessa forma, independentemente de a morte de Jack Twist ter-se desenrolado ou não da maneira como Ennis imagina (um espancamento homofóbico), uma das principais conclusões moralmente comodistas a que o filme pode chegar é que talvez não valha tanto a pena assim pôr em prática sentimentos amorosos que ofendam a sociedade ao nosso redor, conclusão esta que deve ser urgentemente refutada, sob pena de macular o brilhantismo de muitas outras situações contidas neste belíssimo filme, como, por exemplo, o modo terno com que Ennis Del Mar cuida da sua camisa manchada de sangue que fora encontrada no armário de Jack Twist.


Obviamente, o filme merece valorização egrégia pelo modo como retrata o homossexualismo, concedendo ao tema uma impressão de naturalidade que, pertencendo ao modelo convencional a que se vincula, favorece bastante a luta de militantes pederásticos que já perceberam que a reivindicação dos direitos homossexuais com base na troca espúria de acusações sexualistas não passa de uma armadilha infundada. Afinal de contas, havendo os estímulos societais adequados, o indivíduo pode entregar-se sem maiores problemas aos instintos primários de bissexualismo absoluto que foram mencionados na abordagem pioneira de Sigmund Freud sobre a sexualidade humana. Além disso, tal qual foi predito por Aristófanes, um dos interlocutores de uma famosa obra de Platão sobre o amor, a fim de “curar” a sua natureza humana, o homem pode casualmente envolver-se com outro homem, de modo que possa haver saciedade erótica em seu convívio para, em seguida, poder “repousar, voltar ao trabalho e ocupar-se do resto da vida”. É justamente sob essa perspectiva que as tendências uranistas se desenvolvem no melancólico Ennis Del Mar, enquanto que, no caso de Jack Twist, o que se percebe é um condicionamento relativamente pervertido que advém das frustrações familiares descritas alhures. Portanto, convém ressaltar a percepção acertada por parte de alguns críticos de cinema, que acharam previsível que a única mulher com que Jack se envolve durante o filme seja alguém que, desde o primeiro momento, assume completamente as rédeas (principalmente sexuais) do relacionamento, configurando um paliativo sublimatório para Jack no que diz respeito à sua passividade vitalícia, relacionada de um jeito bastante oportuno à sua vida prototipicamente mimada.

No intuito de fazer justiça aos melhores atributos fílmicos desta produção, cabe aqui um elogio extensivo (e, ainda assim, ínfimo) à sublime interpretação de Heath Ledger como Ennis Del Mar, num contexto em que cada um dos aspectos relacionados a tal personificação (caracteres físicos do ator, traços psicológicos do personagem e interpretação propriamente dita) mereça um breve comentário. No que diz respeito à interpretação actancial de Heath Ledger em seu sentido mais lato, é mister concordar racionalmente com os encômios unânimes que muitos exegetas do filme estão dedicando a seu trabalho, no sentido de que ele transmite com dramaticidade singular toda a angústia e determinismo solipsista que perpassa a existência terrena de Ennis Del Mar. No que se refere ao perfeito delineamento dos traços psicológicos e de caráter do personagem, cabe elogiar o modo acertado com que a equipe técnica do filme diegetiza suas inclinações subjetivas, de maneira que, além de o filme ser claramente narrado sob o seu melancólico ponto de vista, somos presenteados com antológicos momentos de cinema, como: a seqüência em que a suposta obrigação masculina de Ennis para gerar filhos serve como pretexto para a dissolução de um casamento prejudicado por problemas de atenção que não eram satisfatoriamente discutidos pela submissa Alma (Michelle Williams, deveras expressiva); a cena em que, num jantar de Ação de Graças, Ennis discute violentamente com sua ex-exposa, o que causa estupor paralisante no novo marido de Alma, desespero exo-sentimentalista nas filhas de Ennis e uma briga gratuita com um motorista iracundo; os bem-executados maneirismos fotográficos de Rodrigo Prieto, que é muito feliz ao focalizar Ennis através do espelho retrovisor circular do veículo de Jack (metonimizando brilhantemente a seletividade andromaníaca deste último) e ao mostrar Ennis em ‘contra-plongée’ frente a fogos de artifício após ter discutido com dois motoqueiros que ofenderam sua mulher (metaforizando mais brilhantemente ainda a explosiva condição interior da personalidade do protagonista); e a adequação, durante os créditos finais, de duas canções – “He Was a Friend of Mine” (interpretada por Willie Nelson) e “The Maker Makes” (cantada por Rufus Wainwright) – que respondem pela amalgamação idealista entre, respectivamente, a iconografia longeva do companheirismo ‘country’ e a elaboração artística de tendências homossexuais.Para finalizar, é impossível não se deslumbrar diante da figura física de Heath Ledger, um dos atores mais bonitos e charmosos da atualidade, cuja falta de envelhecimento no filme talvez possa ser explicada pelo mesmo argumento utilizado pelo genial cineasta Sylvio Back para justificar a ausência de modificações corporais nos personagens de “Aleluia, Gretchen” (1976): “quando as idéias não envelhecem, o corpo resiste”. Evitando-se aqui concordar com a misoginia sugerida em pontos estratégicos do filme, ignorando-se os problemas rítmicos instalados na patética seqüência em que a mãe de Jack Twist (Roberta Maxwell) está em cena e concordando-se inteiramente com a validade do adágio conformista [“quando não se tem nada, não se precisa de nada”] pronunciado por Ennis Del Mar em direção a sua filha involuntariamente volúvel Alma Jr. (Kate Mara), atesta-se: Heath Ledger é o ser humano mais adequado, num filme, para demonstrar o quanto pode ser sedutora, arrebatadora e problemática a contemplação passional de alguém do sexo masculino.

Wesley Pereira de Castro.